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Correio Braziliense

Literatura: o tempo que não volta mais


postado em 27/05/2010 04:51

Geraldo Maurício: histórias de meio século atrás, em Montes Claros (MG)(foto: Marcos Serra/Esp. CB/D.A Press)
Geraldo Maurício: histórias de meio século atrás, em Montes Claros (MG) (foto: Marcos Serra/Esp. CB/D.A Press)
As histórias contadas em Éramos felizes e sabíamos aconteceram há mais de meio século, em Montes Claros (MG). Brincadeiras da infância, amizades adolescentes, conversas, eventos engraçados e outros um pouco mais sérios estão reunidos em 37 contos, ou “causos”, como prefere Geraldo Maurício, organizador do livro, em que colaboraram 18 pessoas. “No interior daquela época, nós nos divertíamos pra caramba. Não tinha perigo, não tinha problema de segurança, na cidade todo mundo se conhecia, a gente brincava muito. Cada pessoa hoje tá com outra vida”, continua. Pique-esconde, chicotinho queimado, bolinha de gude e outros jogos não saíram da cabeça desses mineiros, que apresentam o livro aos brasilienses nesta sexta-feira (28/5), às 19h30, no restaurante Feitiço Mineiro (306 Norte).

Mas as trajetórias de cada um daquela geração voltaram a se cruzar em fevereiro de 2008, quando se comemorava o aniversário de um deles. No encontro, os integrantes da turma tiveram a ideia de fazer uma festa no fim do ano, para celebrar a marca dos 60 anos de nascimento do grupo nascido em 1948, ou pelo menos a maioria dele. A distância entre os amigos provocou a criação de um blog, onde tudo seria planejado. Por fim, enquanto uns discutiam detalhes da festa, compartilhavam sugestões e ideias, outros aproveitaram o espaço para investigar a própria memória e postar na internet histórias da melhor época da vida.

O plano de garimpar mais histórias e publicá-las em forma de livro nasceu nos comentários do blog e se estendeu para a festa, que durou três dias. Lá, foi dada a partida, sob a direção de Geraldo Maurício. “Na festa a gente foi contar o que estava fazendo, gente que preferia estar lá atrás. Não tem saudosismo nenhum, estamos todos na ativa, todo mundo trabalhando: cineastas, músicos, funcionários públicos. Porém, um retrospecto no passado é interessante. Saudosismo não te leva a nada. O importante é o que você está fazendo agora”, acredita.

ÉRAMOS FELIZES E SABÍAMOS
Organização de Geraldo Maurício. Livre Expressão, 164 páginas. R$ 30. Pedidos pela internet: gm1948@terra.com.br. Lançamento amanhã (sexta-feira), no restaurante Feitiço Mineiro (306 Norte), às 19h30

Leia trechos do livro

Nota inicial

"Tempos atrás, já faz muitos anos, as crianças de Montes Claros brincavam de "bath", ou "Bentes Atlas" como era conhecido por alguns, um jogo de duplas, batedores e rebatedores, cujas regras eram semelhantes ao baseball americano. Utilizando uma bola feita de meias velhas, o objetivo do jogo era derrubar uma base dos adversários, construída em forma de um pequeno tripé feito de cabos de vassouras cerrados a uma altura de 20 centímetros.

Brincava-se, também, de "Guerau", em bom inglês "get out", uma estereotipada imitação dos filmes seriados de cowboys, mocinhos e bandidos. Outra brincadeira era a de bolinha de gude que, naquela época, jogava-se chamando os parceiros para jogar good please. Não se sabe exatamente o porque desta influência do bom estilo norte-americano.

As meninas brincavam de queimada, de fazer comidas de "guisado" no fundo dos quintais, de pique-esconde, chicotinho queimado e de "Era uma vez uma vaca Vitória".

Passaram-se muitos anos. Os meninos viraram adolescentes e tomaram seus rumos. Casaram-se e mudaram dali. Cinquenta anos se passaram e a maioria perdeu o contato entre si".

Pedra sobre pedra, de Raphael Reys

"No ano de 1960. Éramos alunos do Colégio São José, em Montes Claros-MG, e vivíamos sob intensa pressão exercida pelos religiosos Maristas, que ousavam forçar a frequência às missas dominicais. Quem não comparecesse levava zero em religião. O que afetava enormemente alguns oriundos de famílias que professavam outras religiões ou crenças. Alguns chegavam a ser submetidos ao escracho público em frente aos colegas de colégio, covardemente, sem terem como se defender.

Nos subterrâneos da escola fundamos a "Fraternidade dos Sete Mascarados". Além de outros, faziam parte Milton Henrique, Fernando Gontijo e colegas do mesmo quilate. Montamos a primeira operação frontal, com objetivo de quebrar a aura falsa e intolerante de que "só nós sabemos a verdade sobre religião" dos professores. Convencemos um adulto a fazer a encomenda de doze petardos, "tipo "bomba de parede vibrátil", confeccionados em bom tamanho pelo mestre Marciano Fogueteiro. Um luxo de artefato.

No dia escolhido para a ação, à meia- noite silenciosa, amarramos os artefatos nas colunas do primeiro andar e do térreo. Estopins, com diferença em tamanhos, proporcionavam o sincronismo da sequência desejada. Bituca, de cigarro na ponta do pavio, concretizou o fator tempo. Ao bom estilo dos Maquis."

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