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Correio Braziliense

Depoimentos de pracinhas na 2ª Guerra desmistificam atuação de brasileiros


postado em 12/11/2010 07:25 / atualizado em 12/11/2010 08:27

<b>Barbudos, sujos e fatigados - soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial</b><Br>De Cesar Campiani Maximiano. Editora Grua. Número de páginas: 448. Preço: R$ 58(foto: Cesar Campiani Maximiniano/Reprodução)
Barbudos, sujos e fatigados - soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial
De Cesar Campiani Maximiano. Editora Grua. Número de páginas: 448. Preço: R$ 58
(foto: Cesar Campiani Maximiniano/Reprodução)
Nem heróis nem trapalhões, nem patrioteiros ingênuos nem titãs, nem desdentados raquíticos nem combatentes que introduziram o jeitinho brasileiro na guerra. O próprio título do livro do historiador Cesar Campiani Maximiano sobre a participação dos expedicionários da FEB na Itália já é desmistificador: Barbados, sujos e fatigados - soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial (Ed. Grua). Campiani é doutor em história pela Universidade de São Paulo (USP) e realiza uma preciosa reavaliação da participação da força expedicionária brasileira na Segunda Guerra Mundial, dando voz a quem teve pouco espaço para se manifestar: os pracinhas brasileiros.

Nos tempos de guerra, a correspondência deles era severamente censurada por razões de segurança e preservação da imagem oficial do Exército brasileiro. Existem escassos relatos escritos sobre a dura experiência na Itália. Daí a importância da pesquisa realizada por Cesar Campiani, durante nove anos, numa varredura por documentos impressos, materiais da guerra e, principalmente, relatos orais.

Cesar refuta, com documentos, a versão de que os combatentes brasileiros seriam analfabetos, raquíticos e desdentados. Segundo ele, a maioria dos pracinhas recrutados era das regiões Sul e Sudeste do Brasil, as mais ricas do Brasil na segunda metade da década de 1940. "Nessas áreas, os hábitos alimentares introduzidos pelos imigrantes haviam sido responsáveis por sensível aumento da robustez física da população, fator já observado pelo sanitarista Josué de Castro na década de 1940", escreve Campiani.

Os depoimentos dos pracinhas projetam um quadro bastante realista sobre vários aspectos da guerra: o recrutamento, a preparação, a vida nas trincheiras, os embates com os alemães, a alimentação, a bravura, o medo, a saudade da família e a experiência cotidiana da morte: "As narrativas e textos produzidos por veteranos da FEB caracterizam-se pela honestidade pela e modéstia ao se pronunciarem sobre a campanha", escreve Cesar Campiani. A seguir, depoimentos de alguns dos pracinhas e dos oficiais brasileiros, que compõem um impressionante painel sobre a vida no front de guerra na Itália, na luta de resistência contra a investida nazista de Hitler.

TRECHOS DO LIVRO
Barbudos, sujos e fatigados — soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial

"Passamos num lugar, tinha um buraco, mas tinha canhão, peças de artilharia alemã, o que tinha de fuzil, o que tinha de revolver, peças de artilharia alemã, o que tinha de revolver, pistola, tudo arrebentado! E tinha um negócio redondo deste tamanho, e um pequeno, quadrado. Ela passou a mão em uma e eu em outra. Passamos pela casa do itialia, ele ‘má’, e tava escrito em inglês naquelas tabuleas, ‘off limits’. Eu não sabia nada de inglês. O italiano viu aquilo na nossa mão: ‘Mina, mina!’. Eu falei: ‘Vá enchera o saco, não tou procurando mina!’. E fomos na barraca, rapaz. Você vê a imprudência, a falta de preparo do soldado. (…)

À noite, ia ter instruções sobre armadilhas alemãs. Os americanos falavam português, começavam a mostrar que o soldado nunca devia entrar numa casa pela porta a abrir o trinco, detona um negócio e cai a casa. Nunca bater numa tecla de piano, não abrir torneira dentro de casa. Uma série de armadilhas que eles conheciam e que os alemães faziam. Canetas booby trap , não abrir caixinha de joias. Aí cehgou na hora de mostrar minas antitanque. P…, o cara pega aquela mina! Nós podíamos ter nos matado, ter arrebentado com metade do acampamento"
Ferdinando Palermo, ex-combatente da FEB na Itália

Há duas missões na FEB
Que eu reputo sem igual
É o trabalho do Correio
E o Serviço Especial
Dessas missões, uma cousa
Somente me impressiona:
Não saber qual é dos dois
Aquele que menos funciona.

Poema do Tenente Manuel Barbosa

"Quando eu voltei da guerra, tinha medo de dormir. Não queria dormir, porque toda noite iria estar novamente na guerra. Iria sonhar com a guerra! Toda noite, toda noite, toda noite, toda noite! Graças a Deus, passou isso tudo. Hoje, assisto filmes de guerra, não tenho problema nenhum. Mas eu sofri muito, fiz tratamento de neurose, sofri demais. Mas ainda me dou por muito feliz, porque muitos companheiros meus tiveram consequências muito piores do que as minhas".
Depoimento de soldado ex-combatente da FEB na itália

"Aliás, a guerra não é heróica. Não é como em livros, ou filmes. Não há bandeiras, nem tambores, nem cornetas com toques marciais, nem tampouco heróis condecorados, que voltam para casa e beijam a noiva. Ningúem sente vontade de ser herói, e quando pratica qualquer ato de bravura, o faz quase inconscientemente. O que há na guerra é sujeira, lama, frio, fome, cansaço de noites a fio sem dormir, medo da morte, sofrimento e monotonia, esta terrível monotonia de todas as guerras. A monotonia de cavar um ‘foxhole’ (buracos de abrigo) e ficar escutando aqueles ruídos surdos, ouvindo aqueles estrondos que não param nunca".

J. X. Silveira, em Cruzes brancas: o Diário de um Pracinha

DEPOIMENTOS DOS PRACINHAS NA ITÁLIA

"De repente, percebi como pode um soldado sentir-se solitário na sua trincheira, solidão no meio de muitas outras. Todos também deviam sentir aquele vazio, aquele terrível vazio de estar vivendo um pesadelo. Tudo fica irreal e inconcebível. São pensamentos bem amargos; alguns, se melhor examinados, talvez não tivessem razão de ser, mas parecia-me tudo desculpável. Eu estava vendo, como milhares de pracinhas, o mundo através de uma trincheira. E uma trincheira tem mais de amargo do que de heroico. (...) A guerra nada tem de heroico. É triste, e a trincheira é um dos piores lugares da terra."
Joaquim Xavier da Silveira, ex-combatente

"Patrulhas e mais patrulhas deveriam manter a atividade da frente e a cada patrulha o homem morria e ressuscitava a cada retorno. Atravessar um terreno supostamente minado é o mesmo que atravessá-lo minado: um calafrio percorre a espinha, e um suor, mais frio do que os outros, escorre pela testa; a garganta se resseca e vem um gosto amargo na boca. A tudo isso chamávamos de 'paúra'."
Vicente Pedroso da Cruz, ex-combatente da FEB na Itália

"Quando em ação na linha da frente, lembro-me de ter tomado no máximo oito ou nove banhos de setembro de 1944 até março de 1945, banhos em rio, no capacete ou em bacia de rosto dos italianos (...). Aliás, a falta de limpeza torna-se hábito, e a sujeira, depois de um certo tempo, parece não sujar mais."
Tenente Campelo de Souza, ex-combatente

"A pior coisa da guerra é 'eu não te conheço, você não me fez mal, e eu tenho que te matar, senão você me mata'. Pra falar a verdade, eu sentia dó dos prisioneiros. Quando o cara era prisioneiro, para mim ele deixava de ser inimigo."
Attilio Camperoni, ex-combatente da FEB na Itália

"Quando você ficava muito tempo na trincheira, se tirasse a luva, os dedos gelavam e endureciam, então você precisava ficar esfregando as mãos para poder enfiar o dedo no gatilho."
Santos Torres, ex-combatente

(foto: Cesar Campiani Maximiniano/Reprodução)
(foto: Cesar Campiani Maximiniano/Reprodução)

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