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Estado de Minas

Livro analisa as composições de Paulinho da Viola


postado em 04/04/2011 07:35

“As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”. Os versos são de Coisas do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola. Existe algo de angustiante, alegre e meditativo no samba: é uma crônica breve e uma reflexão coerente sobre a vida e a morte, o amor e a dor, e outros contrastes humanos. A cantora Eliete Eça Negreiros carrega essas impressões desde os 14 anos, quando ouviu, ao lado do pai e em silêncio, a voz de Paulinho pela primeira vez. “Ele fala dos movimentos da alma, das nossas inquietações e também do cotidiano. Quando a canção ensina, ela é sabedoria na forma de canção. Há aí uma revelação, um modo de ser, de estar no mundo, um olhar que ensina”, encanta-se. A descoberta de adolescente amadureceu para um incômodo de estudante e se estendeu em mais de duas centenas de páginas no livro Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos (Ateliê Editorial), adaptação de sua tese de mestrado na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). Nele, o samba popular é aproximado da poesia e da filosofia. E é tratado como nobre.

Eliete:
Eliete: "Através da canção se reflete sobre a vida. E o samba dele tem este lado muito acentuado" (foto: Mallu Magalhães/Divulgação)
Eliete é artista-filósofa. Entre seus principais trabalhos na música, dois reconhecidos pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), a estreia Outros sons (1982), produzida por Arrigo Barnabé, e Canção brasileira — Nossa bela alma (1992). Na ciência, ela é doutoranda em filosofia com foco nas canções de Paulinho. Disseca as composições do ídolo sob aspectos teóricos — com citação a autores de referência, como Jean-Paul Sartre e T. S. Eliot —, líricos e analíticos. Mas a razão acadêmica não inibe a emoção. “Começa sempre pelo coração, e aí vem a razão tentando entender, dar alguma unidade às emoções, aos sentimentos e pensamentos que a canção desperta. Mas o primeiro contato é de comunhão, intuitivo. A razão vem depois, tenta ‘arrumar a casa’”, diz. “Tarefa inglória!”, brinca.

Reflexão

Para a pesquisadora, canção e poesia também se irmanam. E, se a criação é de Paulinho da Viola, elas parecem se confundir, esboçando conexões naturais. “Através da canção se reflete sobre a vida. E o samba dele tem este lado muito acentuado. Só que não é um discurso: é uma poesia que nos leva a filosofar. Quem somos? O que é a vida? O amor?”, descreve.

A longa experiência como cantora é parceira da pesquisa. A intimidade musical adquirida em ensaios e audições cuidadosas é a mesma que se coloca a serviço do estudo, da interpretação dos sambas. “Quando você ouve muito uma música que lhe seduziu, ela vai revelando faces e isto aumenta ainda mais o seu encanto”, observa.

Na primeira seção do livro, Eliete prioriza o repertório de Paulinho. O ponto de partida foi Para ver as meninas, a que ela dedica um texto integral, inspirado pelo músico e linguista Luiz Tatit. Depois, ela parte para outras canções, como Pressentimento e Num samba curto: escolhas motivadas pelo gosto pessoal. A primeira metade é finalizada com uma entrevista com o sambista. Na última parte, a escritora traça comparações entre canção e poesia — segundo ela, artes que se conectam, com apenas uma exceção. “A grande diferença é que na poesia a musicalidade emana dos versos, da sonoridade da palavra. Na canção, há o diálogo entre melodia e letra”, explica. Mas o temperamento é o mesmo: humano, demasiado humano.


O samba
Silêncio, por favor
Enquanto esqueço um pouco a dor do peito,
Não diga nada sobre meus defeitos,
Eu não me lembro mais quem
me deixou assim (…)

Primeira estrofe de Para ver as meninas, de Paulinho da Viola


A interpretação
“O samba começa com um pedido de silêncio. O poeta quer se esquecer de seu passado, de sua vida triste e inaugurar um marco zero a partir do qual irá criar um novo modo de ser, um novo samba, um samba que vá além das limitações cotidianas, que vá além de um mundo limitado e aflitivo”.

“O compositor quer fazer uma pausa, apagando as lembranças do quadro-negro da memória, para ter liberdade de criar um outro traçado. Ele quer, a partir de um papel em branco, escrever e iniciar uma nova
estória, um novo samba,
fazer um novo desenho”.

Trechos do livro de Eliete
Eça Negreiros.


Três perguntas //   Paulinho da Viola

O que você achou do livro?
Olha, gostei muito. A gente se conhece já há algum tempo, uma amizade de muitos anos. Na última quinta-feira foi o lançamento em São Paulo, e a gente conversou muito sobre isso. Acho que a abordagem dela foi pertinente. A gente não tem total consciência de tudo aquilo quando está fazendo uma música. A gente acha que é uma coisa importante, mas que talvez não represente nada. Fiquei surpreendido com várias coisas: a relação que ela faz em alguns versos com a visão de determinados filósofos. Para mim, é uma surpresa e é uma coisa que vou ver com mais frequência para poder conhecer mais o livro. Uma visão de outra pessoa é sempre uma coisa que amplia a nossa visão sobre o trabalho. Uma canção, um bom texto poético, uma boa letra podem, às vezes, ter uma dimensão muito grande para outra pessoa.

A Eliete coloca a canção ao lado da filosofia e da poesia. Você acha que o samba seria uma espécie de filosofia de nós,
brasileiros?
Essa aproximação, acho que não é só da gente, não só de compositores, mas das pessoas. É a maneira delas. Todo mundo tem a sua visão de mundo. Todo mundo vai tendo experiências, tirando suas conclusões, em busca dessa coisa que é a vida, a relação com as pessoas, a coisa da troca, do outro. Muitas vezes os autores populares tratam de coisas que os grandes autores trataram ao longo da história. São pequenas crônicas. Elas são, no fundo, coisas simples. Às vezes, a frase de um grande filósofo fica no autor popular. Ele faz uma síntese próxima daquilo que o grande pensador chegou a pensar. E acredito que não seja assim apenas no Brasil. Mas em todo canto. A arte popular também consegue filosofar.

E como está a sua agenda?
No momento, não estou pensando em gravar. Vou participar de shows em unidades do Sesc em São Paulo, em abril. E há uma possibilidade de fazer em Brasília. Mas não tem nada firmado ainda. É um show que não tem a estrutura daquele que vinha fazendo, que era o acústico, com mais músicos. Esse atual é uma coisa menor, mais íntima.


ENSAIANDO A CANÇÃO: PAULINHO DA VIOLA E OUTROS ESCRITOS
De Eliete Eça Negreiros. Ateliê Editorial, 224 páginas. R$ 35.




 

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