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Correio Braziliense

Hugo Rodas encena peça que brinda 71 anos de vida e 53 de teatro


postado em 13/10/2010 07:15 / atualizado em 13/10/2010 08:22

"Senti necessidade do palco, do olho, da adrenalina. Me sinto no limite de tudo. Estava com saudade de ser vítima" (foto: Fotos: Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press)
Quando menino, o uruguaio Hugo Renato Giusto Rodas costumava se sentar em uma mureta de pedra e admirar o rio que cruza sua cidade natal, a pequena Juan Lacaze. “Olhava para o horizonte e me perguntava para onde irei? Sabia que não passaria minha vida lá, mas também sabia que nunca sairia”, reflete. A intuição do pequeno Hugo seguia o caminho certo.

 

Anualmente, ele visita a família, que ainda vive no Uruguai, percorre os cenários de suas lembranças e abraça as árvores que o acolheram. Por isso, nunca saiu de lá. Mas mudou-se do país na década de 1970 e construiu uma sólida carreira no teatro de Brasília, cidade que o abraçou e alçou ao posto de referência em artes cênicas. Depois de 53 anos de coxias e tablados e mais de sete décadas de vida transcorridas, Hugo Rodas se transformou em inspiração para nove diretores de teatro, que criaram sete cenas para seu mais novo espetáculo, 7 X Rodas, que estreia amanhã, às 21h, no Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Hoje, a sessão é para convidados.


O embrião do espetáculo surgiu de forma prosaica: “Não queria festejar meu aniversário com uma festa comum”, conta. O 71º aniversário também evidenciou o desejo de exercitar a faceta de ator que Rodas sempre alimentou dentro de si. “Senti necessidade do palco, do olho, da adrenalina. Me sinto no limite de tudo. Estava com saudade de ser vítima”, explica. Depois da decisão de comemorar sob os holofotes, o formato da celebração começou a se desenhar. O aniversariante se decidiu por um monólogo e arriscou ser surpreendido pela criatividade dos sete diretores que convidou para criar, especialmente para ele, cenas com duração variada de 8 a 14 minutos .


A maratona exigiu dois meses de ensaio e a habilidade de pular constantemente de uma história para outra, sem misturar as cargas emocionais. “Adorei. Foi como sair de um amor para outro”, admite. Além de atuar, Rodas assina o roteiro final e a cenografia, que também dribla o óbvio. A plateia se senta no centro da sala de espetáculo e a atuação se desenvolve ao redor, em sete estruturas que o ator costuma chamar de “oratórios ou parquinhos”. No fim das contas, ele percebeu que nem uma encomenda específica teria criado um espetáculo com tanta unidade. Mesmo gravitando por temas como liberdade, ditadura, guerra, amor, prisão e honestidade, Hugo Rodas garante que a obra tem começo, meio e fim.


Nas esquinas

Fernando Villar escreveu a história O sétimo juiz, que trata de um magistrado decidido a fazer justiça com as próprias mãos. “Tenho a impressão que cada um de nós quis vê-lo fazendo algo que ele não tinha feito antes”, avalia o diretor. Alexandre Ribondi, um de seus parceiros mais antigos, desenvolveu a quatro mãos com o ator Sérgio Sartório o quadro Hoje me despeço da sua ausência, relato das desventuras de um homem que decide se matar por ter se apaixonado pela mulher que torturou e assassinou.


Guilherme Reis adaptou o texto Como não apodreceu Branca de Neve, da espanhola Angélica Lidell. Nesse momento, Hugo se desdobra em três personagens para refletir sobre a infância devastada pela guerra. “É um texto que se baseia numa tradição da parte rica do mundo, os contos de fadas, para falar da parte pobre e sofrida do mundo. Falamos das crianças, primeiras vítimas da violência, da ignorância, das disputas econômicas e sociais”, descreve Reis.


Nessa reunião de artistas que marcaram sua rota, Hugo Rodas importou uma amiga dos tempos de juventude para participar da bricolagem, a quem Rodas define como uma “companheira de teatro, vida, penúria, baile e alegria”. Adriana Lagomarsino revirou as feridas abertas da ditadura e adaptou o livro El rehén, de Maurício Rosencof. Uma das principais vítimas da ditadura uruguaia, ele passou anos preso em uma cela minúscula. Para não enlouquecer, criou um amigo imaginário, um galo, e passou a conversar com ele.


Os irmãos Adriano e Fernando Guimarães investiram na delicadeza lírica do poeta Manoel de Barros, ao adaptarem o poema O menino que carregava água na peneira, que encerra a noite. “Ficamos muitos satisfeitos por tê-lo como ator, depois de quase 20 anos”, revelam. Juntos, os três dirigiram Doroteia, de Nelson Rodrigues, e conquistaram o prêmio Shell de direção, em 1996. No ano passado, assinaram juntos a direção de outra obra rodrigueana: Viúva, porém honesta. Míriam Virna, que, segundo Rodas, representa “a inquietude da camada jovem”, também optou pela adaptação poética. Ela é responsável pela cena que abre a peça, baseada em um poema escrito por Rabindranath Tagore e batizado de Quando me ordenas que cante.

A poucos dias da estreia, Hugo Rodas já pulava com versatilidade de um papel a outro, mas um dos episódios ainda estava cercado por uma aura de mistério: a cena proposta pelo “irmão” Zé Celso Martinez Corrêa era uma surpresa e ele sequer sabia do que se tratava. “Acho que será algo totalmente dionisíaco”, aposta o homenageado.

 

7 X RODAS

Monólogo de Hugo Rodas. De amanhã a sábado, às 21h, domingo, às 20h, no Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil (SCS — 3310-7087). Ingressos a R$ 15 e 7,50 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos. Até 7 de novembro. 

 

Três perguntas// Hugo Rodas

 

Porque você deixou o Uruguai?
Foram várias razões. Na época da ditadura, havia um milhão de uruguaios desaparecidos, mais ou menos da minha idade. Voltei de uma viagem ao Chile e fui convidado para um Festival de Inverno em Ouro Preto. Nessa rápida parada em Montevidéu, encontrei a mesma desgraça e a mesma tristeza. Fiquei no Brasil. Encontrei pessoas com a minha cara, a minha idade, e que sorriam. É diferente sofrer com tango e sofrer com samba (risos).


E como veio parar em Brasília?
No festival, conheci pessoas da Bahia e passei um tempo lá. Clyde Morgan, que era professor universitário de dança e referência na Bahia, foi convidado para fazer um curso de dança na Academia Lúcia Toller, mas não pôde vir. Eu vim no lugar dele, para um curso de 15 dias. Queria ver a cidade, visitar uns conhecidos. Mas me apaixonei pelo espaço, pela modernidade, pela arquitetura, pelo horizonte, pelo céu. A cidade tinha o atrativo de algo que começa. Nunca suspeitei que pudesse viver em um lugar que tinha 15 anos. Em 15 minutos, chegávamos no mato, no Poço Azul, em Itiquira. Nunca tive antes essa relação com a terra.

Qual foi o exercício mais interessante ue 7 X Rodas te proporcionou?
Foi engraçado ver diferentes coisas de mim, sejam virtudes ou defeitos, nessas sete pessoas, poder me ver no papel que elas exerciam. Deixar de pensar como diretor para me permitir servir, sobretudo aceitar a proposta que não seria a minha escolha, se eu estivesse ali. Foi muito impressionante pensar “como eu provoquei essa pessoa a dizer o que pretende dessa maneira?”.


» DEPOIMENTOS

"Começamos a fazer trabalhos juntos há 45 anos. Nos encontramos e seguimos o mesmo caminho criativo. Foi como a parceria entre John Lennon e Paul McCartney. Hugo é fiel às raízes e vai para o Uruguai todos os verões visitar sua família, da qual acredito que faço parte"

Adriana Lagomarsino

"Como ator, Hugo é fenomenal. Tem a humildade de ouvir o que o diretor pede e uma capacidade incrível de observação do ser humano, uma características mais importantes para o artista. É uma figura de referência na arte, que influencia muita gente"

Adriano e Fernando Guimarães

"Hugo tem sido um grande companheiro de teatro, desde os anos 1970. Atualmente, nossas parcerias não têm sido frequentes, mas é sempre um prazer estarmos e trabalharmos juntos. O convite foi uma grande oportunidade para desenvolver ideias"

Alexandre Ribondi

"Hugo Rodas é um mestre para muitas gerações em Brasília e continua a formar atores e diretores que têm a oportunidade de se iniciarem por suas mãos criativas e provocadoras. Sua história se confunde com a história do teatro feito na cidade. É um prazer e uma honra participar dessa criação coletiva e espero que o público curta esses fragmentos teatrais com o mesmo interesse e carinho com que nos envolvemos no projeto"

Guilherme Reis

"Quando eu tinha 17 anos e fazia minhas primeiras incursões pelo teatro amador, assisti à montagem de Os saltimbancos, que Hugo fez com o grupo Pitú. Foi muito forte pra mim. Em 1981, fiz um papel menor na montagem brasiliense de Besame mucho, do Mário Prata, e passei muito tempo sentado, vendo-o dirigir. Depois, ele virou meu consultor e passou a fazer parte do meu rol de críticos. Hugo é uma figura única, um homem renascentista, com múltiplos talentos, que se desdobra, dirige, atua, desenha, faz figurino, cenário, é pianista. É uma delícia trabalhar com quem tem a minha idade só de tempo de teatro. E Hugo é de uma jovialidade e disposição impressionantes, apresenta propostas, nunca fica satisfeito.

Fernando Villar

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