Publicidade

Correio Braziliense

Livro do jornalista Gonçalo Junior aborda a ditadura por um viés diferente


postado em 29/08/2010 15:34 / atualizado em 29/08/2010 17:11

O que as revistas eróticas e o comunismo têm em comum? Para a ditadura militar, uma coisa estava diretamente relacionada à outra. A censura encarava as publicações de sexo como uma tática da União Soviética para a destruição da família. Resultado: tiragens retiradas de circulação, publicações censuradas e canceladas, perseguição a jornaleiros, distribuidores, editores e artistas e, em alguns casos, tortura. Em seu mais recente livro, o jornalista Gonçalo Junior joga luz sobre esse capítulo da recente história brasileira - com enfoque especial sobre a censura aos quadrinhos eróticos.

A personagem que dá título ao livro, em ilustração do desenhista Cláudio Seto(foto: Editora Peixe Grande/Divulgação)
A personagem que dá título ao livro, em ilustração do desenhista Cláudio Seto (foto: Editora Peixe Grande/Divulgação)
Maria Erótica e o clamor do sexo - Imprensa, pornografia, comunismo e censura na ditadura militar (1964-1985) é a continuação de sua obra mais conhecida, A guerra dos gibis. No livro lançado em 2004, Gonçalo narra a chegada dos quadrinhos americanos ao Brasil nos anos 1930 e acontecimentos relacionados ao assunto nas três décadas seguintes. Lançamento da Editora Peixe Grande, Maria Erótica tem como editor e designer Toninho Mendes, o mesmo responsável pela Circo Editorial, que, nos anos 1980, lançou Chiclete com banana, Geraldão, Níquel náusea e a própria revista Circo (que publicou Laerte, Angeli, Glauco, Fernando Gonzales e outros bambas do humor nacional). O livro é dividido em duas partes: A Edrel e a subversão do sexo e A Grafipar e a abertura do sexo. Na primeira, Gonçalo aborda a editora de Minami Keizi. Descendente de japoneses, ele encontrou no humor e no erotismo (tanto em quadrinhos quanto em fotonovelas e revistas de piadas) uma fórmula de sucesso. Por isso, teve de enfrentar o cerco da ditadura, que o perseguiu durante sete anos e cancelou 28 de suas revistas, levando-o, por fim, à falência. Na segunda parte, o autor relata a trajetória da Grafipar, editora curitibana de Faruk El-Khatib, que, em tempos um pouco mais liberais (a virada da década de 1970 para 1980), deu continuidade a muito do que a Editora de Revistas e Livros (Edrel) fez alguns anos antes. Contracultura Ao longo das quase 500 páginas do livro, o jornalista vai muito mais longe do que sugere o subtítulo. Além da censura às pequenas editoras, ele conta os problemas vividos pelas editoras Abril, Bloch e Três (que lançaram, na época, Playboy, Status e Ele ela). Entre outros assuntos, estão lá as histórias da imigração japonesa no Brasil, da chegada da contracultura e da revolução sexual no país e das pequenas editoras de São Paulo no período. Entre as curiosidades de Maria Erótica, popular personagem criada pelo desenhista Cláudio Seto (cuja imagem está na capa do livro), estão os primeiros trabalhos feitos no estilo mangá no Brasil (décadas antes de os quadrinhos japoneses caírem no gosto do público brasileiro), HQs criadas por Minami Keizi, Seto, entre outros descendentes de japoneses que trabalharam na Edrel. Tudo contado por Gonçalo Junior com riqueza de detalhes, resultado de anos de entrevistas e de pesquisa em arquivos de editoras, artistas e editores. PESQUISADOR INCANSÁVEL Baiano de Guanambi, o jornalista Gonçalo Junior, 42 anos, mora em São Paulo desde 1997. Já passou por diversos jornais e atualmente é editor da revista Personnalité. Seus livros abordam histórias em quadrinhos, cultura pop e a memória editorial no Brasil. A guerra dos gibis, Enciclopédia dos monstros, País da TV, O homem Abril e Tentação à italiana são alguns de seus trabalhos mais conhecidos. Entrevista com Gonçalo Junior: Como surgiu esse projeto? Surgiu como um trabalho de conclusão de curso em jornalismo na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, apresentado em 1993. Comecei a me interessar pelo tema da censura nos quadrinhos e resolvi investigar como foi isso durante a ditadura, em especial, aos títulos ligados ao erotismo. Entrevistei vários dos editores na época, em Curitiba e São Paulo. Achei que para publicar isso, deveria antes fazer uma introdução ao tema. Daí surgiu o primeiro A guerra dos gibis, que sairia como livro em 2004. De 2006 até o começo deste ano, eu fui trabalhando nesse material que deu origem ao Maria Erótica. E o que mudou de sua pesquisa em 1993 até a conclusão do livro? Eu amadureci e o texto amadureceu também. Eu consegui uma versão mais completa do que eu queria. Nesse meio tempo, eu voltei a entrevistar os principais personagens do livro: Minani Keizi, Cláudio Seto e Faruk - que daria inicio a Grafipar. A pesquisa acabou redimensionada, ela vai muito além do universo dos quadrinhos. O sexo era considerada uma coisa subversiva, uma ferramenta dos comunistas para destruir a família e permitir a entrada do comunismo no Brasil. Além da editoras pequenas, eu falo também das grande, como Abril, Bloch, Editora Três, que lançara Playboy, Status e Ele e Ela, e também sofreram censura. Onde você pesquisou? Consegui informações no arquivo do Dops, em São Paulo, no arquivo da Editora Abril%u2026 Tive acesso a documentos de editores, além de ter entrevistado o Paulo Fukue, que quando eu fiz o meu tcc, ele não quis me dar entrevista. Em 2006, ele topou falar, por intervenção de um amigo, porque ele foi o único artista da Edrel que foi espancado e torturado, juntamente com o Marcílio Valenciano, um dos donos da editora. Eles foram acusados de publicar um texto comunista. Quais as principais revelações do livro? A tortura de Paulo Fukui é uma delas. Minami Keizi, da Edrel, guardou mais de 300 documentos, cartas que ele mandou e recebeu da censura. Eu não tenho conhecimento de que algum outro editor no Brasil tenha guardado esse material. São 300 documentos aproximadamente, de 1971 a 1977, e você percebe como a editora dele foi massacrada. Ele teve 28 títulos censurados, levando-o a falência. A minha história nesse livro é a história da censura ao sexo na ditadura, focada nos quadrinhos, sem dúvida, mas eu quero mostra o grau de absurdo disso tudo. O livro mostra também que foram feitos mangás (as histórias em quadrinhos do Japão) no Brasil há décadas. Em sua fase inicial, Cláudio Seto só fazia mangás. Três séries eram mangá total: Ninja, o samurai mágico, Ídolo juvenil e Histórias de samurai. Tem uma série dele chamada Histórias de samurai. Ele morreu amargurado porque diziam que ele imitava a série Lobo solitário. Mas a criação dele é de cinco anos antes da série japonesa, é de 1967, enquanto Lobo solitário é de 1972. Os seus livros nunca se resumem a apenas um assunto. Em Maria Erótica, por exemplo, você vai muito além disso. Eu gosto de contar histórias a partir de pessoas comuns, pessoas quase anônimas. Qual é a história realmente contada? É uma história política, da ditadura, em que o sexo foi e a imprensa erótica, foram relacionada a subversão. É uma outra visão da ditadura militar. E a partir disso eu construí um contexto em que os personagens são, hoje, figuras anônimas, desconhecidas. É uma forma de contar a história não pelos protagonistas, mas pelas testemunhas, que de certa forma foram muito importantes na história. Então o livro tem a história política do sexo na ditadura, a história da imigração japonesa, a história da contracultura e da revolução sexual, a história da censura aos quadrinhos e a história das pequenas editoras de São Paulo. E isso (essa abordagem) me causa um problema porque ao focar pessoas %u201Canônimas%u201D eu já encontrei dificuldade com os editores. Eles acham que o livro não vai interessar a ninguém. É complicado isso no Brasil, porque os editores estão atrás de caça-níqueis. Quando na verdade, o personagem do livro é a própria história. Qual o legado da Edrel e da Grafipar? A Edrel modernizou os quadrinhos no Brasil. Ela introduziu o erotismo, a violência, temas urbanos como a jovem guarda, a questão da ditadura militar, o movimento estudantil, a sátira a televisão, coisas que aproximavam o leitor da sua realidade. O legado da Edrel vai continuar com Cláudio Seto na Grafipar. Seto tinha uma série psicológica sensacional, na qual ele explorava a psicanálise e o existencialismo de Sartre, duas grande vertentes da contracultura nos anos 1960. Uma antologia desses quadrinhos eróticos deveria ter quais trabalhos? Teria que ter os trabalhos de Fernando Ikoma e Cláudio Seto, os dois expoentes da editora Edrel, caras que modernizaram as histórias em quadrinhos no Brasil. E da Grafipar, o trabalho de três ilustradores que ela revelou: Mozart Couto, Rodval Matias e Watson Portela. MARIA ERÓTICA E O CLAMOR DO SEXO De Gonçalo Junior. 496 páginas. Editora Peixe Grande. R$ 69.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade