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Estado de Minas

Confira a entrevista que o escritor Moacyr Scliar concedeu ao Correio

Na entrevista, o cronista gaúcho confessa sua admiração pela capital do país e garante: o brasileiro lê mais


postado em 27/02/2011 10:06 / atualizado em 28/02/2011 16:54

Existem poucos escritores iluminados hoje em dia no Brasil, que chegam em um ambiente e o transformam graças às palavras polidas e joviais. Contam-se nos dedos. É assim Moacyr Scliar, ganhador do Prêmio Jabuti de 2009, na categoria Livro de Ficção, com Manual da paixão solitária. numa breve conversa com a reportagem do correio, antes de embarcar para porto alegre, scliar, que é integrante da academia brasileira de letras, falou sobre a relação com Brasília, defendeu a ABL e segredou sobre seu próximo romance, que levará o sugestivo nome de Eu vos abraço, milhões, previsto ainda para es te semestre: %u201CÉ a história %u2014 divertida e gostosa %u2014 de um jovem gaúcho, que na época de 1930 viaja ao Rio de Janeiro para se tornar comunista%u201D.

Brasília, uma ousadia

Brasília 50 anos

Acho que Brasília, para todos os brasileiros, é o marco, uma referência realmente extremamente simbólica porque representa aquele lado dinâmico, criativo e inusitado, arrojado que o Brasil tem. Quando chegamos aqui temos a impressão de que realmente estamos vivendo outra realidade, a sensação de sair da rotina das cidades brasileiras e entrar em outra realidade que representa toda essa ousadia, toda essa criatividade e agora também com um clima cultural completamente novo. Acho que, como escritor, vejo Brasília como cenário ideal para ficção brasileira, porque aqui é a síntese de tudo que se faz no Brasil, todas as tendências da nossa cultura têm presença aqui em Brasília.

Visita ao T-Bone
Já conhecia, estive lá há muitos anos. Primeiro fiquei surpreso com o crescimento do projeto (que levra livros aos pontos de ônibos e também convida escritores consagrados para encontros com a comunidade brasiliense). Quando estive lá era um projeto relativamente modesto.

Mas acho que é um desses que mereceria ter repercussão mundial, porque é uma ideia tão criativa e inovadora que realmente surpreende. A ideia de tirar o livro do seu cenário habitual que é a livraria, a biblioteca, e colocá-lo ao alcance das pessoas, no caso um açougue, mas também em pontos de ônibus. Isso tem uma grande vantagem que é a de desmistificar o livro. Num país que tem uma escassa cultura literária, em que o analfabetismo durante muito tempo foi dominante, as

pessoas se intimidam diante do livro, têm medo. Isso é fácil de observar vendo as pessoas simples entrando na livraria, elas ficam todas cheias de dedos, com medo de dizer bobagem. Ao passo que se você coloca o livro no lugar que elas frequentam diariamente por outras razões, elas se acostumam com o livro e, com isso, a gente incentiva a leitura. Incentivar a leitura no Brasil é prioridade absoluta em termos de educação.

Menos leitores?
Não, as pessoas estão lendo mais. Porque a gente não pode esquecer o seguinte: na época de Machado de Assis, foi feito um censo e 80% da população do Rio de Janeiro, a cidade mais culta do Brasil na época, não sabiam ler. Quando eu era menino, 50% dos brasileiros não sabiam escrever, hoje em dia a imensa maioria da nossa população está alfabetizada. Muitos vão dizer isso não é suficiente para torná-los leitores. Mas é condição necessária. Sem isso, não leriam nada. As estatísticas mostram que os brasileiros estão lendo mais. Tem regiões, como o Sul, por exemplo, que leem muito. Mas a ideia de que o jovem não lê, por exemplo, é inteiramente equivocada. O jovem não lê se não é motivado. Se a leitura é transformada em uma obrigação curricular, questão de exame e só para passar de ano, aí ele não pode ter vontade de ler. Agora, se a leitura representa um convite ao prazer, à emoção, a uma vivência diferente, aí certamente ele leria.

Imortais caducos
Não acho que a Academia Brasileira de Letras (ABL) esteja caduca. Considero-a uma instituição tradicional. É verdade que tem alguns elementos arcaicos %u2014 o que não é de se estranhar. É uma instituição que tem mais de 110 anos. Pela maneira como ela surgiu, a ABL foi baseada no modelo francês, era basicamente uma reunião de pessoas notáveis. Na academia francesa participavam escritores, mas também políticos, pessoas que se destacavam por uma razão ou outra, isso acabou sendo incorporado pela ABL, que pagou um preço por isso. Mas a verdade é que a ABL está se renovando.

Artistas populares
Discordo que a ABL tenha dificuldade em indicar artistas populares. Tem acadêmicos de origem muito humilde. A começar pelo fundador, Machado de Assis, descendente de escravos, mulato, uma pessoa que não concluiu os estudos, ninguém sabe como aprende a ler e escrever. Acho que o Machado de Assis estabeleceu um paradigma, isso (ingressar na ABL) não é só para gente fina.

Academia aberta
Ela (a ABL) realmente está. E a academia também tem se dado conta nos últimos anos da necessidade de se abrir para população. Isso é uma coisa que não só a ABL percebe. A universidade percebe isso. As instituições culturais percebem isso, não dá para excluir mais a população. Mesmo porque a população mudou. A população hoje é gente muito mais articulada, mais informada, todos os lares brasileiros têm televisão, todo mundo tem telefone e tem uma percentagem cada vez maior ligada à internet. Aquela ideia de uma minoria culta e uma maioria ignorante está acabando. E a academia está se dando conta disso. Hoje, se você vai à academia e vê centenas de escolares andando por lá, há exposições, palestras, espetáculos e uma biblioteca fantástica. A academia está realmente se abrindo para a população.

Romances %u201Cbíblicos%u201D
Tenho três romances inspirados na Bíblia: A mulher que escreveu a Bíblia, Os vendilhões do templo %u2014 baseado naquele episódio em que Jesus expulsa os vendilhões do templo de Jerusalém %u2014, e o terceiro, que é o Manual da paixão solitária, que ganhou o (Prêmio) Jabuti (em 2009). Não sou um leitor religioso da Bíblia, a Bíblia me chama a atenção exatamente pelo seu lado humano. Pelo inusitado das emoções, das tramas que aparecem ali.

A cultura judaica
É uma cultura que, em primeiro lugar, desempenhou um papel pioneiro na história da humanidade, é uma cultura que valoriza a palavra escrita. Outras culturas deixaram monumentos, templos, obras de arte. Os hebreus não deixaram nada disso, mas deixaram um livro que condicionou a história da cultura ocidental. E é um livro que foi redigido por autores que a gente não sabe quem foram, mas que tinham qualidades que um escritor de hoje inveja. Era gente que sabia escrever de forma extremamente sintética, objetiva, e que, ao mesmo tempo, contava histórias surpreendentes. Histórias que falam dos sentimentos mais profundos e mais autênticos dos seres humanos.

Motivo para escrever
Bem, escrevo porque eu gosto. É uma coisa que acompanha desde a infância. Sempre gostei de ler. Era filho de uma professora e, por ser leitor, comecei a escrever. Mas também tinha nisso o prazer de contar histórias. Meu pai, um imigrante, era um grande contador de histórias e me transmitiu esse prazer. Essa coisa de contar histórias, de pensar sobre a condição humana e mexer com as palavras, jogar com as palavras, resulta para os escritores num prazer imbatível. Escrevo pelo prazer. Não tenho nenhuma obrigação de escrever, não preciso, porque minha profissão é de médico, mas escrevo porque tenho prazer e publico porque acredito firmemente que se o escritor escrever com prazer e emoção o leitor certamente lerá com prazer e emoção.

livro de poesia
Desse crime sou inocente. Nunca cometi um verso (risos). Mas claro, acho que o Brasil tem poetas admiráveis. E leio poesia. Drummond, João Cabral, Manuel Bandeira e meu conterrâneo Mario Quintana, de quem fui amigo. O Mario é uma figura folclórica em Porto Alegre. Ele não era porto-alegrense, era do Alegrete, e trabalhava no (jornal) Correio do Povo, que ficava no centro da cidade, e era sempre visto caminhando pelas praças e ruas do centro. Muitas vezes reconhecido pelos fãs.

Mário Quintana
Não cheguei a conviver muito com ele, por causa da diferença de idade. Tinha muitas histórias com o Mario. A que acho mais significativa e que ilustra bem como ele era é a história de que quiseram fazer um monumento em bronze para ele. E ele veio com esta: %u201CO engano em bronze é um engano eterno%u201D. Ao mesmo tempo que era um grande poeta, era um homem muito simples. De vez em quando, o encontrava no bar, no cinema. A cidade tinha muito carinho por ele. E ele faz muita falta.

Confira o conto Sobe, publicado em suplemento do Correio de 21 de abril de 2002

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