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Correio Braziliense

Sucesso nos anos 1980, Ranxerox ganha edição nacional com toda sua história


postado em 19/09/2010 02:47 / atualizado em 19/09/2010 02:48

Para o brasileiro interessado em HQs alternativas — em especial, quem já acompanhava esse universo na virada dos anos 1980 para os 1990 —, o personagem Ranxerox é símbolo de uma época em que o país vivia intensamente a liberdade reconquistada há pouco tempo e as bancas de jornal eram inundadas por lançamentos que fugiam do feijão com arroz dos super-heróis da Marvel e DC.

Ranxerox simboliza esse sentimento, pois foi um dos “garotos-propaganda” da publicação mais cultuada daqueles anos: a revista Animal. Ranx estava lá desde a primeira edição — cuja capa apresenta sua icônica imagem em close, com os dentes cerrados, óculos de soldador e topete caindo na testa.

Mas não é pela nostalgia que Ranxerox — edição que a Conrad colocou este mês nas livrarias contendo todas as histórias do personagem-título — merece especial atenção. A importância de Ranxerox para as HQs e a cultura pop no mundo é imensurável. E, mais de 30 anos depois da criação do androide troglodita, suas aventuras continuam impressionantes e inspiradoras. Dizem até que todo robô criado depois de 1980 tem algo de Ranxerox — compare a HQ com, por exemplo, O exterminador do futuro e Blade Runner e perceba o porquê.

Abaixo, Lubna usa e abusa do androide Rax. Acima, o personagem em sua primeira encarnação, ainda em preto e branco(foto: Editora Conrad/Divulgação)
Abaixo, Lubna usa e abusa do androide Rax. Acima, o personagem em sua primeira encarnação, ainda em preto e branco (foto: Editora Conrad/Divulgação)
Nascido das mentes febris dos italianos Stefano Tamburini (1955-1986) e Tanino Liberatore, o personagem foi publicado pela primeira vez em 1978, na revista Cannibale. Na época, o grandalhão ainda atendia por Rank Xerox, nome emprestado da fabricante de máquinas copiadoras — que, devido ao uso indevido da marca e, claro, pelo conteúdo anárquico das histórias, ameaçou processar os quadrinhistas.

São essas primeiras aventuras um dos destaques da publicação da Conrad — mais pelo ineditismo do que pela qualidade. Em preto e branco e com a arte dividida entre Tamburini (autor também dos roteiros) e Liberatore, elas mostram o personagem e seu universo em formação. Os desenhos, aliás, estão longe do primor que atingiriam pouco depois. Os principais elementos do universo de Ranx, no entanto, já estão lá: violência, sexo, drogas, rock ’n’ roll e subversão.

Dimensão
O Ranxerox que os leitores aprenderiam a amar surgiu em 1981, nas páginas da Frigidaire, com a história Ranx em Nova York, a mesma que os brasileiros conheceriam, publicada em capítulos, na Animal. A principal diferença está na arte. Liberatore, que assumiu de vez a função, criou ilustrações hiper-realistas e detalhadíssimas. Seu colorido dá dimensão e textura às cenas e fotografa (no sentido cinematográfico do termo) os cenários. O resultado entre o belo e o grotesco é impressionante.

Os roteiros de Tamburini (morto de overdose de heroína) mostram um mundo futurista e decadente. É nele que vive Lubna, toxicômana de 12 anos, cujo presente de aniversário, Ranxerox, serve como guarda-costas e amante. Programado para amá-la sobre todas as coisas, o androide e a menina só se metem em confusão. Ranx, nem um pouco delicado (e sempre soltando grunhidos de “znort”), não pensa duas vezes em descer a mão em quem se aproxima da ninfeta. Ela, por sua vez, faz o androide de gato e sapato, seja para conseguir mais uma dose de heroína, seja por uma transa casual quando Ranxerox não está por perto.

Todos esses elementos juntos em uma HQ poderiam causar rebuliço e atiçar os censores de plantão. Mas não foi assim, como lembra o então editor da Animal e, hoje, da Conrad, Rogério de Campos: “Naquela época, depois de uma ditadura militar, a liberdade de expressão era muito valorizada. Além disso, quando a Animal chegou foi um pulo. Comparando com o rock, era como se só os discos dos Beatles tivessem saído no Brasil e, de repente, lançam os Sex Pistols. O país era dominado pelos quadrinhos infantojuvenis, não tínhamos mais quase nada”.

De Stefano Tamburini, Tanino Liberatore e participação de Alain Chabat. 192 páginas. Conrad Editora. R$ 49,90(foto: RANXEROX)
De Stefano Tamburini, Tanino Liberatore e participação de Alain Chabat. 192 páginas. Conrad Editora. R$ 49,90 (foto: RANXEROX)
Campos comenta que, além da arte deslumbrante, Ranxerox guarda uma grande carga de subversão política. Seu texto de introdução na edição, aliás, ajuda a contextualizar a Itália do fim dos anos 1970 quando surgiu o personagem.

No Brasil, além da Animal, Ranxerox passou pela extinta revista Heavy Metal. Mesmo para quem já conhece as histórias, a coletânea recém-lançada tem atrativos como rascunhos e pin-ups feitos por Libertore, papel de qualidade e capa dura. Tudo e mais um pouco para deixar um fã do androide italiano satisfeito.

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