Uma cidade ainda um tanto quanto pacata em 1977, Brasília via na televisão programas como Globo de ouro, A grande parada e Clube dos artistas, que faziam muito sucesso; assim como as novelas A Escrava Isaura, Estúpido cupido e Duas vidas. No cinema assistia-se a Um estranho no ninho, de Milos Forman, com Jack Nicholson, no Cine Karim Márcia (Conic); O casamento, de Arnaldo Jabor, com Adriana Prieto e Paulo Porto, no Cine Especial (Centro Comercial Gilberto Salomão); e Dio como ti amo, no Cine Lara, em Taguatinga.
[SAIBAMAIS]
No rádio, uma balada romântica tipo chiclete de ouvido não parava de tocar. Era Baby, I love your way, o grande hit de Peter Frampton, que disputava a preferência dos ouvintes com músicas dos Carpenters e de Burt Bacharach; e levava casais a lotarem as pistas de dança da Sunshine e da 707, as boates da moda no Gilberto Salomão, o então imbatível ponto de encontro dos brasilienses naquela época. A canção também embalava festinhas de adolescentes em quadras do Lago Sul, do Plano Piloto e de outras cidades do Distrito Federal, e servia de trilha sonora para muitos namoros.
;Eu havia chegado a Brasília, vindo de Uberlândia, e me preparava para fazer vestibular. Nos fins de semana, em festas nos apartamentos dos colegas, não podiam faltar luz negra e Baby, I love your way na vitrola. Era tocada de oito a 10 vezes por noite e logo casais se formavam para dançar de rosto colado e fazer juras de amor;, recorda-se o hoje requisitado arquiteto de ambientes George Zardo. Trinta e sete anos depois, ele faz planos para assistir ao show de Frampton, hoje com 60 anos, que se apresenta pela primeira vez na cidade, no auditório master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, às 21h.
Quem costumava frequentar essas festinhas em que o cantor e compositor inglês reinava era Elca Cascão. ;Baby, I love your way marcou a vida de uma legião de adolescentes no fim da década de 1970, em especial de quem cultivava o romantismo.; A artista plástica está entusiasmada com a possibilidade de assistir a apresentação. ;Meu marido está vindo de viagem ao exterior. Espero que ele chegue a tempo para irmos ao show.;
Baby, I love your way , que tão boas lembranças traz para os que viveram intensamente aquele período, foi um impressionante sucesso comercial em compacto e no álbum duplo Frampton comes alive, lançados pela Odeon (atual EMI Music), como revela Alfredo Cardoso Nunes, que era representante da gravadora para o Centro-Oeste. ;Só aqui na cidade, o LP vendeu mais de 30 mil cópias. Recordo-me das inúmeras reposições que fiz nas lojas, principalmente na Discoteca 2001 do Conjunto Nacional, que acabara de ser inaugurada.;
Suspiros
Gabriela Mazza, dona daquela rede de lojas de discos ; fechada em julho de 2008 ;, que fez história em Brasília, até hoje guarda na lembrança a ;febre Peter Frampton;. Ela conta que, quanto mais a canção tocava no rádio, mais crescia a procura pelo bolachão. ;Chegavam a fazer fila, nos fins de semana, na loja do Conjunto Nacional. Isso tinha a ver também com o fato de Frampton ter pinta de galã e aqueles longos cabelos louros esvoaçantes, que provocavam suspiros principalmente nas adolescentes.;
A servidora pública Karine Cavalcanti estava entre as que suspiravam pelo cantor. ;Eu tinha o álbum dele e não parava de ouvir Baby, I love your way e Show me the way. O pessoal da minha turma também curtia a música de Frampton.; Pois bem, Karine tinha como companheiros de festas e agitos, entre outros, o advogado Paulo César Cascão, que anos depois seria um dos fundadores da banda de punk rock Detrito Federral; Gustavo Sá, um dos idealizadores e produtores do Porão do Rock; e Gian Marco Ucello, diretor da Warner Music, hoje morando no Rio de Janeiro.
Show me the way também era a música preferida de um grupo de skatistas que faziam altas manobras em rampa na 115 Sul. Um deles era Sérgio Fructuoso, agora empresário da área de vestuário. ;Eu tinha 15 anos naquela época e, como não podia ir à boate, fazia festas no apartamento dos meus pais, na 404 Sul. Os convidados sabiam que Show me the way, ki-suco e sanduíche de mortadela não faltavam nas minhas festas; (risos).
Peter Frampton
Show do cantor e compositor inglês, hoje, às 21h, no Auditório Master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Eixo Monumental). Ingressos: cadeira vip vermelha R$ 440 e R$ 220 (meia), cadeira vip laranja, R$ 360 e R$ 180 (meia); cadeira vip verde R$ 240 e R$ 120 (meia); mezanino R$ 140 e R$ 70 (meia). Pontos de venda: Fnac (ParkShopping) e Free Corner (Brasília Shopping). Não recomendado para menores de 14 anos.
Saiba mais
Peter Frampton (Beckenham, Kent, 22 de abril de 1950) tornou-se famoso no final dos anos 1960 como integrante do The Herd quando se tranformou num ídolo das adolescentes na Grã-Bretanha. Frampton ficou conhecido por ser o primeiro guitarrista a utilizar do recurso da "guitarra falada", que seria anos depois imitado por Slash (Guns n; Roses) e Richie Sambora (Bon Jovi). A guitarra tinha o som distorcido com a ajuda de um equpamento colocado na boca do músico. Ele então passou a trabalhar com Steve Marriott (dos The Small Faces) na banda Humble Pie, assim como em álbuns de Harry Nilsson, Jerry Lee Lewis e George Harrison. Sua estreia solo foi em 1972 com Wind of Change.
Mas a explosão solo veio com Frampton comes alive, seis vezes platina e que incluía os sucessos ;Do you feel like we do;, ;Baby, I love your way; e ;Show me the way;.
Foi o álbum ;ao vivo; mais vendido de todos os tempos. Depois que o álbum seguinte I;m in you foi lançado, Frampton envolveu-se em um sério acidente de carro nas Bahamas. Enquanto se recuperava, ele atuou em 1978, com os Bee Gees, no filme Sgt. Pepper;s Lonely Hearts Club Band, um fracasso retumbante. depois disso, o próprio guitarrista reconheceu que perdeu-se durante muitos anos em uma névoa regada a álcool e drogas.
"Fiquei sóbrio sete anos atrás. Não que eu fosse um usuário habitual, mas eu bebia, me drogava, consumia o que aparecesse. Já fazia isso havia algum tempo, e você nunca chega ao ponto em que consegue pensar com clareza suficiente para amadurecer ou crescer. Isso atrofia seu crescimento como pessoa", daclarou o músico em entrevista recente à agência internacional de notícias Reuters.
Nos anos 1980, Frampton voltou a gravar, mas nunca mais retornou às paradas de sucesso. Seu último álbum foi Now, quando ele embarcou em turnê com a banda Styx para promovê-lo.
Depois do atentado ao World Trade Center em Nova York, Frampton decidiu tornar-se um cidadão americano. Ele teve papel ativo na campanha eleitoral de 2004 do candidato John Kerry. Recentemente o guitarrista ganhou o seu primeiro Grammy pelo seu álbum totalmente instrumental ;Fingerprints;, lançado no fim de 2007 que conta com integrantes do Pearl Jam, Rolling Stones, Allman Brothers Band e outros.