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Correio Braziliense

Cazuza: o garoto que não gostava de guetos


postado em 07/07/2010 08:05 / atualizado em 07/07/2010 08:53

Na tarde de 26 de junho — um domingo — de 1983, eu estava entre as duas mil pessoas (a maioria, bem jovem) que assistiram na área do Drive-in, no autódromo, à primeira apresentação do Barão Vermelho em Brasília. Havia relativa curiosidade em relação ao show da banda, e um pouco maior à performance do vocalista Cazuza a quem alguns críticos viam como um mix de Mick Jagger, Ney Matogrosso e Caetano Veloso. Nem o Barão nem Cazuza chegaram a entusiasmar. Nem a ao público nem a mim.

Quase dois anos depois, em 15 de janeiro de 1985, próximo ao palco da Cidade do Rock na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro), me juntei aos metaleiros , fãs do AC/DC e Scorpions, atrações principais da quinta noite da primeira edição do Rock in Rio, para aplaudir o Barão, durante um concerto empolgante. Antes de cantar Pro dia nascer feliz, Cazuza saudou o fim da ditadura, com a eleição de Tancredo Neves para presidente da República, levando ao delírio as 150 mil pessoas presentes.

Em 2 de junho do mesmo ano, de volta à capital, o grupo trouxe para o Ginásio Nilson Nelson o mesmo Maior abandonado, apresentado no Rock in Rio. Com 10 mil pessoas, fiz coro com Cazuza nas músicas Bete Balanço, Por que a gente é assim?, Pro dia nascer feliz e na canção que dava título ao show. Na manhã daquele dia, consegui uma longa entrevista com o cantor, para o Correio. Sem fugir de nenhuma pergunta, falou sobre vários assuntos, inclusive drogas, sexo e rock’n’roll, claro.

Sobre homossexualismo, disse: “Morei um ano na Califórnia e lá tem prefeito gay, clube gay, rua gay, bairro gay e eu achava um horror. Não faria parte de um gueto, nunca. Quero viver num mundo diferente, em que todo mundo conviva igual. Eu não gostaria de andar só com preto, só com judeu, só com viado. Eu gosto de viver é com todo mundo”. Mesmo conhecendo Brasília superficialmente, fez este comentário: “Eu vim aqui apenas duas vezes, mas sei que Brasília é uma cidade muito louca. Acho-a fantástica e quero conhecê-la melhor. A princípio me fascina muito, mesmo sendo a sede dos podres poderes, de que fala Caetano Veloso”.

Um mês depois do segundo show do Barão assistido pelos brasilienses, Cazuza deixou a banda e em novembro do mesmo ano lançou o álbum Exagerado. De férias no Rio, em dezembro, testemunhei sua estreia em carreira solo, no palco do Pão de Açúcar. Fui revê-lo quatro anos depois, na festa do Prêmio Sharp de Música, do qual foi o grande vencedor. Totalmente debilitado, chegou ao Copacabana Palace numa cadeira de rodas para receber o troféu, pelo CD Ideologia, que vendeu 250 mil cópias. Foi uma das últimas aparições públicas do popstar, que morreria em 7 de julho de 1990, aos 32 anos, deixando um vácuo na moderna música popular brasileira.

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