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Correio Braziliense

Público recebe com entusiasmo as produções locais na Mostra Brasília


postado em 30/11/2010 07:17 / atualizado em 01/12/2010 21:57

Ela pode não ter o glamour das sessões noturnas, por onde desfilam constelações de estrelas da tela grande no país. Mas nos encontros vespertinos, as poltronas do Cine Brasília estão sempre lotadas e a plateia se entusiasma com as produções locais. Na 43ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a Mostra Brasília 35mm exibiu 14 curtas e um longa-metragem, de sexta-feira a domingo. Nos melhores momentos das três tardes, cinéfilos reagiram com lágrimas e risadas à produção local.

Seis curtas-metragens foram projetados no primeiro dia. Os mais aplaudidos, Memória de elefante, de Denise Moraes, e De asfalto e terra vermelha, de Camila Freitas e Antoine d'Artemare, cativaram o público com narrativas genuinamente brasilienses e carregadas de simplicidade. A ficção de Denise Moraes, de inspiração autobiográfica, revela o encontro cômico e delicado da menina Alice com dona Inês, portadora do mal de Alzheimer. “O filme não é um trabalho solitário. É uma sucessão de encontros, um quebra-cabeças em que cada um contribuiu com uma pecinha”, comentou a diretora.

Camila Freitas também comemorou a realização e a recepção. “Quase que o objetivo único do filme era a exibição no Cine Brasília. Essa mostra está ganhando uma força incrível, não é só mais um festival do filme do tio, de um parente, essas coisas”, observou. Para Cassio Barbosa Sader, diretor do fragmentado e filosófico Penca de gente, estar na mostra é como “receber o título de cidadão brasiliense”.

No segundo dia, o principal chamariz foi O mar de Mário, longa dirigido por Reginaldo Gontijo e Luiz F. Suffiati, e que traz uma sequência de entrevistas com o cineasta Mário Peixoto, realizador de Limite (1931), um marco no cinema nacional. “Me surpreendi muito. Encontrei lá grandes amigos. Tivemos um debate muito bom. Uma alegria”, ressaltou Gontijo.

Procura-se, de Iberê Carvalho(foto: Anderson Brasil/Divulgação )
Procura-se, de Iberê Carvalho (foto: Anderson Brasil/Divulgação )
Antes de os depoimentos melancólicos de Peixoto invadirem a tela, três curtas com propostas variadas empolgaram o público. O primeiro foi I Juca Pirama, de Elvis Kleber e Ítalo Cajueiro. O clássico poema de Gonçalves Dias ganhou releitura em formato de animação, com referências a episódios recentes de violência, como o assassinato do índio Galdino. “Pensamos em atualizar o poema, mudando o inimigo do índio, que passa a ser o homem branco. A animação permite transitar entre diversos gêneros e usar a fantasia de forma natural”, reforçou Cajueiro.

Mar de crianças
O ponto alto da tarde de sábado foi quando o tablado do Cine Brasília abrigou um mar de crianças, todas envolvidas no curta Procura-se, de Iberê Carvalho. De olhos marejados, ele contou que essa foi sua empreitada cinematográfica mais difícil. “Filmar com criança e cachorro é difícil. O filme tem muitas locações diferentes, os atores envolvidos tinham outros compromissos, a cadelinha do filme veio do Rio de Janeiro para as filmagens e, a princípio, não se acostumou com a seca. Depois, choveu o tempo todo”, relatou.

Já o curta Profana via sacra se alterna entre conversas informais com o poeta Reynaldo Jardim e uma adaptação da obra que deu nome ao curta, um paralelo entre a vida de Jesus Cristo e a de Che Guevara. “Várias pessoas vieram falar comigo depois. Me senti realizado. Foi uma honra participar”, comentou o diretor do filme, Alisson Sbrana.

No domingo, as produções se dividiram entre o humor e as homenagens a nomes de peso da cultura nacional. A obscena senhora D., por exemplo, é uma adaptação da obra da poetisa Hilda Hilst. “Ela falava com o coração, com metafísica, com busca e com amargura”, descreveu a diretora do curta, Catarina Accioly. Já em Zé[s], foram homenageados dois xarás afinados no senso artístico: Zé Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina, e Zé Perdiz, dono da oficina-teatro de Brasília. “Um dia caiu a ficha da coincidência semântica: os dois são Zés, têm oficinas e teatros. Por que não apresentar os dois?”, explicou o diretor Piu Gomes.

O último curta de domingo foi o mais aplaudido e contou com uma vibrante claque organizada. Ratão, de Santiago Dellape, mistura situações surreais e referências de filme B em um tema que acabou se atualizando com as recentes dicussões sobre a máfia oriental que encabeça os produtos falsificados vendidos em feiras de Brasília. “Me interesso por estes gêneros, aventura e ação, que o cinema brasileiro não explora muito”, comentou Dellape. “Foi intenção agradar ao público.”

Cadê os longas?
Dos três longas-metragens programados para a Mostra Brasília, apenas O mar de Mário foi exibido. Filme pirata, de William Alves, estava previsto para a sexta-feira, mas não foi para a tela porque “a finalização, (o transfer) de vídeo para película, não ficou pronta até sexta”, segundo o diretor. Hollywood no cerrado, de Armando Bulcão e Tânia Montoro, encerraria a programação de domingo, mas também não ficou pronto em tempo hábil. Uma cópia do filme (em DVD) foi distribuída à imprensa. “Infelizmente, não ficou no formato do festival a tempo. Em breve estará em cartaz”, garantiu Bulcão.

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