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Correio Braziliense

Brasilienses se emocionam com documentário sobre Ayrton Senna


postado em 15/11/2010 08:00 / atualizado em 14/11/2010 22:51

(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press )
(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press )
Se tivesse sobrevivido ao trágico acidente na curva Tamburello, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 de San Marino, na Itália, o piloto Ayrton Senna teria completado 50 anos em março. Sua figura mítica, que inspira fãs no mundo inteiro, mesmo 16 anos após sua morte, serviu como fonte de inspiração para o documentário Senna, do cineasta britânico Asif Kapadia, que estreou por aqui na última sexta-feira. Se repetir o sucesso registrado no Japão, onde está em cartaz desde outubro, a película terá vida longa. Por lá, o filme é um dos mais cotados do mercado.

Em Brasília, a trajetória do piloto é exibida em seis salas de cinema. Na tarde de sexta-feira, a procura nas bilheterias ainda era tímida, mas não faltaram fãs de carteirinha para assistir à novidade em primeira mão. O público masculino era maioria. Contidos no início do filme, eles começaram a se soltar conforme as caronas, famosas cenas geradas a partir dos carros dos pilotos, se sucediam. Nos momentos mais geniais e disputados, não faltaram olhos vidrados, socos na poltrona e até um certo autocontrole para evitar o impulso de se levantar da cadeira e torcer com mais liberdade. Quando Senna superava Alain Prost, seu mais incômodo oponente, os suspiros de alívio e as risadas eram inevitáveis. Também pudera. Para quem está acostumado a seguir o campeonato, não é todo dia que se pode rever os momentos mais empolgantes do automobilismo, sem falar nos ídolos antigos, projetados na tela grande.

Engana-se quem pensa que a reverência ao ronco dos motores é privilégio dos homens. Vestindo uma camiseta preta com o nome do ídolo, a bancária Regiane Leal, 32 anos, levou uma caixa de lenços para a sessão, prevendo que iria se debulhar em lágrimas. “Comecei assistindo com meu pai, na televisão. Depois, vi corridas em Interlagos (autódromo de São Paulo) em 1992, 1993 e 1994. Fui ao velório do Senna e quase pulei da ponte do Tatuapé quando o caixão passou”, dramatiza.

Depois da sessão, Regiane admitiu ter chorado nas cenas das vitórias mais emocionantes e nas cenas do acidente. “Deu vontade de ver de novo. Durante uma hora e meia, parecia um documentário em que ele simplesmente contava sua trajetória. Parecia que ele ainda estava por aqui”, relata. Para o marido, o também bancário Gustavo Leal, 29 anos, o principal mérito da obra é evitar o tom de desastre e manter o foco no que o brasileiro mais gostava em Ayrton: o excelente piloto que era. “Essas cenas reavivam a memória e resgatam o patriotismo”, considera.

Coisas de casal

Gustavo e Regiane Leal: ela levou até a caixa de lenços(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press )
Gustavo e Regiane Leal: ela levou até a caixa de lenços (foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press )
A presença de casais mostrou que nem só os homens estavam interessados em matar a saudade das façanhas do piloto. Nos tempos em que o ruído do carro de Senna era a companhia matinal de domingo, a enfermeira Susana Rosa, 49 anos e o marido, o economiário Olavo Silva Júnior, 47 anos, acordavam juntos para acompanhar o atleta. “Tenho orgulho do fato de ele ter decidido levar a Bandeira do Brasil. Depois vieram outros, mas essa era a marca dele”, avalia Susana. Ao lado de todos os brasileiros que também passaram aquele fatídico domingo de maio grudados na televisão, ela guarda tristes lembranças da morte de Senna. “Estava grávida de cinco meses e chorei até não aguentar mais”, lembra.

Alguns aspectos da personalidade de Ayrton que Susana notou no filme são a humildade e o apego às raízes. A enfermeira também descobriu a faceta incorruptível do atleta. “Ele aprendeu a sobreviver em meio à política do esporte, mas movimentava-se de uma maneira que mostrava a sujeira, fazia as injustiças aparecerem. O marido, Olavo Silva, também aprovou a produção, que acredita ser um importante documento histórico. “Quando chegar às lojas, quero comprar para rever muitas vezes. Quem viveu aqueles domingos nunca vai esquecer”, afirma.

O filme
Ao longo de 107 minutos, o cineasta britânico Asif Kapadia revela passagens da vida profissional e pessoal de Senna, em imagens inéditas. Antes de chegar ao formato final, que mescla cenas de arquivo com depoimentos de pessoas ligadas à vida do ídolo, ele reuniu cerca de 5 mil horas de gravações. Algumas impressionam ao revelar um Ayrton mais emotivo, chorando diante do discurso carinhoso da mãe. Surge também um homem focado em combater o que chamava de “politicagem” no automobilismo, sempre pronto a defender seu ponto de vista, às vezes em atitudes de rebeldia. A relação com seu principal adversário, Alain Prost, é esmiuçada, em uma trajetória descendente que vai de brindes de champanhe a olhares mútuos de ódio. Os acidentes sofridos pelos colegas também causavam grande impacto no atleta, que, durante entrevistas, fazia autocríticas e revelava seus medos e suas angústias, em depoimentos marcados pela discrição.

 
SENNA
Documentário dirigido por Asif Kapadia (Reino Unido, 2010, 107min). Classificação indicativa livre). Em cartaz no Cinemark Iguatemi, Cinemark Pier, Cinemark Taguatinga Shopping, Embracine CasaPark, Kinoplex ParkShopping e Pátio Brasil Shopping. Confira horários no Roteiro, na página 4.

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