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Correio Braziliense

Sem dinheiro, mas com ideias na cabeça

John Torres, diretor filipino conta como são feitas as produções em seu país e destaca a independência estética dos cineastas


postado em 17/07/2010 07:00

O cinema brasileiro pode aprender muito com o modo de produção do cinema filipino. Essa conclusão é tirada depois de ouvir durante apenas cinco minutos o cineasta John Torres. “Dizer que não é preciso glamour, nem altos orçamentos para se fazer um filme é nossa maior luta. É claro que é preciso algum dinheiro para se realizar certos filmes. Mas não esperamos por isso porque não vai acontecer. Então, é necessário estar preparado. É uma guerra. Especialmente nas Filipinas, onde não se considera como sendo filme aquilo que não é uma ficção ou se é feito em vídeo e quando não coloca rostinhos bonitos na tela. Então, fazermos filmes com câmeras de celulares ou em mini-DVs baratos como forma de contrariar tudo isso”, ensina Torres.

Em visita rápida ao país, o cineasta viajou patrocinado pela Embaixada das Filipinas e a National Comission for Culture and The Arts Manila (NCCAM), para uma palestra hoje, no fim da sessão das 19h30, dentro da programação da mostra Descobrindo o cinema filipino, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Definido como o cineasta do amor pelo crítico de cinema filipino Alexis Tioseco, Torres dedica boa parte de seu cinema ao mais nobre sentimento humano. “Eu era muito tímido quando garoto. Depois que cresci percebi que existia uma série de questões pessoais que eu gostaria de expressar e que isso poderia ser feito por meio do cinema. Mas, foi o Alexis que chamou os meus primeiros curtas de trilogia do amor”, relata o realizador de apenas 35 anos.

Naquele país uma nova geração de diretores tem feito um cinema calcado em boas ideias e muito pouco dinheiro. “Somos um grupo de jovens cineastas bem unido. Nós nos influenciamos, mas na verdade mantemos uma independência estética. Então, tentamos não copiar o estilo um do outro. Todos defendem a ideia de que é preciso fazer o filme que quiser, sem construir um padrão de cinema filipino. De qualquer forma aprendemos muito vendo os outros filmarem, como o outro constrói uma cena, vendo o outro se divertir. Principalmente porque nos juntamos no conceito de fazer o cinema ser algo prazeroso e divertido. Posso fazer a trilha sonora para alguém e pedir que esse alguém dirija a fotografia de um filme meu depois. Não existe cobrança desses serviços”, afirma Torres.

O método é melhor explicado no uso da palavra bayanihan, que significa herói no sentido daquele que ajuda o coletivo. “É como uma comunidade que se dedica para que o desejo de um se realize”, explica Torres.

DESCOBRINDO O CINEMA FILIPINO
Hoje, às 19h30, sessões dos curtas-metragens Vida Longa ao Cinema Filipino — Classificação indicativa livre.Salat — Não recomendado para menores de 12 anos. Coisas muito Específicas à Noite — Não recomendado para menores de 12 anos. Borboletas não têm memória — Não recomendado para menores de 12 anos. Sessão seguida de debate com o cineasta John Torres. Entrada franca.

Entrevista// John Torres

Correio — Você é conhecido como o cineasta do amor. Por que se interessou por esse tema?

Torres — Eu era muito tímido quando garoto em Manila. Eu não conseguia me expressar por meio de palavras. Eu tinha uma série de questões pessoais relacionados ao amor, muitas imagens na cabeça. Me pareceu natural me expressar por meio do cinema. Mas, foi o crítico de cinema Alexis Tioseco que batizou os meus curtas de trilogia do amor.

Correio — Os cineastas filipinos parecem estar preocupados em discutir a identidade nacional filipina. Isso acontece por causa das duas invasões estrangeiras que o país sofreu?

Torres — Acho que posso responder também por alguns dos meus colegas. Não é o primeiro instinto do cineasta filipino como um todo tentar criar essa identidade filipina. É mais sobre se expressar, falar sobre questões pessoais e, no meu caso, tentar especificamente falar sobre o amor. De novo, voltamos a este tema. De qualquer forma, os filmes revelam a cultura das Filipinas, o cotidiano das Filipinas e de alguma forma a história filipina. Naturalmente, o cinema espelha essa história passada. Por causa disso talvez os filmes acabam construindo uma identidade, mas não é um esforço consciente da parte dos realizadores. Na verdade é muito mais uma questão pessoal. Pode ser que daqui a alguns anos, esses filmes sejam lembrados como filmes que construíram a identidade das Filipinas. Mas o que me move é muito mais uma questão pessoal e íntima que não passa por esse conceito de construção de identidade por mais que questões políticas e culturais estejam nos filmes naturalmente.

Correio — Você fez alguns curtas pelo celular. No Brasil, usamos mídias digitais baratas, mas normalmente os produtos são relegados à internet. O que aconteceu nas Filipinas para que esse suporte fosse valorizado?

Torres — Essa é nossa maior luta. Dizer que não é preciso glamour, nem altos orçamentos para se fazer um filme. É claro que é preciso algum dinheiro para se fazer certos filmes. Mas, não esperamos por isso porque não vai acontecer. Então, é necessário estar preparado. É uma guerra. Especialmente nas Filipinas onde não se considera como sendo filme aquilo que não é uma ficção, feito em vídeo e se não colocamos rostinhos bonitos na tela. Então, fazermos filmes com câmeras de celulares ou em Mini-DVs baratas para contrariar o sistema.

Correio — Os cineastas da nova geração se ajudam e se influenciam?

Torres — Somos um grupo de jovens cineastas bem unido. Nós nos influenciamos, mas na verdade mantemos a ideia de uma independência estética. Então, tentamos não copiar o estilo um do outro. Todos defendem a ideia de que é preciso fazer o filme que quiser, sem defender um padrão de cinema filipino. Fora isso, de qualquer forma aprendemos muito vendo os outros filmarem, como o outro constrói uma cena, vendo o outro se divertir. Principalmente porque nos juntamos no conceito de fazer o cinema ser algo prazeroso e divertido. Nós nos unimos muito no conceito de diversão. Nós unimos muito nossos talentos no sentido de um intercâmbio de funções. Posso fazer a trilha sonora para alguém e pedir que esse alguém dirija a fotografia depois. Não existe cobrança desses serviços. É como uma comunidade que se dedica para que o desejo de um se realize. É o sentido de comunidade cinematográfica. De ajudar uns aos outros.

Correio – A banda de rock The Brockas (grupo formado por Torres, Khavn de La Cruz e Roxlee) é um sinal dessa amizade?

Torres — The Brockas é a melhor banda de rock de todos os tempos nas Filipinas (risos). Ok, estou brincando. Nós somos uma banda e tocamos em festivais de cinema. Na maior parte do tempo, soa como barulho. Mas, existe um método na loucura.

Correio —Ouvi The Brockas pela internet e me pareceu que era só barulho.

Torres — É claro que não é barulho (risos). Nós nos divertimos. Não leve isso a sério. Muita gente não gosta da gente, mas é tudo por diversão. Nós temos limitações, mas não é para sermos levados a sério (risos).

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