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Estado de Minas

O banquete fino de Maria Alice Jodorowsky no palco do CCBB


postado em 14/04/2011 07:06 / atualizado em 14/04/2011 07:08

Antropofagia. O conceito que ajudou a colocar o teatro brasileiro
com os dois pés no terreiro da contemporaneidade é o norte estético de
As três velhas. Não só pela cena explícita em que a personagem/persona
de Maria Alice Vergueiro se oferece para ser devorada no palco. Mas,
sobretudo, pela maneira como a diretora e atriz deglute não só a
dramaturgia de Alejandro Jodorowsky como a si mesma. O mal de Parkinson
da atriz, por exemplo, é regurgitado pela personagem Garga de forma tão
intensa, que parece orquestrar todo o movimento descontrolado dos atores
em cena. Como uma maestrina de mãos aflitas, Maria Alice rege e reflete
esse frisson nos corpos de dois atores excepcionais: Pascoal da
Conceição e Luciano Chirolli.

Uma das maiores atrizes brechtianas
deste país, Maria Alice Vergueiro se distancia e se aproxima de Garga,
com tamanha maestria, que é possível acessar o âmago da obra de
Jodorowsky rapidamente. Ela por si só denuncia o peso do tempo sobre o
corpo, o desarranjo do corpo físico — eixo central da narrativa, sem
precisar avançar tanto nos diálogos cortantes do autor. Está ali a
denunciar que o grande patrimônio de Maria Alice/Garga é o que se
constrói no campo da experiência, "na alma", como bem diz Jodorowsky.

As
três velhas arranca, sem pudor, as máscaras sociais. Põe diante do
espectador as faces monstruosas de personagens movidas pelo poder, pela
gana, pela mentira. Sem meias palavras, Jodorowsky e Maria Alice, aqui
juntos num mesmo corpo, oferecem à plateia uma sociedade doente, quase
em convulsão. É preciso olhar atentamente o menu: zoofilia, incesto e
toda qualidade de hipocrisias. Isso tudo regado aos refrescos Lulu,
ícone maior do sistema capitalista que patrocina as carruagens nefastas
das marquesas.

Se, no primeiro momento, a montagem estranha e
choca alguns iniciados no teatro, mais adiante eleva o espectador para
dentro desse questionamento voraz sobre a dicotomia: decadência do corpo
físico x amadurecimento da experiência/alma. As marquesas decrépitas,
mesmo com suas centenas de intervenções cirúrgicas, mamam nos seios da
mãe Garga, como se estivessem sugando o que resta de energia da criada
moribunda. Ou sorvem o falo de um ser mítico, um Exu do candomblé, um Zé
Pilintra da umbanda, como se fosse fonte de renovação de uma vida em
frangalhos.

Apesar do natural tom de comédia grotesca, As três
velhas ergue, no palco do CCBB, a farsa da aventura humana, expõe as
misérias do homem como numa tenda de feira, com as vísceras penduradas
pelos gancho, pingando sangue e postas à venda. Maria Alice Vergueiro e
Alejandro Jodorowsky, juntos num corpo só, não poderiam fazer outra
coisa a não ser trilhar naturalmente o que construíram no campo da arte
inquieta. Salve a coerência artística, que não se abate diante de nenhum
mal e sobrevive à inevitável falência do corpo humano.

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