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Correio Braziliense

Obra dentro de obra

Mostra Obra inventário surpreende o público com uma leve dose de humor e extrema criatividade


postado em 14/08/2010 07:00 / atualizado em 13/08/2010 22:03


Maquete do projeto educativo para crianças
Maquete do projeto educativo para crianças
A exposição Obra inventário, em cartaz no Espaço Marcantonio Vilaça do Tribunal de Contas da União (TCU), lembra uma matriuska. Como a boneca russa que abriga dezenas de outras bonecas em tamanhos menores, a mostra é uma obra dentro da obra. Quando o curador Átila Regiani idealizou o projeto, queria refletir sobre o ato de colecionar, formar acervos, catalogá-los e arquivá-los em museus ou coleções, tudo isso sem ser sisudo e, de preferência, com algum humor. Chegou à proposta depois de conhecer o trabalho de sete artistas habituados a juntar obras ou a imaginar formatos práticos e simples de transportá-las. “Queria investigar como conceitos poderiam circular de forma mais eficaz e tornar as obras mais acessíveis”, diz.

Luana Veiga e sua mala, que reúne obras de outros artistas(foto: Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press )
Luana Veiga e sua mala, que reúne obras de outros artistas (foto: Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press )
Obra inventário tomou a forma de uma exposição muito curiosa. Há peças em miniatura, obras recolhidas pelo Brasil e acomodadas em uma maleta, vídeos destinados a exibição em carrocinha de rua e uma coleção de figurinhas de pessoas da cena artística. “Estamos discutindo uma lógica inerente ao museu, que é nossa referência de valores em obras de arte. O museu é um acúmulo de conceitos e os trabalhos trazem alternativas a essa lógica”, avisa o curador. O conjunto de alternativas tem um misto de delicadeza, ironia e comentário sobre a prática de juntar obras dentro de um espaço institucional.

Não é à toa que artistas como Michel Zózimo e Marcelo Gandhi criam obras portáteis e de montagem simples. No Museu portátil de Zózimo, os artistas locais podem se inscrever em edital para mostrar vídeo ou miniexposições. O museu é um pequenino cubo com paredes brancas. Na Exposição de bolso de Gandhi, a série de microdesenhos fica guardada em uma caixa de remédios, dessas cheias de compartimentos para diferentes comprimidos. Ali, o artista transporta, além dos desenhos, dois minúsculos livros e um caderno de assinaturas dos visitantes da exposição. “Já expus até em mesa de bar”, brinca.

Intimista
O museu portátil de Michel Zózimo está disponível para obras locais
O museu portátil de Michel Zózimo está disponível para obras locais
Fissurado pelo colecionismo e pela pesquisa de suportes diferentes para o desenho, Gandhi idealizou a Exposição de bolso depois de esbarrar na caixinha de plástico em uma loja do bairro Liberdade, em São Paulo. “Meu desenho tem um universo muito intimista e é uma exposição que chega a qualquer canto e passa por qualquer fronteira”, constata. Em Brasília, os desenhos serão apresentados dentro de uma vitrine branca.

Também de bolso é o projeto de Luciana Paiva. Única artista brasiliense a participar da mostra, ela reproduziu livros de artistas em miniatura para compor essa coleção que, ironicamente, o público não pode consultar confortavelmente devido ao seu pequeno tamanho. Luciana criou até livros raros destinados a um manuseio cuidadoso. Se hoje não cabe mais a preocupação com a reprodutibilidade do livro — pertinente na época da invenção da imprensa —, a artista propõe que se pense sobre as possibilidades de transporte do objeto no mundo moderno, no qual um clique pode tornar acessível boa parte do conhecimento humano.

É na interatividade que estão as maiores apostas de Obra inventário, projeto premiado no Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais de 2009. Regiani escolheu três trabalhos cujas características estão em dialogar com artistas dos locais pelos quais passam. O Projeto malote, da paulista Luana Veiga, teve início em 2007 quando a artista decidiu transportar obras de amigos durante as viagens realizadas pelo país. “Nós, dessa profissão, circulamos bastante”, explica.

Cris Ribas expõe textos sobre catalogação de arte para refletir sobre critérios de arquivamento
Cris Ribas expõe textos sobre catalogação de arte para refletir sobre critérios de arquivamento
“A intenção é criar uma rede de amizades, então não aceito trabalhos enviados pelo correio por desconhecidos, tenho a premissa de conhecer a pessoa.” O projeto está na quarta exposição. A cada nova mostra, Luana acumula obras de outros artistas e esses trabalhos são sempre apresentados na exposição seguinte. O resultado é um mapeamento muito particular e diferente daquele realizado oficialmente pelas instituições. Estas sabem o que procuram. Luana não escolhe obras, apenas recebe. Por isso, até mesmo um simplório sabonete decorado pode entrar para o malote. Não há questionamento quanto à legitimidade que faz do objeto uma obra de arte contemporânea.

Videoarte
A contribuição é fundamental no VTC (Vídeo nas trincheiras) de Marta Penner, que deixou Brasília para dar aulas na Universidade Federal da Paraíba. Sua carrocinha colorida exibe vídeos de artistas de todo o país. Marta sempre transpôs para a linguagem artística as possibilidades de situações precárias. Em Brasília, trabalhou com os catadores de lixo. Na Paraíba, reproduziu os camelôs de venda de DVDs piratas para mostrar videoarte. A analogia do cotidiano dos vendedores ilegais com a dificuldade do artista em expor e viver do trabalho é intencional. Subversão e sobrevivência são condições comuns aos dois.

Na carroça de Marta Penner, construída para exibições ao ar livre
Na carroça de Marta Penner, construída para exibições ao ar livre
A crítica de Marta se aproxima do comentário irônico de Cleverson Salvaro e seu álbum de figurinhas em formato polaroide, geralmente distribuído durante abertura de exposições em Curitiba. No envelope estão rostos de frequentadores da cena artística da capital paranaense. No entanto, alguns álbuns não estão completos. Faltam rostos. São os excluídos da cena, uma crítica ácida ao hábito da panelinha que gera guetos.

Todos trabalhos de Obra inventário estão deslocados dos contextos para os quais foram concebidos e aparecem aqui exatamente na situação que se dispõem a criticar. O curador tem consciência da contradição e espera que ela funcione também como uma provocação ao público. Regiani quer estimular os visitantes a desenvolver um pensamento crítico sobre as intenções políticas e ideológicas contidas nos processos de produção e catalogação da arte.

Espaço de brincadeira
Obras acumuladas no Projeto Malote
Obras acumuladas no Projeto Malote
O programa educativo de Obra inventário é uma exposição à parte. Idealizado por Átila Regiani e Rebeca Borges, o projeto consiste em três maquetes que reproduzem as plantas do Museu da República, Masp e do próprio Espaço Cultural Marcantonio Vilaça, acompanhadas de uma coleção de reproduções de obras famosas em miniatura. As crianças — e o curador acredita que os adultos não vão resistir — poderão montar minicuradorias e organizar as obras segundo suas próprias leituras, num exercício de questionamento dos porquês que levam curadores e museólogos a agrupar determinadas peças. As oficinas pedagógicas acontecem no espaço todos os sábados, às 14h e 16h.

OBRA INVENTÁRIO
Exposição com obras de Marta Penner, Luana Veiga, Michel Zózimo, Luciana Paiva, Marcelo Gandhi, Cristina Ribas e Cleversson Salvaro. Curadoria: Átila Regiani. Visitação até 9 de setembro, de segunda a sexta, das 10h às 19h, sábados das 15h às 18h, no Espaço Cultural Marcantonio Vilaça (Sede do Tribunal de Contas da União — TCU). Hoje, às 16h, os artistas realizam mesa redonda no local.
O álbum de figurinhas de Cleversson Salvaro contém personalidades da cena artística
O álbum de figurinhas de Cleversson Salvaro contém personalidades da cena artística

 

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