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Correio Braziliense

Projeto Cabeças é lembrado hoje em show gratuito no Parque da Cidade


postado em 18/09/2010 08:00 / atualizado em 19/09/2010 03:27

Quem tem entre 40 e 60 anos e viveu em Brasília nas décadas de 1970 e 1980 há de concordar: nunca houve um projeto cultural tão bacana na cidade como o Cabeças. Outros podem ter sido melhores ou mais importantes, mas nada foi tão marcante para os jovens daquela época como a série de shows idealizada pelo produtor e ator Neio Lúcio, primeiro nos gramados da 311 Sul (em 1978 e 1979), depois na Concha Acústica do Parque da Cidade (entre 1980 e 1991, com algumas interrupções). Música, teatro, dança, poesia, artes plásticas, estava tudo lá. Todo mundo ia, todo mundo comentava. Na plateia, não havia brigas. No palco, ninguém era famoso (e quem estava aí para isso?). A qualidade dos trabalhos, aliás, nem era a questão principal. Importante, mesmo, era o exercício criativo, o espaço de expressão.

“A cidade pulsava arte, cultura, poesia, e o Cabeças abria espaço para todas as manifestações, no auge de uma época de efervescência cultural em Brasília”, diz o cantor e compositor Eduardo Rangel, um dos muitos que fizeram parte dessa história — no palco, nos gramados e nas arquibancadas de concreto — e que hoje à tarde voltam ao Parque da Cidade para lembrar os velhos tempos no Encontro Cabeças, show ao ar livre organizado por Neio por conta do cinquentenário da capital. Além de Rangel, passam pelo palco montado na Praça das Fontes atrações do antigo Cabeças, como Mel da Terra, Liga Tripa, Suzana Mares, Rênio Quintas, Renato Matos e Renato Vasconcelos.

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Pessoas que também marcaram aquelas tardes de domingo dos anos 1970 e 1980 — e que já morreram — serão homenageadas com fotos nos painéis que formam o cenário do show. Entre elas, Cássia Eller, Paulo Tovar, Aluízio Batata, Kido Guerra, Marcão Adrenalina, Cristina Borracha e Ary Pára-Raios. “O Cabeças foi o encontro dessa geração de artistas. Era um movimento lindo no meio daquela ditadura”, comenta a produtora Teresa Rollemberg, que começou a frequentar os concertos aos 15 anos e ali conheceu amigos da vida inteira. “Participei demais daquilo. Era a minha casa.”

Sonho roubado
Naqueles tempos de regime militar, quando os artistas só se reuniam em ambientes fechados, nos bares ou nas próprias casas, o Cabeças surgiu como um “movimento de permissão”, “um projeto de ocupação humana da maquete”, como afirma Neio Lúcio. “Brasília tinha sido roubada de seus sonhos de sociedade diferente. Mas sobrou a maquete, o concreto armado. E dentro da maquete moravam pessoas de várias idades e cidades”, comenta o carioca que chegou à capital aos 6 anos, em 1959, e 20 anos depois viu seu projeto crescer tanto que já não cabia numa superquadra.

“O Cabeças iniciou uma coisa bacana, de ocupar as quadras. A gente colocava piano, tinta, cavalete, fazia cinema ao ar livre, as pessoas desciam dos blocos. Era um movimento espontâneo. Tivemos que mudar para o Parque porque a cidade inteira ia para a 311”, conta Neio. “No Parque, diziam que deveríamos ter segurança, mas a gente não queria. Éramos responsáveis pelos nossos atos, incentivávamos a cidadania. Quando colocaram os seguranças, parei o evento. Não queria ninguém tomando conta da gente.”

O show marcado para hoje, depois de dois adiamentos (“O dinheiro não saiu antes”, explica o produtor), é o primeiro passo de um projeto maior. Neio Lúcio quer criar o Museu Brasília Cultural dos Anos 70 e 80 — com material da época reunido em endereço virtual (o site já existe, www.cabecas.org) e, mais pra frente, um espaço físico (ele pleiteia uma área no Parque da Cidade). A ideia é fazer, com as fotos, os textos, as lembranças, uma espécie de “clube do pertencimento”. “Nós não deixamos um legado físico, imaterial. As vivências ficaram no entendimento de cada pessoa. E é lindo poder fazer o museu com os olhos de cada um.”

ENCONTRO CABEÇAS
Show hoje, a partir das 15h, na Praça das Fontes do Parque da Cidade. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

» VONTADE DE OUTRA VEZ
Neio Lúcio

Eu me encontrava dentro de um elevador abarrotado de gente e desconfortável silêncio quando um homem apareceu acompanhado do seu filho de pouco mais de cinco anos idade. Um belo menino com olhar estupendo. Nem bem se acomodaram e o garoto foi logo dizendo: Pai! (Pausa... sempre existem pausas nos diálogos entre pais e filhos) Pai... -- e insistiu, puxando a manga do paletó do homem. Estou com saudade de sorvete! Intrigado com a aplicação que o moleque deu a palavra, decidi abandonar meu silêncio também. Agachei-me para que nossos olhos esbarrassem e, no exato momento que isso se deu, perguntei: O que é saudade pra você? Ele revirou várias vezes os olhinhos na órbita, como se procurasse o esconderijo da resposta e, seguro de havê-lo encontrado, tornou a me olhar e disse: É vontade de outra vez!

Agora, puxo eu a manga do nosso paletó para perguntar: Como é possível comemorar os 50 anos de Brasília, ou seja, cinco décadas, sem um projeto que se dedique a retratar os acontecimentos artístico-culturais das décadas de setenta e oitenta que, como sabemos, foram as mais criativas e representativas de quase todas as expressões artísticas jovens desta cidade?

Desde que me pus a pensar na questão, venho envidando esforços para elaborar projeto que se mostre capaz de valorizar essa geração de gente afeiçoada aos princípios de modernidade plantados em Brasília. Sinto nascer em mim a saudade vigorosa desse menino e noto a mesma saudade nas diversas pessoas com quem me encontro na eventualidade. O entendimento desse sentimento está norteando este empreendimento que se destina ao abrigo afetuoso, coletivo e cooperativo dessas várias "saudades" esparramadas em solidão pelas ruas de uma Brasília agora metropolitana.

"A cidade, como instituição, é relapsa com a sua história". Foi o me disse outro dia um homem de pouco riso e completamente careca, outrora um daqueles meninos lépidos que viviam nos concertos Cabeças. Mas nós podemos atuar para mudar esse quadro, juntando e organizando disciplinadamente a história das nossas vivências, sobretudo porque elas se confundem com a cidade, especialmente aquela sui generis, urbis, Brasília dos anos 70 e 80. Arrisquei minha convicção em plena faixa de pedestre e ganhei sorriso do menino que apareceu nos olhos do homem circunspeto.

Tenho consciência de que o projeto precisa nascer acompanhado dos princípios que faziam produzir os nossos gestos e que é de fundamental importância que consiga renovar em cada uma das pessoas envolvidas o indispensável sentimento de "pertencimento", sem o qual o esforço de pouco valerá.

Esse encontro nada mais é que um convite afetuoso que se destina a essa geração de brasilienses (hoje com 50, 60 anos). Gostaríamos que todos abrissem suas gavetas, baús, armários, arquivos para doarem fotos, testemunhos, textos, depoimentos, gravuras, imagens, cartazes, programas, enfim, materiais de toda natureza, que somados possam enriquecer a memória desse tempo. É intenção do Cabeças -- Centro Brasiliense de Arte e Cultura organizar esse material e dar começo aos trabalhos de um museu que se destina a contar a rica história das vivências dessa época. Como isso vai se dar, ainda não sabemos exatamente. Primeiro queremos reunir, congraçar e sugerir. Quem sabe criar o "clube do pertencimento" dessa geração. Talvez estejamos dando início à redação do um testamento de uma geração. Este evento é apenas o ponto de partida. Temos ainda muito a fazer e comover os tantos e dispersos agentes desse processo.

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