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Estado de Minas

Chacal lança hoje, em Brasília, o livro de memórias Uma história à margem


postado em 10/02/2011 07:20 / atualizado em 10/02/2011 17:20

A narrativa de Chacal é fragmentária, tecida em uma prosa perpassada por relances poéticos e senso de humor(foto: Edílson Rodrigues/CB/D.A Press)
A narrativa de Chacal é fragmentária, tecida em uma prosa perpassada por relances poéticos e senso de humor (foto: Edílson Rodrigues/CB/D.A Press)
Chacal começou a escrever poesia por linhas tortas, fora dos cânones literários e das academias, com a cara e a coragem, mixando os cortes cinematográficos de Oswald de Andrade e a fala veloz das ruas, a surpresa do humor e a eletricidade do rock, desferindo disparates e driblando agilmente: “É proibido pisar na grama. O jeito é deitar e rolar”. Numa atitude anárquica de beatnik antropófago, Chacal viveu intensamente a turbulência cultural da década de 1960 e, logo em seguida, também fez história, participando do grupo Nuvem Cigana, da trupe teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e do movimento CEP 20 mil, entre outras manifestações. Agora, ele conta as suas aventuras culturais no livro de memórias Uma história à margem, a ser lançado, hoje, a partir das 19h, no Bistrô Bom Demais, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

A narrativa de Chacal é fragmentária, tecida em uma prosa perpassada por relances poéticos e senso de humor. Por exemplo, ao comentar a sua debandada da função de roteirista de clipes televisivos, ele diz: “Em 1989, ganhei alta da Globo”. Classifica o seu livro Quampérius como literatura infantil: “Pode ser adotado nas melhores creches”. As memórias de Chacal passam pelo Rio de Janeiro, por São Paulo e Brasília, onde o poeta morou durante a década de 1980, escrevendo crônicas no Correio e participando ativamente dos concertos Cabeças e da Poesia Pau Brasília. Naquele início da década de 1980, o movimento cultural brasiliense permitia pensar a arte ligada à vida e à política, o que já não era possível no Rio, com o poderio do mercado de tevês, gravadoras e editoras comandando tudo: “Mas depois eu me desencantei com Brasília e resolvi voltar para o Rio”.

 

Assista a vídeo de Chacal recitando poemas

 

Ricardo de Carvalho Duarte virou Chacal aos 14 anos, ao falar uma gíria de rua da época, depois de se atrasar em um treino do time de vôlei. Quando chegou, todo mundo estava quieto: “Que onda mais chacal”, disse o futuro poeta. Tradução: onda careca, devagar, por fora. Pegou, Ricardo virou Chacal. Ele é filho de um militar gaúcho, Marcial Galdino, que jogou no Fluminense, e foi campeão carioca, em 1936, ao lado de um famoso time que, segundo a lenda, passava meses sem errar um passe. Deve ter herdado do pai alguma habilidade com a bola, pois em 1964 e 1965, sagrou-se bicampeão carioca de futebol de salão infantojuvenil.

Contestação
Chacal viveu uma adolescência marcada por revoluções por minuto, com Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, o tropicalismo, a nouvelle vague de Godard, o movimento hippie e o ativismo dos panteras negras. E ele deu vazão a tudo que vivia nos poemas do livrinho mimeografado Muito prazer, escrito sob a inspiração de Oswald de Andrade e saudado com entusiasmados elogios por Wally Salomão, Torquato Neto e Hélio Oiticica: “Reconhecia autoridade neles para me elogiar, pois eu era da contracultura, era contra tudo, contestava o cânone e a academia”.

Ler Oswald de Andrade em uma antologia, repassada pelo amigo Charles Peixoto, foi uma iluminação e uma libertação. Chacal ficava rindo sozinho pelos cantos: “Eu achava a poesia algo muito triste”, comenta Chacal. “Oswald mostrou que era possível fazer uma poesia alegre, com humor e leveza. Ele havia sido redescoberto pelos poetas concretistas de São Paulo, mas achava o concretismo muito cerebral, asséptico e assexuado. Admirava muito a atitude de contestação e a maneira de os poetas beatniks recitarem poesia. Mas não tinha a ver com os poemas longos e as imagens surrealistas. Me interessava mais o flash, a síntese e o humor de Oswald. Ele diz: amor=humor.”

Ao ser questionado sobre a sua postura no mundo agora, o poeta costuma brincar que não é mais marginal; tornou-se “magistral”. Conseguiu, aos trancos e barrancos, sobreviver só com atividades relacionadas com a poesia. Ele considera que a universidade e as periferias são os últimos dois pontos de resistência “ao torpe emburrecimento e à idiotia da industrial cultural” e esperança “do que haverá para ver e pensar. E ouvir e tocar e dançar”, escreve Chacal em Uma história à margem.


Uma palavra
uma palavra escrita é uma palavra não dita é uma palavra maldita é uma palavra gravada como gravata que é uma palavragaiata como goiaba que é uma palavra gostosa

Trechos do livro Uma história à margem, de Chacal

Quampérius é um livro infantil. Poderia ser adotado nas melhores creches.

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Essa história de vender livros na rua, nos bares, na noite, ficou muito ligada à poesia marginal. Muitos faziam isso. Eu não. Está bem que o livro é uma mercadoria como qualquer outra, pedindo pra ser consumida. (…) Mas interro9mper namoro, conversa de botequim, por mais simpático e sedutor que se possa ser, para mim era muita exposição. No mais, não levava o mínimo jeito para aquilo, até porque era muito tímido e disléxico.

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Definitivamente, como vendedores, éramos bons bebedores. Mas tentamos.

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Toda antologia é um recorte pessoal, e a poesia marginal, apesar da ausência de um estatuto, de um manifesto, tinha algumas características dentro da sua imensa abrangência. Heloisa dizia ser uma poesia discursiva em tom coloquial, com um modo de produção e distribuição artesanal e independente. Helô chegou perto, embora essa definição, em parte, também pudesse remeter ao Modernismo. Com toda sua experiência acadêmica, esqueceu o que para mim foi a marca maior da poesia dos anos 70: a presença acintosa do corpo.

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O grande mito da nossa geração sempre foi o cantor de banda de rock. Os grandes rituais pops.

As multidões. Cenografias. Figurinos. O som, a dança e o verbo. Fomos criados com isso. Ao vivo e através de filmes e discos. Acho que o palco foi a minha folha em branco, onde tudo era escrito entre gritos e sussuros. Pelo menos aquele era nosso desejo secreto: escrever com o corpo e a voz em ligação direta com a plateia.

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Nas artimanhas da Nuvem, vários poetas participavam, muitos vindos de Brasília, e já com trabalhos publicados, como Eudoro Augusto, Afonso Henriques Neto e Xico Xaves, que vinha de atuação política na capital e estava em busca de outros ares. Xico tinha publicado um livro-objeto chamado Pipa. Xico era um dadá doido que trabalhava o acaso. A seleção dos seus poemas para colocar numa publicação era paranormal. Jogava as folhos com os poemas para o alto e, as que caíam viradas para cima, publicava. Ou vice-versa.

Crônica sobre Brasília (trecho)

Acontece

Segundo chegou às orelhas bem enceradas deste cronista, o Mel da Terra, um dos melhores, senão o melhor grupo de música popular de Brasília, formado por músicos juvenis, entre quinze e vinte anos, não se apresentará no III Festival de Jazz de Brasília, porque a direção do tal festival resolveu não pagar nenhum grupo novo para se apresentar. Ora, comissão organizadora do festival, isto é, Detur, Fundação cultural e Casa Thomas Jefferson, será que a garotada come menos que esses grupos de for a que vêm para o festival? Será que fumam menos? Será que como pequenas bandas, em início de carreira, não merecem um estímulo financeiro, um apoio material ao seu trabalho?

Chega de explorar a meninada sob a velha alegação de que participar de tais eventos dá cancha e melhora o currículo. Não cai nesse papo, mocidade. Exija o que lhe é de direito ou então tire o time de campo , como fez o Mel da Terra. É preciso não viver sempre no mundo da música e vez por outra levantar a cabeça para lutar por nossos direitos. Senão vagabundo vai sempre comer na nossa miséria. Mas para que a rapaziada não se frsute mais uma vez de nãop poder ver o Mel, o incansável Néio Lúcio, o herói da mocidade independente, está articulando um Concerto Cabeças, domingo no Parque, paralelo ao Festival, onde numeroso fã clube do Mel da Terra, poderá deixar e rolar.

(…) Enfim, para delírio dos amigos do esotérico, o próximo parágrafo se inicia. Mas, para subsequente frustração, meu espaço se acaba. Aguardem para uma próxima oportunidade, inconfidências do Vale do Amanhecer.


(foto: Ricardo de Carvalho Duarte/Reprodução )
(foto: Ricardo de Carvalho Duarte/Reprodução )
UMA HISTÓRIA À MARGEM
De Chacal. Editora Sete Letras. Número de páginas: 243. Preço: R$ 39 Lançamento, hoje, a partir das 19h, no Bistrô Bom Demais (CCBB).

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