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Diário secreto e quadrinho marcam o aniversário da morte de Agatha Christie

Os crimes costumam ser executados tais quais os problemas de matemática. Um fato, uma incógnita e dezenas de variáveis pairam em volta do mistério quando quem está por trás do texto é Agatha Christie. A dama do crime ; ou rainha, como alguns preferem ; e seu detetive Hercule Poirot não poupam o leitor de pistas truncadas e suspeitos duvidosos. Assim conquistaram boa parte do mercado editorial de romances policiais, o que faz do dia de hoje um motivo de celebração para as editoras e para o mundo literário.

No Brasil, a data ganha comemoração especial organizada pela editora L e lançamento do livro Os diários secretos de Agatha Christie, organizado por John Curran, curador do legado da autora, e publicado pela Leya. Dona dos direitos de edição em versão de bolso desde 2006, a L já publicou 28 títulos e ainda tem três por publicar, além de seis romances escritos sob o pseudônimo de Mary Westmacott.

;É uma autora que vende bem, agora não é um super best-seller, é um livro lançado há muitos anos no Brasil. E nada é mais universal que Agatha Christie;, explica Ivan Pinheiro Machado, um dos proprietários da L, que relança alguns títulos com as mesmas capas comemorativas da editora inglesa Chorion e aposta na versão em quadrinhos de Assassinato no Expresso Oriente e Morte no Nilo, dos franceses François Rivi;re e Solidor.

A editora vai espalhar 100 títulos por shoppings de várias capitais. Quem passar pelo Conjunto Nacional hoje corre o risco de ser convidado a participar da tentativa de solucionar os crimes mais famosos da história da literatura ao esbarrar em um exemplar de Agatha Christie propositalmente abandonado.

Já o livro de John Curran traz dois contos inéditos de Hercule Poirot e pode funcionar como um bom guia para os leitores aficcionados e seguidores meticulosos dos passos dos personagens da autora. Os trechos dos diários selecionados por Curran pouco esclarecem sobre a vida pessoal de Christie, mas fornecem pistas para compreender como a inglesa arquitetava suas histórias. Tratam exclusivamente de esquemas, soluções possíveis, opções de provas e de desfechos, um amontoado de notas que o curador se encarrega de explicar a cada reprodução. Assim, descobre-se, por exemplo, que a autora não menciona a ordem alfabética fundamental na sequência de assassinatos de Os crimes ABC. Ou como foi complicado criar os álibis de Encontro com a morte, riscados e rabiscados dezenas de vezes antes da versão final, publicada em 1938.

Os diários detalham a característica matemática das tramas da inglesa, aspecto que fisga a maioria dos leitores e afasta alguns poucos, como o carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza, 74 anos. Ele leu os primeiros livros de Christie aos 17 anos. Na época, havia poucos romances policiais traduzidos para o português e Roza, autor do gênero, mergulhou nos crimes da inglesa. ;O que caracteriza Agatha Christie é que ela faz uma literatura policial que eu chamaria de cerebral, aquela coisa de que o crime é um grande problema que tem que ser decifrado, deduzido pelo personagem principal e pelo detetive.;

Marçal Aquino, autor de romances policias como Cabeça a prêmio e O invasor, encarava os livros de Christie como jogos. ;Li muito na adolescência, por puro deleite. Ela é uma jogadora muito habilidosa, que se compraz em sempre surpreender o leitor que se vê tentado a desvendar seus enigmas antes do final da narrativa.;

O escritor não chegou a ler a obra completa e confessa que hoje não voltaria aos livros. Os jogos cansaram e Aquino passou para autores como Chandler, Hamett e Jim Thompson. Mas para ele, o título mais representativo da obra da inglesa sempre será O caso dos dez negrinhos. A linguagem, ele explica, é trivial, mas a construção dos personagens é típica de Christie. ;Ela desafia o leitor com seus mistérios, a ponto de torná-lo quase um participante ativo na elucidação das tramas.;

O método de decifração também atraiu a curiosidade de Lígia Cadermatori, leitora ávida de romances policiais e aficcionada por Christie na adolescência. ;Os desafios que o agente do delito impõe ao investigador são enfrentados com exercício de lógica e extraordinária capacidade de observação. A inteligência é parte decisiva do jogo, com presença mais forte que a violência;, avalia a ex-professora da Universidade de Brasília (UnB) e doutora em teoria literária. Além de entretenimento, Agatha Christie é ;diversão pura;. O sucesso ; seus 70 livros venderam milhões de cópias somente na Inglaterra ; foi resultado de uma combinação de talento narrativo com perícia nas tramas.

INTENSA PRODUÇÃO
Agatha Christie morreu em 15 de setembro de 1976, aos 85 anos. Escrevia uma média de um livro por ano e, além do detetive Hercule Poirot, criou outros personagens que perpassavam vários livros, como a solteirona Miss Marple. Publicou o primeiro livro ; O misterioso caso de Styles ; em 1920. É a primeira aparição de Hercule Poirot, mas a fama só começaria a ganhar o mundo seis anos depois, com O assassinato de Roger Ackroyd. Christie foi casada com Archibald Christie, com quem teve uma filha, Rosalind. A própria autora também foi personagem de um mistério. Em dezembro de 1926, depois de perder a mãe e se separar do marido, ela desapareceu durante duas semanas e atribuiu o fato a uma crise nervosa em decorrência das perdas.

Trecho de Os diários secretos de Agatha Christie, de John Curran

Em fevereiro de 1955, no programa de rádio da BBC Close-up, Agatha Chirstie admitiu, quando lhe perguntaram sobre seu processo de escrita, que "a triste verdade é que não tenho realmente um método". Ela datilografava seus próprios rascunhos "numa máquina de escrever velha e fiel, que tenho há muitos anos", mas achava que um gravador era muito útil par fazer os contos. "O verdadeiro trabalho está concluído depois que se pensa no desenvolvimento da história e se ajustam todos os detalhes. Isso pode tomar bastante tempo." E esse é o ponto em que entram seus Cadernos, que não são mencionados na entrevista. Uma folheada nos cadernos mostra que foi ali que ela fez o que chamou de "pensar e ajustar" os detalhes das histórias.