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Correio Braziliense

Literatura: poesia e pau de arara


postado em 27/05/2010 04:38 / atualizado em 27/05/2010 08:55

João Bosco no pau de arara: Romeu e Julieta em cordel(foto: Cícero Bezerra/Divulgação)
João Bosco no pau de arara: Romeu e Julieta em cordel (foto: Cícero Bezerra/Divulgação)
O escritor e poeta cearense João Bosco Bezerra Bonfim é um mestre em contar histórias em versos. Cordelista, ele lança nesta quinta-feira (27/5), na Biblioteca Demonstrativa de Brasília, mais uma obra que traz novamente uma temática bem nordestina: a esperança de uma vida melhor longe das agruras do sertão. Um pau-de-arara para Brasília é uma espécie de Romeu e Julieta em cordel e conta a saga de dois jovens namorados que precisa deixar o Nordeste e combinam de se encontrar em Brasília, no dia da inauguração da nova capital. E é claro, o meio de transporte utilizado não poderia ser outro: um legítimo e fatigado pau de arara. A menina tem o profético nome de Brasília, “moça de coragem, que largou lá pai e mãe, e embarcou nessa viagem”. O rapaz é o cordelista Assum Preto, que “leva ao peito sua mala e nela toda a sua fortuna, revelada quando fala: são folhetos de histórias que a viagem embalam”.

“O cordel é uma manifestação literária essencialmente brasileira, apesar de se valer de tradições do mundo inteiro. O interessante é que o gênero revela bastante a identidade nordestina, brinca com as palavras. Esse novo livro retrata bem a trajetória dos migrantes nordestinos, e eu queria fazer de uma maneira diferente. Porque o cordel tem essa coisa do cotidiano, mas ao mesmo tempo lida com o sonho, o onírico, o fantástico”, salienta João Bosoco, que é autor também de O romance do vaqueiro voador, citado como um dos 50 principais livros escritos sobre Brasília e que acabou virando filme.

Um dos pontos altos da obra são as ilustrações de Alexandre Teles. Segundo João Bosco, as imagens em xilogravura conseguiram transmitir com precisão as mensagens dos versos. “Sempre brinco que os ilustradores conseguem melhorar 100% o meu texto. Fiquei muito satisfeito e extremamente contente em ver o modo como o Alexandre captou a dramaticidade das minhas palavras”, diz.

Espetáculo

O lançamento de logo mais vai ser um “espetáculo de rua”, como João Bosco apelidou. Um caminhão, como os antigos paus de arara que vinham do Nordeste para Brasília, vai servir de palco para a apresentação dos repentistas Chico de Assis e João Santana. Eles vão improvisar uma cantoria em torno da temática da história. “O lançamento é aberto ao público e resolvi fazer num espaço que é um dos mais vivos da cidade, que é a Biblioteca Demonstrativa, na W3, e ainda na hora do rush para chamar os passantes. Vamos realmente fazer uma grande cena de rua”, revela.

João Bosco Bezerra Bonfim é doutor em linguística, com pesquisas sobre o discurso da mídia e a arte verbal do cordel. Além de O romance do vaqueiro voador, publicou diversas obras como A fome que não sai no jornal e Teoria do beijo. Nascido em 1961, no Ceará, o escritor mora em Brasília desde 1972.

UM PAU-DE-ARARA PARA BRASÍLIA
De João Bosco Bezerra Bonfim. Páginas: 44 páginas. Editora Biruta (SP). Preço: R$ 29. Lançamento hoje (quinta-feira), das 17h às 19h, na Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB) 506/507 Sul

Leia trechos do livro

A vida apartada
 
Lá vai o pau-de-arara,
aos solavancos, a avançar.
Leva homens destemidos,
de Pernambuco e Ceará.
Olhos, pura poeira,
só esperanças no embornal.

Assum Preto, bem seguro,
leva ao peito sua mala.
Nela, toda a sua fortuna,
revelada quando fala:
são folhetos de histórias,
que a viagem embalam.

Brasília chega a Brasília
 
Na longa estrada em que vão
Brasília e companheiros,
até onde a vista alcança,
admiram o chão brasileiro:
da Bahia, matas, campinas;
e os montes do chão mineiro.

Mas já atravessam Goiás,
mais logo, estão no destino:
sentem alegria e mágoa,
voltando a ser meninos.
De saudade, choram baixo;
ou riem em desatino.
 
Do alto do Colorado,
se vê a mancha brilhante:
luzes brotam do cerrado,
é um frenesi cantante;
uma visão delicada,
da cidade flutuante.

Num ponto sem cá, nem lá,
chega ela sem tardança
mas se sente bem perdida
– cão caído de mudança –,
precisa de um apoio
nesta cidade Candanga.

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