Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

DJ Raffa veste a obra do pai, Claudio Santoro, com batidas eletrônicas

O resultado é um casamento refinado

Ao fundo, um violino traça uma melodia. Há sequências bastante melancólicas antes que o arco despenque para a região dos agudos e o piano cresça com os graves do baixo. É preciso concentrar a escuta para perceber todas as nuances. Por cima de tudo, como uma embalagem transparente, está a batida eletrônica. Ela cessa apenas nos 30 segundo finais, quando o violino pode ser apreciado por completo e com pureza. A peça original, Elegia, foi escrita por Claudio Santoro em 1981 e a superposição eletrônica, ideia do filho, DJ Raffa, se estende pelas nove faixas de Santoro popular.

Raffa vasculhou os arquivos guardados pela mãe, Gisele Santoro, no apartamento da 107 Norte, para encontrar nove peças com as quais pudesse travar um diálogo entre o erudito, o popular e o eletrônico. Esbarrou na dificuldade que permeia a obra do maestro, compositor e fundador da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional: há poucas gravações das peças de Santoro e boa parte delas está em fitas magnéticas guardadas de forma precária. ;Fui na intuição;, avisa Raffa. ;As que escolhi estão gravadas.; Nem todas, no entanto, foram registradas em CD.

Comentários
Raffa utilizou apenas trechos das peças. Em Ciclo Brecht, composta nos anos 1970 na Alemanha, Santoro experimentou os recursos eletroacústicos e mesclou poemas de Bertold Brecht às composições. Raffa extraiu apenas uma frase para sobrepor à batida eletrônica. ;É uma peça pioneira na eletroacústica.

Primeiro ele gravou a voz, uma só voz, reproduziu e sobrepôs, passava um a fita em três gravadores de rolo para obter os ecos.; Elegia, composta para um balé coreografado por Gisele Santoro e gravado por Waleska Hadelich e Ney Salgado, e Prelúdio n; 1 são as peças mais populares do disco e Impressões sobre a 7; Sinfonia traz a voz do próprio Santoro em comentários sobre música. ;Ele fazia isso, pegava uma fita cassete e gravava. Temos umas oito fitas e elas trazem coisas muito esclarecedoras da época;, garante Raffa. Lá pelas tantas, Santoro fala sobre a Sinfonia n; 7: ;É uma sinfonia para grande orquestra e tem muita nota pra escrever.;


Ouça a faixa Paulista n; 01, do CD Santoro popular



Raffa, 42 anos, quis moldar uma leitura diferente para a obra do pai e estabelecer um diálogo de gerações. ;A intenção não foi tornar mais palatável. Seria palatável se eu pegasse os prelúdios, que são bem populares, e colocasse em ritmo de bossa nova. A ideia foi fazer o contraste. Me apropriei mesmo;, conta. ;Eu quis dizer ;ouça Santoro desse jeito e, se você gostar, ouça o original;. A música eletrônica é consequência da música eletroacústica.;

Além da conversa musical, Raffa, cuja trajetória está ancorada no movimento hip-hop, também enxerga uma convergência de ideologias na maneira como ele e o pai encaravam a música. ;Meu pai era uma pessoa ideológica e não se vendia. O hip-hop prega uma atitude revolucionária e sempre tive essa coisa de não me vender.; A primeira edição de Santoro popular ainda não está a venda e será distribuída por instituições do Distrito Federal, mas o DJ prepara uma versão para ser comercializada no início de 2011 com o acréscimo de três faixas.