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Correio Braziliense

Danilo Gentili fala sobre censura, pudor, vaidade e incoerências


postado em 30/09/2010 08:00

(foto: Maycon Amoroso/Divulgação )
(foto: Maycon Amoroso/Divulgação )


Nos corredores da política brasileira, uma pergunta de Danilo Gentili pode deixar sequelas: disparada à queima-roupa, revela o que há de mais ridículo no comportamento dos poderosos. A plateia já se acostumou ao tiroteio. Nas noites de segunda-feira, o comediante de 31 anos — nascido em Santo André (SP) — espalha pólvora no programa CQC, transmitido pela Band. Se o poder é um campo de guerra, ele teima em se colocar na linha de fogo. “Só evito as piadas que eu acho que não farão o público rir. E às vezes erro feio”, explica. Na trincheira do humor, Danilo já foi agredido fisicamente (por guardas municipais, militantes políticos e seguranças de Sarney) e envolveu-se em polêmicas sobre racismo e liberdade de expressão. A acidez atrai seguidores: no Twitter, já soma 1,1 milhão de fãs.

Antes de se tornar um “repórter inexperiente”, Danilo era um expert em comédias stand-up. O espetáculo inédito que apresenta apenas amanhã em Brasília — em três sessões, às 17h, 19h e 21h — sintoniza um meio-termo entre o provocador da tevê e o humorista dos palcos. Em Politicamente incorreto, o tema é um só: política. Às vésperas das eleições, Danilo metralha as incoerências dos candidatos, os escândalos e as caricaturas do palanque eleitoral. E em escala global: o show será transmitido ao vivo pela internet. Em conversa com o Correio, Danilo fala sobre os pudores dos humoristas, a censura à comédia e, é claro, sobre o assunto da semana: as eleições.

Entrevista - Danilo Gentili

Dilma, Serra, Marina, Plínio. Quem rende as melhores piadas?

Todos têm contradições. Mas o melhor alvo é sempre aquele que está por cima. Óbvio! É sempre mais divertido jogar a torta em quem está por cima da carne seca do que chutar cachorro morto. Quanto maior o prestígio da vítima, maior o desejo da gente, simples mortais, de equalizar nossa posição com elas. Acredito que vão rir mais das piadas da Dilma do que das piadas do Plínio. O humor é a arma dos perdedores.

Os candidatos à Presidência são caricaturas prontas?
Todo mundo é uma caricatura pronta. Mas os políticos são caricaturas que adoramos ver deformadas.

Na política, o país produz piadas a cada dia. Para um comediante, é complicado concorrer com as "gracinhas" dos políticos?

Não, não… Todo esse absurdo da política brasileira é bem-vindo.

Na campanha eleitoral, você acredita que o eleitor brasileiro já consegue diferenciar o que é piada de mau gosto do que é para ser levado a sério?
Se nem o presidente consegue diferenciar quem deve ou não ser apoiado, não é o povo que vai saber diferenciar alguma coisa.

O poder do humor, até como uma forma de marketing, é incompreendido pelos poderosos? Eles poderiam tirar mais vantagem disso. Todo poderoso precisa de popularidade, e o humor é popular. Quem é o deputado com mais intenção de votos este ano? Por que transmitir o show ao vivo pela internet?
Essa ideia surgiu na época em que a Justiça Eleitoral focou muito naquele tal artigo 45, que censurava o humor com candidatos na tevê e no rádio. Pensei: “Só de raiva farei um show falando de tudo que não posso na tevê ou no rádio...Vão ter que engolir!”. Aí a lei caiu. Fiquei chateado porque seria mais emocionante o show rolando com ela. Mas isso não tirou a graça do show, porque a censura no Brasil, como todo mundo sabe, ainda existe. É bem possível que eu fale algo do Aécio ou do Sarney e eles liguem lá na Band pedindo minha cabeça. No fim das contas, a essência da ideia de esse show ser transmitido na internet é proporcionar ao público a democracia e a liberdade que não existem nos meios de comunicação do Brasil.

Os comediantes protestaram pelo direito de fazer piadas sobre candidatos. Mas, quando se fala em política, existe autocensura entre os humoristas?
Existe é muita puxação de saco entre os comediantes. Entre no Twitter, ele é um termômetro disso. Tem humorista que usa o microblog mais pra puxar saco da classe artística do que pra fazer piada. Eles têm a necessidade de serem bem aceitos na panelinha ou de garantirem vaga na Rede Globo ou no camarote VIP da Ivete Sangalo. Tem humorista que prefere sair na revista Caras ao lado do Fiuk a fazer o público dar risada. Todo mundo quer ser o bom rapaz. Eu, particularmente, acho isso bem patético. Na real mesmo, esses “coxinhas” acabam sendo motivo de piada quando outros humoristas se encontram.

O público brasileiro é pudico em relação ao humor politicamente incorreto?

Tem muita gente chata e burra que nem gosta ou entende a piada e só quer ouvir o que o humorista fala pra procurar encher o saco. Engraçado é que a chatice nunca parte de quem gosta ou consome comédia, que pagaria pra ver um show de humor. Ela parte do público que consome novela... e acredita que o galã principal é hetero na vida real. Mas também tem aquele público sedento por piadas que lhes faça rir. Pra quem consome comédia, não existe politicamente correto ou incorreto. Só existe boa piada.

Falta coragem aos comediantes brasileiros?

O importante do humor é que ele seja autêntico. Então cada humorista deve seguir o humor que se sente à vontade fazendo, que tenha a ver com o que ele realmente é. Existem mestres do humor que fizeram carreira falando sobre os assuntos mais banais do mundo, sem pretensão, e outros que usaram críticas sociais nas piadas. Autenticidade é tudo no humor. O que não dá é ficar forçando indignação e “protestinho”, quando na verdade você nem sabe o que se passa e está pouco se lixando. Isso é ir contra a sua essência, é ridículo. Puxa-saquismo também é dose. Se é ridículo em qualquer meio, imagina num meio que teoricamente deve fazer o oposto disso.

O que o humor pode revelar sobre a sociedade brasileira? Que, votando no Tiririca, pior do que está não fica. O Tiririca é um dos candidatos de maior popularidade no Brasil. Isso é uma piada amarga?

Acho que não. Gosto da ideia de o Tiririca se candidatar, falar o que quiser. Quem quiser que vote nele. Isso, pra mim, é democracia. Se o público quer votar nele, que vote. Piada amarga é a família Collor mandar num estado que é número 1 em pobreza e ainda assim estar em primeiro nas pesquisas.

Com o Tiririca no Congresso, vocês ainda vão conseguir fazer graça com o CQC?
Vai ser melhor ainda. Ele será um reforço de peso! Mas vai ter que ser no improviso porque ele não sabe ler o roteiro.


No seu blog, você diz que "a linha do limite do humor no Brasil é muito apertada". Qual é esse limite?

Se analisada de certo ângulo, contar piada nada mais é do que criar muita tensão para depois aliviá-la. Quanto mais você conseguir dobrar um graveto sem quebrá-lo, melhor é a sua piada. O limite é chegar perto de quebrá-lo... mas bem perto mesmo.

Também no seu blog, você nota que no Brasil "não rola comédia de opinião". O humor brasileiro perdeu a verve?

Meu problema não é contra qualquer tipo de humor. Eu me divirto com todos. Meu problema é quando enchem o saco porque alguém usa a sua opinião para fazer piada. Na tevê mesmo, não tem quase ninguém fazendo isso. Me parece ser algo pouco aceitável em mídias de massa.

No CQC, você mexe com questões delicadas da sociedade: a vaidade dos políticos e das celebridades, por exemplo. Já ficou com receio de enfrentar a fúria dessas personalidades?
Se a celebridade ou o político não entendem que o papel do comediante é fazer piada de tudo, e isso inclui principalmente ele, então que não sejam meus amigos. Não fazem falta. Tenho um monte de amigos lá em Santo André.

Brasília tinha um candidato a governador acusado de ser "ficha suja" e que, no último momento, escalou a mulher para disputar o cargo no lugar dele... Há situações na política que superam a imaginação dos comediantes? Neste processo eleitoral, algum caso superou as suas expectativas?
Ainda não. O pior sempre está por vir.

Você já pensou em se candidatar?

Já. Quando eu tiver perdido tudo que ganhei com mulher e jogo, igual ao Tiririca ou ao Romário, eu me candidato.

POLITICAMENTE INCORRETO

Espetáculo de stand-up comedy com Danilo Gentili. Amanhã, às 17h, 19h e 21h (esta, com transmissão ao vivo pelo Uol), na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia). Venda antecipada nos restaurantes Baco em Pedaços (303 Sul) e Grande Muralha (108 Norte). Não recomendado para menores de 14 anos.

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