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Correio Braziliense

Muito prazer - Luis Turiba

Um pernambucano, criado no Rio de Janeiro e radicado em Brasília desde 1978 dá liga? Dá sim. Luis Turiba, 60 anos, é um homem %u201Csem-fronteira%u201D na vida e na poesia. Referência da literatura local, Turiba não para de colocar projetos no forno. Pretende fazer documentários sobre o samba no mundo e um livro que tratará do %u201Cpulso nada mudo%u201D da cultura brasileira. Com o grupo OIPoemas adota escolas públicas e prepara o lançamento de uma coleção de livros. Nesta conversa com o Correio, ele lamenta o fraco desempenho da Secretaria de Cultura nos últimos anos: %u201CO pior da história%u201D.


postado em 12/09/2010 08:00 / atualizado em 12/09/2010 08:25

» José Carlos Vieira
» Severino Francisco
» Sergio Maggio

A revista Bric-a-brac (1985 a 1992) marcou a cena cultural da cidade e do país. Fale um pouco sobre ela…
A Bric-a-brac foi um rio que passou pela vida da gente, usando a expressão poética de Paulinho da Viola. A Bric-a-brac conseguiu, ao longo dos seis anos em que ela existiu como produto e como grupo, fazer pontes poéticas de Brasília com outras vanguardas do país de uma forma muito ativa. Tínhamos um grupo muito forte, cujo núcleo era formado por três jornalistas: Lúcia Leão, João Borges e eu; além de um designer, o Reza (Luiz Eduardo Rezende). Nossa meta era fazer mergulhos nas fontes poéticas do país, como a entrevista que fizemos com Manoel de Barros, que durou uma troca de cartas de seis meses. Fomos três vezes a Campo Grande, tomamos muito uísque, muito caldo de piranha, mas tudo o que aconteceu nesses encontros não podia sair (devido a um acordo com Barros), apenas o teor das 10 cartas. Fizemos também uma entrevista histórica com Paulinho da Viola, com José Mindlin, que foi um mergulho profundo dentro da biblioteca dele e que acabou impulsionando-o a escrever a obra Uma vida entre livros, que o levou à Academia Brasileira de Letras. No discurso de posse ele agradece à Bric-a-brac pela entrevista. Fizemos pontes com os concretistas, com a vanguarda de São Paulo, que era Arrigo Barnabé, Arnaldo Antunes… Fizemos contatos com o pessoal de Minas, ou seja, a revista foi uma rede que até hoje continua dando frutos.

Mas por que a revista acabou?
Foi um tempo intenso e útil, mas o rio da convivência entre a gente secou, com todo o respeito. Mas ainda tenho um sonho de fazer algo similar.

Você acaba de lançar um livro de poesias em homenagem a uma de suas filhas (Luísa Lulusa, a atriz principal). É um livro infantil?
Este livro foi feito para crianças de todas as idades. É um livro pro vovô, pro titio… A criança já nasce poeta, mas depois ela vai se alfabetizando e se despoetizando. Eu já tinha três filhos, já era um pai-avô quando Luísa (a mais nova) e Manuela surgiram. O livro foi uma parceria de intensa paixão entre nós três, elas opinaram muito.

A necessidade do Fundo de Apoio à Cultura para lançar livro não cria uma dependência perigosa e viciante do Estado?
É uma boa discussão. A cultura sobrevive ao Estado, ela está acima do Estado. O que o Estado tem de fazer é não atrapalhar e, se possível, incentivar, democratizando o máximo possível a liberação de recursos. O Fundo de Apoio à Cultura é uma conquista dos artistas. Mas a liberação dessas verbas ainda é deturpada e burocrática, completamente anticultural, tem um viés ideológico. Essas regras precisam mudar. A gente espera que o próximo governador tenha sensibilidade para isso. Mas vale destacar que o artista tem de ser independente de FAC, independente de tudo.

Você faz parte da chamada geração da poesia marginal e, no entanto, sempre teve admiração pela poesia concreta e amizade com os paulistas Augusto e Haroldo de Campos. Para a maioria dos poetas, a poesia marginal e a poesia concreta são coisas incompatíveis, pois uma é intuitiva e a outra, cerebral. Como você trabalhou essa química, para muitos, inviável?
Não sou um poeta concreto. Surgi no auge da poesia marginal, tanto que trouxe pra vocês verem esse livro, que é a bíblia da poesia marginal: Me segura qu’eu vou dar um troço, de Waly Sailormoon (Salomão). Chacal, Francisco Alvim, Chico Chaves, eu… todos bebemos nesse livro. A maneira como a poesia concreta foi apresentada para a nossa geração era uma coisa de um belo aproveitamento do espaço. O que a gente bebeu nos concretos? Eles tinham seus princípios rígidos, como a morte do verso. Mas foi uma radicalidade que logo passou, porque ao mesmo tempo em que eles falavam da morte do verso, eles se transformaram nos melhores tradutores dos versos mundiais, especialmente Augusto de Campos. Eu me desenvolvi como poeta tendo muito contato com Augusto; tanto é que, no tempo da Bric-a-brac, a poesia concreta estava fazendo 30 anos, fizemos a primeira grande entrevista com Augusto de Campos. É claro que também bebíamos muito no Tropicalismo, na música popular brasileira. A minha cultura poética passa pela MPB.

O que é ser poeta?
(silêncio) É um caçador das grandes emoções do planeta. Me desenvolvi como poeta e como jornalista. No jornalismo, a gente trabalha com a objetividade, na poesia a gente trabalha principalmente com a magia em forma de linguagem. Uma coisa é a informação, a outra é a emoção. Você tem sucesso como jornalista e como poeta se você desenvolver bem esses códigos. Mas acima de tudo, o poeta é um caçador de emoção. Com o tempo ele vai se transformando num sem-fronteira, porque vai captando poesia em varias outras linguagens, você começa a ver poesia no jornalismo, no audiovisual… começa a fazer a ponte da poesia com a música — no meu caso. É como o poeta Xico Chaves destaca: transterritoriedade.

Brasília é, culturalmente, provinciana?
Não. A cidade recebe todas as influências de fora, mas Brasília já é um celeiro de artistas e absorve muito bem as boas coisas que vêm de fora, e isso transforma as pessoas que estão fazendo arte aqui, ou você acha que o Cena Contemporânea não transforma centenas e centenas de jovens que trabalham com teatro? As grandes vedetes do Cena Contemporânea terminam sendo artistas brasilienses. Como o ator Willian Lopes, que se apresentou na parede externa do Ministério do Esporte. Achei genial quando ele disse: “Eu transo legal com os espaços de Niemeyer”. O artista plástico Chico Amaral colocou palavras (dê espaço ao tempo) em postes da Asa Norte. Só quem conhece a geografia da cidade tem meios de interferir poeticamente nos espaços de Brasília, ou seja, começa a fortalecer esse olhar brasiliense.

O projeto da barca poética enfrenta bons ventos?
Nós temos um grupo de poetas com linguagens diferentes que se reúne para fazer atividades culturais há 10 anos. Esse grupo chama-se OIPoema, integrado por poetas como Bic Prado, Cristiane Sobral, Angélica Torres, Amneres e Nicolas Behr. Conhecedores da geografia da cidade, nós sempre buscamos locais para fazer poesia, descobrimos a barca, um espaço em que poderíamos levar pessoas para lá e fazer um passeio pelo Lago durante duas horas com intervenções poéticas e muita música. Fizemos um trabalho intenso, agora ficou esse espaço formado para os poetas de Brasília. Vários outros grupos já ocuparam a barca. Nos recolhemos porque resolvemos fazer outro tipo de intervenção, que é uma coleção de livros de poesia. Durante quase um ano o grupo ficou gestando a coleção OIPoema, com seis livros. A essa coleção vai se juntar a obra do Reza, um livro de poemas visuais. Mas a ação que estamos fazendo agora é adotar uma escola pública numa área periférica da cidade. Por exemplo, a minha é a Escola Classe nº 4 , de Vila Buritis, em Planaltina, onde já doei livros, fiz palestras… Estamos percorrendo áreas como o Varjão e o Paranoá.

Brasília dá samba?
Totalmente. Brasília foi fundada em ritmo de samba, defendo essa tese (risos). Por exemplo, Água de beber, de Tom Jobim e Vinicius, foi feita graças a uma fonte que tem lá no Catetinho. Uma das primeiras providências de Juscelino Kubitschek, como presidente bossa nova, foi trazer para a cidade Tom e Vinicius, que fizeram uma linda sinfonia, além de beberem das fontes da cidade. Destaco uma instituição que a gente precisa olhar com bastante carinho, que é a Aruc. A Portela veio aqui abençoar essa escola na época de sua criação. Depois o samba se espalhou pela cidade e hoje temos coisas maravilhosas, cantoras incríveis, como Dhi Ribeiro, Renata Jambeiro e tantas outras.

Como se iniciou sua relação com Brasília e como a vê hoje? Ela passou a ser uma cidade como qualquer outra? As marcas modernas foram apagadas pelo poder oficial e agora são apenas ruínas arqueológicas e cartões-postais?
A cidade pulsa. Mesmo sendo pernambucano, jamais deixei de ser carioca em Brasília (risos). Fui um menino criado em frente ao Morro da Mangueira. Aos 28 anos, quando vim pra cá, em 1978, sofri um banzo, procurava o mar e não encontrava. Se não existissem eventos como o Concerto Cabeças, eu piraria. Mas sempre que posso vou ao Rio, à Lapa, ouvir um samba lá. Aqui também é assim, toda semana preciso ir a um samba no Calaf, no Tartaruga… senão, eu não fico legal. Brasília me deu muitas amizades, poesia, uma produção cultural intensa. Agora, eu me defino um sem-fronteiras.

Você conviveu com Paulo Tovar, Renato Matos e outros tantos nomes da cultura local nos tempos em que se podia fazer um piquenique às duas da madrugada, em pleno Eixão, sem ser importunado por ninguém. Fale um pouco dessa época e dos bares que vocês frequentavam...
É bacana essa imagem do pique-nique. Nós éramos os donos da cidade. A gente saía do Bom Demais, às 3h da manhã, e iamos andando da Asa Norte à Asa Sul, onde morava, fazendo seresta, cantando etc. e tal, e não éramos incomodados nem por bandidos — hoje se você for andar por aí, vem uma turma e lhe rouba o relógio, o anel, o tênis para comprar crack — nem por policiais, que caem em cima de você, querendo documentos e suspeitando que você seja um bandido. Mas esse tempo passou. Muitos já se foram, como Paulinho Tovar, e outros estão aí, feito Renato Matos, com os cabelos já brancos, um gênio da música local, sobrevivendo de sua arte.

Depois de passar por problemas cardíacos, o que você faz para se divertir?
Não me estresso. Cometi muitos abusos, principalmente com bebidas e muito trabalho. Procuro cuidar da minha alimentação.

Como conciliar a agenda de poeta, agitador cultural, blogueiro, jornalista e pai?
Tudo ao mesmo tempo agora (risos).

Se fosse convidado para ser secretário de Cultura do DF, qual seria a sua primeira ordem? Como você avalia a atuação da secretaria hoje?
Não aceitaria (risos). Tenho muita amizade pelo Silvestre Gorgulho, mas desde que me entendo por gente, foi a pior gestão na história de Brasília. Por quê? Porque o Silvestre foi ali para cumprir uma outra missão. Ele jamais teve uma visão de políticas públicas, jamais se cercou de gente que entende daquilo. Eu mesmo trabalhei com ele na aproximação da Beija-Flor com a cidade, de mostrar o T-Bone, o Beirute… e mesmo assim foi uma coisa muito atrapalhada. Uma decepção. O Arruda não era tão tapado assim, ele tinha uma visão cultural. Mas se perdeu completamente. Ele já escreveu um livro sobre a vida da mãe do Glauber Rocha, a dona Lúcia. O governo só atrapalhou a vida da gente.

Quais são seus principais projetos?
Mergulhar de cabeça no mundo do audiovisual. Gostei muito de fazer filme, fiz um sobre a história do Sindicato dos Jornalistas e me amarrei muito. Tenho dois projetos grandes pela frente: o primeiro é O samba no mundo, dividido em seis documentários. Porque o samba e a capoeira são fontes da cultura brasileira que se espalharam por todas as regiões desse planeta. Onde você vai, tem uma academia de capoeira. Quando trabalhava no Ministério da Cultura cheguei participar de uma roda internacional de capoeira em Genebra, em que vi árabe jogando capoeira com judeu. A outra coisa é o samba. Mapeei o samba em todas as grandes cidades do mundo. O primeiro capítulo chama-se Samba no mundo Japão. No carnaval de Asakusa, em Tóquio, tem 12 escolas de samba. Quinhentas mil pessoas vão para a rua assistir ao desfile. Os japoneses estão reinventando o samba. O segundo projeto trata do “do-in antropológico” que participei quando trabalhava no MinC — uma massagem nos pontos da cultura nacional que estavam enrijecidos para que eles pudessem fluir novamente. Nesse período, tive a oportunidade de fazer um mergulho na cultura do Brasil, fui juntando muita documentação, tenho 50 caixas com artigos, fotos etc… Tenho até uma roupa enorme de maracatu que ganhei de Mestre Salustiano. Com esse material escreverei um livro sobre o pulsar nada mudo da cultura brasileira.

Poema
Papo de Repórter

vou ler suas reportagens
sobre o proletariado
saiu na primeira página
de no the new york times
Você só errou no título
a América não tem crase
não dê calote no lead
na dívida consulte a Dad
concorde as concordâncias
desminta as estatísticas
no texto só valem essências
não encha tanta lingüiça
sim à última flor do lacio
não às versões cadafalsas
faça do mínimo a máxima
frases curtas secas e sacras

Meiaoito
(fragmentos)
…)

escancaramento das consciências
ausência de medos & responsas
êxtases & demências
miserere nobis & ho chin min
elvis & samba de raiz
che & ternurinha
jovens-guardas vermelhos
guerrilheiros de teses e tesões (…)
ah...
meu primeiro grito pós-parto
meu primeiro jato de esperma
minha primeira cabeça raspada
feita e encaminhada ao universo
minha primeira pedra atirada
rumo às trevas por amor
no ardor do combate (...)
Aviso à praça
peito aberto a machadada
costurado com fios de aço
escrito embaixo
com letras bordadas
desculpem o transtorno
coração em obras
não se afobem
aguardem o retorno

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