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Correio Braziliense

Jazz à 3ª potência

Ao lado de gente tarimbada, o baterista André Togni devolve o espírito de aventura à música instrumental feita na cidade


postado em 08/08/2010 08:00

André Togni saiu, literalmente, da toca . O músico, mais conhecido pela pesquisa rítmica ao lado do extinto grupo Casa de Farinha, gestou cuidadosamente no Beco da Coruja, seu estúdio, as composições de Lugar de sal, álbum independente realizado com recursos do Fundo de Apoio a Cultura (FAC). São sete faixas de autoria própria e uma versão para Feitiço da vila, de Noel Rosa e Vadico. Todas arranjadas aos moldes dos trios (1)clássicos de jazz, com contrabaixo, bateria e piano se revezando em constante diálogo.

É também uma experiência aventureira, de exploração sonora a cada compasso, que remete à estética dos trabalhos da ECM, selo alemão especializado em música instrumental de vanguarda. “A gente, no Brasil, não tem muito a cultura da improvisação. Mas, em Lugar de sal, somos nós três conversando. A música vai tomando caminhos diferentes e a coisa fica viva. Um de nós pode arriscar, ir para outro lado e, ainda assim, ser entendido pelo outro”, explica André.

Embarcaram no projeto dois músicos experimentados da noite brasiliense, o contrabaixista Oswaldo Amorim e o pianista Serge Frasunkiewicz, que vestiram a camisa sem medo. “André é um baterista que trabalha muito com textura e cores, não só a parte rítmica. Ele é muito bom em criar climas. Ao mesmo tempo que a criação fica solta, tem uma unidade mântrica, uma levada contínua. Enfim, é um trabalho cheio de nuances”, analisa Amorim.

“O disco tem uma intensidade, essa coisa do jazz mais selvagem. Mas, quando ameaça pôr o pé no free, as composições surgem muito bem estruturadas”, sintetiza Serge, que deu sugestões em alguns arranjos.“Ajudei nas ornamentações, para ficar mais ao estilo piano trio. Foi mesmo um prazer participar”, revela. A influência em comum aos três foi, sem dúvida, Keith Jarrett. O pianista norte-americano desenvolve há anos um trabalho verdadeiramente simbiótico com Gary Peacock (contrabaixo) e Jack DeJohnette (bateria). A sonoridade sem fronteiras do pianista Brad Mehldau também serviu de combustível criativo. Enfim, uma viagem musical perfeita.


1 - Algarismo da sorte
O três é um número mágico no jazz. Parte significativa da história do gênero foi erguida sobre o tripé piano, baixo e bateria — formação predileta de grandes, como Oscar Peterson, Ahmad Jamal e Bill Evans. A dinâmica entre os instrumentos favorece a criação coletiva e o improviso, ao mesmo tempo em que exige total entrega e precisão.

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