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Correio Braziliense LITERATURA

Entre deserto, gays e dança do ventre

Em Do fundo do poço se vê a lua, o escritor Joca Reiners Terron traz do Egito uma história inesperada que mistura Cleópatra e Elizabeth Taylor


postado em 22/06/2010 07:00 / atualizado em 22/06/2010 09:43

Joca Reiners Terron pensou que os organizadores do projeto Amores Expressos estivessem de brincadeira quando anunciaram o destino do escritor cuiabano. “Primeiro pensei que queriam me sacanear. Até hoje tenho minhas dúvidas a respeito”, confessa Joca, um dos 17 escritores convidados para visitar um país e voltar de lá com um romance sobre o amor. Joca nunca havia pisado na África ou em qualquer país muçulmano. “Pior que isso, eu nunca tinha ao menos pensado em viajar para um lugar semelhante. A situação foi meio aflitiva, pois tive pouco tempo para me informar a respeito”, conta.

Aterrissar no Cairo foi uma aventura. Entre o tradicional e agressivo assédio aos turistas e o inesperado, o escritor encontrou o enredo de Do fundo do poço se vê a lua. O romance traz a história de dois irmãos gêmeos que acabam separados por um oceano e pelas personalidades completamente divergentes. Fascinado por Cleópatra e Elizabeth Taylor desde a infância e insatisfeito com o próprio corpo, um dos gêmeos decide mudar de sexo e seguir para o Egito. É o mote para um roteiro rocambolesco com direito a assassinatos, dança do ventre, inferninhos, alucinações, um personagem obcecado em se tornar a estrela de cinema que admira, perda de memória, muitos enigmas e até esfinges, uma trama tão fragmentada e entrecortada quanto foram os sobressaltos de Joca na estadia no Egito.

Muita coisa o autor tirou da realidade, situações vividas e pessoas nas quais esbarrou. Alguns dos nomes espalhados pelo romance são, inclusive, os mesmos citados no blog mantido durante a viagem. “É óbvio, porém, que são meras estilizações do que ocorreu no Cairo. Nem fantasia, nem naturalismo, mas a realidade da ficção, como em Cervantes. Não deveria ser essa a origem de todo romance?”

A ficção estilizada teve origem na realidade penosa. Enfrentar o Cairo foi uma experiência complicada para um novato em oriente. “Eu não esperava muita coisa e acabei mesmo encontrando o inesperado. Mas no final esse contraste entre o Egito meio kitsch dos livros e filmes que eu carregava na cabeça e o Egito árabe e decadente atual predominou sobre a história.”

Entrevista - Joca Reiners Terron
Qual o limite entre os estereótipos aos quais estamos costumados via cinema/literatura e o que você viu? Por que quis misturar os dois no livro?
Todo livro pode ser resumido a uma anedota. A anedota do meu é a seguinte: e se existisse um fã de Cleópatra tão ingênuo que resolvesse mudar de sexo e fosse ao Egito para testar a feminilidade recém-conquistada? O que aconteceria com sua ideia de Egito se ele se deparasse com o país verdadeiro? Minha história propõe isso, que às vezes imaginação e realidade podem se tocar nem que seja por um instante. Resta ao leitor decidir quem vence essa batalha.

O que você recomenda a um brasileiro: ir ou não ir ao Egito?
Ir, claro. É um país cuja economia depende do turismo. Além disso, é possível fazer turismo de 5 estrelas. Já eu viajei como um mochileiro sem estrela nenhuma.

Como chegou à história dos gêmeos e do transexual?
Quando viajei ao Cairo eu já tinha a intenção de contar uma história de amor fraternal entre gêmeos. Tive o estalo sobre a mudança de sexo ao ouvir um amigo reclamar do irmão gay que se tornara drag queen.

Por que o fascínio do personagem por Cleópatra e Liz Taylor?
Por vários motivos. Mas o principal se deve ao fato de que a mãe dele — ela morre quando os gêmeos nascem — se chama Cleópatra. Dessa forma, também surge o fascínio pela atriz que interpretou a rainha no cinema. Essa obsessão surge na adolescência do personagem. Quase todo adolescente elege seus modelos, um mito qualquer para copiar. Eu, por exemplo, copiava o Jim Morrison.

Por que associar o imaginário gay a Cleópatra? Em algum momento você se preocupou em abordar o imaginário gay de maneira politicamente correta? Ou essa expressão é uma bobagem?
As grandes divas hollywoodianas sempre serviram de fonte de inspiração para transformistas. Mas há outros gays no livro, garotos punks que fazem michê etc. Porém, Cleo, a narradora, é uma atriz e ela adota a Cleópatra de Liz Taylor como modelo. Eu não quis generalizar nada com isso, nem pensei nessa bobagem tão perigosa que é a ideia de algo ser politicamente correto. Pra falar a verdade, o maior transformista de todos é o escritor. O narrador é sempre um travesti, um transformista, um impostor.

Às vezes não ocidentalizamos em excesso o olhar para o mundo árabe? Você acha que conseguir enxergar o Oriente exige uma educação do olhar?
Exige respeito e compreensão pelos hábitos culturais distintos, claro. Mas existe limite e bom senso para tudo, principalmente quando você está sozinho num país de hábitos desconhecidos. Nenhum livro de Edward Said te prepara, por exemplo, para encontrar com um sujeito se masturbando em público e olhando pra tua mulher. Foi o que aconteceu comigo em plena esplanada de Luxor.

No blog você diz que os egípcios são "quase" parecidos com os brasileiros. São mesmo?
Os egípcios são alegres e cordiais como nós, e até pegajosos demais pro meu gosto. Conheci um cara que adora viajar pra lá e que os chama de “os baianos da África”. Eles são realmente comunicativos como os nossos baianos e têm a maior indústria televisiva do mundo árabe, com produção de novelas etc. Mas além da TV eles também exportaram a Irmandade Muçulmana, o grupo fundamentalista que originou Bin Laden. Como ex-protetorado britânico, o país se ressente da ausência da corte. E pela quantidade de turistas ingleses que há por lá também dá para se dizer que estes sofrem nostalgia da colônia. Enfim, o mundo é um quebra-cabeças que veio com defeito.

A arte do prólogo
María Kodama/Reprodução
Prólogos, com um prólogo de prólogos
Jorge Luis Borges. Tradução de Josely Vianna Baptista. Editora Companhia das Letras, 238 páginas. Preço: R$ 32,80

Desnecessário fazer o leitor compreender que Prólogos, com um prólogo de Prólogos não se trata de uma locução hebraica superlativa. De acordo com o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), o livro trata-se, nada mais, nada menos, de uma seleção de prólogos próprios, escritos entre 1923 e 1974 e publicados na Argentina em 1975. “Uma espécie de prólogo, digamos, elevado à segunda potência”, enfatiza o autor.

Entendido por Borges como “uma espécie lateral da crítica”, a modalidade textual ganhou, por intermédio de sua escrita, um outro significado que não o de ser apenas um curto texto de apresentação. O estilo literário tomou vida própria, irônica, bem-humorada e o revelou para a Argentina como um dos mais atraentes escritores de sua geração. Tanto chamou a atenção que o Brasil acaba de ganhar a coleção de prólogos, com tradução de Josely Vianna Baptista, publicada pela Companhia das Letras.

Sua leitura n]ão apenas nos permite vislumbrar as nuances da veia crítica do autor, mas nos convida a um passeio pelas suas escolhas e preferências literárias em vida, um tanto impressionantes. Utilizando o instrumento-prólogo, o crítico se engraça a opinar sobre universos distintos e complexos, de poetas argentinos a Emanuel Swedenborg, de Edward Gibbon a Franz Kafta, de Nora Lange a Edgar Allan Poe — e o faz com propriedade.

Leitor fervoroso desde a juventude — e neste arquivo imaginário e literário estão inseridas também as enciclopédias —, o escritor argentino vai além: se aproxima daquilo que apresenta, balizando o leitor a uma compreensão, senão inteligente, bastante convincente das obras de seus antecessores literários. Mais importante: suas críticas não recaem apenas sobre essas obras, mas traçam divertidos perfis dos próprios autores, de forma que, em algum momento, pode-se questionar se não teria, ele mesmo, conhecido pessoalmente grande parte deles.

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