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Correio Braziliense

Goli Guerreiro lança dois livros sobre a difusão da cultura africana


postado em 19/11/2010 09:55 / atualizado em 19/11/2010 10:02

Escritora lança os livros nesta sexta no Balaio Café (foto: Arlete Soares/Divulgação)
Escritora lança os livros nesta sexta no Balaio Café (foto: Arlete Soares/Divulgação)
Goli, apelido que ganhou status de nome. Nascida Almerinda, em Salvador, a pesquisadora aventureira passou a assinar documentos com a alcunha recebida na infância quando estava prestes a entrar na universidade e cursar ciências sociais. Anos depois, numa exposição de arte africana no Museu de Arte de São Paulo (Masp), notou que Goli também designava uma máscara da Costa do Marfim. O significado: uma estilização da cabeça de um búfalo, que representa o filho de Nyamé, deus do céu. A ligação com o universo das culturas negras estava inscrita na sua personalidade.

Goli Guerreiro atravessou o Atlântico, conheceu a África ocidental e começou a perceber pontes invisíveis que ligam o continente escravizado pelos europeus à pluralidade urbana de grandes cidades, de Londres a Salvador. Nas vezes em que malas foram substituídas por um computador, a internet espelhou a recriação da África descaracterizada há séculos. Ela levou as observações ao pós-doutorado, iniciado com o blog www.terceiradiaspora.blogspot.com, em agosto de 2009. Nesta sexta, às 20h, no Balaio Café (201 Norte), a baiana lança os livros Terceira diáspora, culturas negras no mundo atlântico e Terceira diáspora, o porto da Bahia, que vertem para o papel os posts publicados no site.

A primeira diáspora foi o tráfico de escravos de países africanos para as colônicas europeias. A segunda, impulsionada pela migração e pela proximidade de idiomas, redesenhou as ruas de centros urbanos: jamaicanos e nigerianos partindo para Londres, cubanos fixando-se em Nova York e angolanos indo Lisboa e Brasil. "Era preciso migrar. Os países europeus deixaram os países em péssimas condições, à mercê de exportação de matéria-prima. E isso impactou as paisagens das cidades americanas, dos centros europeus. Essas pessoas iam com suas malas, filmes, turbantes, discos e tornaram as cidades cosmopolitas", explica. A terceira diáspora, ideia de Goli, nasce do frenetismo provocado pela comunicação moderna, em que imagens, sons e textos atravessam o Atlântico à velocidade de um clique. Mas as origens da onda digital de troca de informações, segundo a antropóloga, são da época do escravismo. "Esse deslocamento virtual já estava nos navios negreiros. As pessoas entravam nuas e chegavam ao Novo Mundo com acervo para criar religiões e estéticas, reinventar cidades", observa.

Os livros traduzem graficamente a ambiência virtual, reproduzindo no papel os traçados da pesquisa de Goli Guerreiro: os verbetes transmitem a experiência da internet por meio de espaços com comentários de leitores e marcadores, em páginas que simulam o dinamismo de uma leitura cibernética. Enquanto O porto da Bahia cataloga as formas e os comportamentos do estado mais africano do país, Mundo atlântico registra o hip-hop da costa leste norte-americana, o carnaval de Londres e outros tantos mosaicos sociais provocados pelas três diásporas negras.

O encantamento também mobiliza reflexão. "Tem gente que pensa que a África é um país. O Brasil tem o samba, os Estados Unidos têm o hip-hop, o jazz. Ia ser um tédio se não tivessem", analisa.

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