Diversão e Arte

Morre aos 103 anos o dançarino e coreógrafo Kazuo Ohno, criador do butô

Ricardo Daehn
postado em 01/06/2010 22:39
O consagrado dançarino e coreógrafo japonês Kazuo Ohno morreu às 4h de hoje (16 de ontem em Brasília), vítima de insuficiência respiratória no hospital de Yokohama, no Japão. Aos 103 anos, Ohno era o mais velho representante do estilo butô, que criou ao lado de Tatsumi Hijikata, morto em 1986. Alinhado ao teatro físico, o estilo influenciou a dança contemporânea em diversos países e chocou valores japoneses, abordando temas como morte, sexualidade e violência.

Nascido em Hokkaido, filho de pai pescador e mãe instrumentista, o dançarino apresentou o estilo ao público japonês em 1959, com ações performáticas em bares e cabarés de Tóquio. No período, o país vivia a forte influência ocidental provocada pelo pós-guera. Por seu caráter marginal, a dança foi batizada de dança das trevas (Ankoku Butoh).

Kazuo sempre se apresentava vestindo trajes femininos e com o rosto pintado de branco. As mãos e os pés, expressivos, dialogavam com o corpo em movimentos espasmódicos. "Assisti a La argentina e Mar morto, a gente aprende muito e absorve influências de uma arte que, dizem, foi muito marcada pelo expressionismo alemão", comenta a coreógrafa Lenora Lobo, diretora da Cia Alaya Dança.

O coreógrafo veio três vezes ao Brasil, em 1986, 1992 e 1997. Na primeira, Kazuo Ohno visitou o país a convite do diretor Antunes Filho para divulgar o estilo. "Ele foi fundamental na dança contemporânea e nas artes cênicas, trouxe para o Ocidente uma linguagem e uma técnica antes desconhecidas por nós. Foi uma revolução em relação ao que nós tínhamos como referência ", diz a encenadora, atriz e coreógrafa Maura Baiocchi, que conheceu Ohno na Universidade de Brasília em 1986. Maura foi uma das primeiras a introduzir o estilo butô no Brasil. A influência resultou na elaboração de três livros:Taanteatro -- Teatro coreográfico de tensões, Taanteatro Caderno 1 e Butoh --- Dança veredas d; alma.

A dançarina Eliana Carneiro, que desenvolvia parceria com Maura Baiocchi no período, enfatiza a humildade demonstrada na visita. "A sintonia foi imediata. Depois de assistir ao espetáculo nosso (Du-elo), no foyer da sala Villa-Lobos, ele com humildade e gentileza, escreveu um poema para nós duas e, a convite, a Maura foi aprofundar os estudos no Japão", afirma.

De acordo com o diretor do Festival Internacional Londrina (Filo), Luiz Bertipaglia, o coreógrado foi a atração mais importante recebida pelo evento em seus 42 anos. "Assisti a dois espetáculos dele, o mais sensibilizante foi Lírio D;água. Lembro do com profunda gratidão. Nele, além do carisma pesou a vitalidade de alguém com mais de 90 anos. É algo tão emocionante, que torna-se difícil de ser explicado em palavras", recorda. "Independente da influência direta, houve uma geração de artistas que tiveram o reforço no respeito ao palco, uma qualidade que ele ajudou a projetar", conclui o dramaturgo Fernando Guimarães. A longevidade da obra é destacada pela coreografa Yara de Cunto. "A influência dele ultrapassa a questão do tempo: trata-se de um modelo, a serviço da continuidade. Ele seguirá muito presente no processo de muitos artistas."

Colaborou Adair de Oliveira

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