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Correio Braziliense

Menescal conta histórias da onda musical que há 50 anos encanta o mundo


postado em 05/12/2010 08:00

Pouca gente sabe, mas um dos nomes mais importantes da primeira geração da bossa nova, o violonista e compositor Roberto Menescal, na adolescência, tocava acordeom e era apreciador de boleros. Nascido em Vitória (ES), em 1937, e criado em Copacabana, no Rio de Janeiro, ele teve como mestres os maestros Guerra Peixe e Moacir Santos. Com o contemporâneo Carlos Lyra, fundou uma academia de violão e deu aulas para, entre outros, Nara Leão. Da amizade com Ronaldo Bôscoli, nasceu em 1961 uma fértil parceria, que produziu clássicos da bossa, como O barquinho, Você, Vagamente, Nós e o mar e Ah, se eu pudesse.

Menescal ajudou a organizar os primeiros shows da bossa nova. Depois, participaria do histórico concerto no Carnegie Hall, em Nova York, ao lado de grandes talentos da música brasileira, como Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá, Sérgio Mendes e Carlos Lyra. Trabalhou com Elis Regina no começo da carreira da cantora e, na década de 1970, assumiu a direção artística da gravadora PolyGram. Atualmente, mantém-se em franca atividade, como músico e proprietário do selo Albatroz. Está lançando uma biografia, Um barquinho vai..., e preparando um DVD (United Kingdom of Ipanema) com o guitarrista do The Police, Andy Summers.

Ele esteve em Brasília na semana passada para receber homenagem do Clube da Bossa. Antes disso, conversou por e-mail com o Correio sobre a onda musical que há 50 anos encanta o mundo, o início da carreira, a experiência com gravadoras e a nova geração de cantoras que desponta na MPB.

BOSSA NOVA
Por sorte eu estava no lugar certo, no momento certo, quando surgiu a bossa nova. O Rio de Janeiro, naquele momento, dava todas as condições para que o movimento se instalasse.

RONALDO BÔSCOLI
O Ronaldo foi meu parceiro mais constante. Alguns anos mais velho que eu, mais experiente, jornalista antenado com o mundo, cuca moderna, ele era tudo que um garoto como eu precisava como parceiro. Fizemos cerca de 300 músicas, sendo a maioria delas gravadas. O (ator) Mateus Solano fez um Bôscoli tão perfeito na minissérie Maysa que, quando nos encontramos, eu lhe disse: “Nem o próprio Ronaldo faria esse papel tão bem”.

RIO DA BOSSA
O Rio de Janeiro da bossa nova foi realmente muito bom. Podíamos aproveitá-lo em toda a sua essência, sem medos, sem estresse, sem poluição e com muita alegria. Mas a gente vai se adaptando às mudanças e eu tenho meu mundinho organizado, de maneira que ficam apenas as lembranças boas. Hoje, curto minha vida do mesmo jeito que curtia naquela época.

VIRADA
Creio que participamos de uma virada do Brasil. Deixamos de lado o baixo-astral das letras do samba-canção para trás e fizemos tudo com alto-astral. Em vez de Ninguém me ama, Eu sei que vou te amar. O Brasil foi campeão mundial de futebol pela primeira vez, o filme O pagador de promessas foi vencedor no Festival de Cannes. E largamos os ternos e passamos a usar bermudas.

O BARQUINHO
Estávamos em Cabo Frio para o primeiro passeio que juntava algumas pessoas da bossa nova. Elas sempre me pediam para levá-las para assistir a uma pescaria submarina. Mais ou menos às 16h, já voltando com peixes e lagostas, o barco enguiçou por fora da ilha mais distante de Cabo Frio, que já é uma ponta projetada em direção ao mar alto. Ficamos tentando fazer o barco pegar, já apelando para uma manivela do motor, pois a bateria havia se esgotado. Ao perceber que a turma (Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, o pessoal do Tamba Trio e minha futura mulher Yara) estava com medo, comecei a imitar o barulho do motor que não pegava (ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta). Quando estávamos desistindo, apareceu uma embarcação grande, que vinha da Bahia e nos deu um reboque. Então comecei a brincar com a frase “o barquinho vai, a tardinha cai”, pois já era por volta das 18h. No dia seguinte, na casa da Nara, o Bôscoli pediu que eu lembrasse o que eu cantarolava imitando o motor. E aí, criando em cima daquilo, emendando com o refrão, nasceu aquele que se tornou nosso maior sucesso.

ELIS REGINA
A vida vai nos levando e eu fui também. Com a chegada da ditadura, nossas canções apaixonadas, simples e felizes, não faziam muito sentido e foram sendo deixadas de lado, sendo substituídas pelo que se chamou música de protesto, que tinha uma linguagem muito mais apropriada para a época. Então fui me dedicar ao estudo da música mais profundamente, com o maestro Guerra Peixe. Formei um grupo para trabalhar com Elis Regina, com quem fiquei durante três anos.

POLYGRAM
Em 1970, convidado pelo André Midani, presidente da gravadora Polygram, fui ser diretor artístico. Fiquei na Polygram por 16 anos e, sem sentir, parei de fazer música quase que totalmente. Uma das raras exceções foi Bye bye Brasil (composta em parceria com Chico Buarque). Era o boom do mercado da música e me entreguei totalmente, até que a coisa foi ficando mercadológica demais, com o jabá imperando e a pirataria começando. Resolvi largar tudo, após gravar um LP com Nara Leão, que foi aos poucos me puxando para a música novamente. Sinto que tudo aconteceu nos momentos certos.

NO JAPÃO
Fui ao Japão pela primeira vez em 1985, a convite de produtores de lá, para uma turnê de lançamento do LP que fiz com Nara, Um cantinho, um violão. Dali em diante, devo ter ido ao Japão cerca de 25 vezes. É o melhor público que conheço para a nossa música. Os japoneses são atentos, apaixonados, educados e muito gentis. A bossa nova é venerada naquele país, de uma maneira tão intensa… Eles estão tocando e cantando tão bem que o grande perigo, agora, é não precisarem mais de nós.


NOVA ONDA
Não vejo condições para o surgimento de uma nova onda musical como a bossa nova, a tropicália, a jovem guarda e a MPB dos anos 1970 e 1980. Não por falta de talentos, mas por estarmos entrando num novo século, em que as coisas tomarão rumos diferentes do que foram no século passado. Acho, então, que levarão mais alguns anos para que se forme uma nova onda. Os jovens estão repassando tudo o que aconteceu de bom no século passado, como choro, samba, forró, bossa nova, até que apareça uma novidade.

BOSSACUCANOVA
O Bossacucanova faz com a bossa o que fizemos há mais de 50 anos. Misturávamos o samba com o jazz até achar nossa onda. Eles estão misturando a bossa nova com outros ritmos, tornando-a mais dançante, levando-a a lugares frequentados por públicos maiores e mais participativos. É uma experiência que tem por base algo que foi importante no passado e que consegue subsistir até hoje.

CANTORAS
Como estou totalmente focado no meu trabalho, principalmente no que produzo para o exterior, confesso que estou meio por fora do que vem acontecendo na música brasileira atualmente. Mas me agrada ouvir Maria Gadú, que acho ser uma pessoa bem preparada para enfrentar essa batalha que vem por aí, e outras que ainda não despontaram, como Monique Kessous, Marcela Mangabeira e o grupo vocal Bebossa.

ALBATROZ
Para poder dar continuidade ao que aprendi nos meus 16 anos, como diretor artístico da Polygram, criei a Albatroz e venho produzindo, principalmente, para o mercado internacional. Já produzimos e lançamos cerca de 250 CDs.

CLUBE DA BOSSA
Tomei conhecimento do Clube da Bossa há alguns meses, quando fui fazer uma semana de shows num navio, o “Cruzeiro bossa nova”. A turma do clube compareceu em grande número e nos aproximamos. Aí eles me convidaram para vir a Brasília e me homenagearam. É muito bom saber que em Brasília, onde já havia o Clube do Choro, existe o Clube da Bossa. Os estrangeiros sempre nos cobram: “Onde podemos ouvir bossa nova no Brasil?”

BIOGRAFIA
O livro (Um barquinho vai…) traz histórias curiosas do que vivi, do que vi, do que estou vivendo, todas escolhidas pela autora, Bruna Fonte, após quase dois anos de entrevistas comigo. Confesso que gostei muito do resultado, ela é uma craque! Todos os que foram importantes na minha vida estão presentes nas histórias. E por Bruna ser uma pessoa muito jovem, ela não se ateve somente ao passado. Eu tinha medo disso.

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