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Estado de Minas

Sete artistas de Brasília são indicados para o prêmio Pipa 2011


postado em 27/04/2011 08:00 / atualizado em 27/04/2011 00:23

Em alta: Luciana Paiva, Karina Dias, Milton Marques e Polyanna Morgana, selecionados para o Pipa 2011(foto: Fotos: Breno Fortes/CB./D.A Press)
Em alta: Luciana Paiva, Karina Dias, Milton Marques e Polyanna Morgana, selecionados para o Pipa 2011 (foto: Fotos: Breno Fortes/CB./D.A Press)

Se a procedência brasiliense não for condição e regra do jogo, é raro a arte produzida na capital ganhar destaque no eixo Rio-São Paulo. Proporcionalmente, a Região Sudeste abriga mais artistas que o Centro-Oeste e o fato é frequentemente apontado para justificar ausências em grandes mostras e premiações de arte contemporânea. Por isso, o grupo de artistas locais indicados para o Prêmio Pipa 2011 ficou surpreso quando recebeu a notícia da indicação. Há tempos, a cidade não ganhava destaque em um mapeamento nacional, até porque mapeamentos desse tipo com direito a prêmio, exposição e bolsa andam escassos.


Dos 85 indicados para a primeira fase do Pipa, sete são de Brasília. Milton Marques, Polyanna Morgana, Luciana Paiva, Karina Dias, Nelson Maravalhas, Elder Rocha e Leopoldo Wolff há muito frequentam o circuito brasiliense e já realizaram exposições em todos os espaços importantes da cidade. O grupo é uma boa amostra do que se produz de melhor na capital. Também reflete a diversidade de linguagens. Pintura, instalação, performance, arte e tecnologia, vídeo e desenho constituem os suportes desses artistas. “Procuramos abranger o país inteiro e, às vezes, temos boas surpresas em outros estados”, explica Lucrecia Vinhaes, uma das coordenadoras do Pipa. “Queremos mostrar que tem coisa muito boa acontecendo fora das grandes capitais.” Veja abaixo quem são e como trabalham os brasilienses indicados.

Elder Rocha: prêmio é reconhecimento e valorização da diversidade na arte brasileira
Elder Rocha: prêmio é reconhecimento e valorização da diversidade na arte brasileira


Como funciona?
Criado pela Investidor profissional, empresa de gestão de fundos de investimentos privados, o Prêmio Pipa começa com uma comissão indicadora formada por artistas e curadores de todo o Brasil. Eles são responsáveis por indicar artistas cujas obras acreditem merecer o prêmio. Na primeira fase desta segunda edição foram indicados 85 artistas. Os quatro mais citados serão revelados em junho e terão três meses para preparar a obra destinada à exposição, na qual um júri vai escolher a produção que levará os R$ 100 mil do prêmio. O público também vota para um prêmio de júri popular de R$ 20 mil. Além disso, uma votação on-line premiará um artista com R$ 10 mil. Todos os 85 indicados entram para um catálogo que será publicado ainda este ano e ganham página on-line, com direito a vídeo e apresentação do trabalho, montada pela organização do próprio Pipa. O dinheiro do prêmio é uma doação da empresa e não conta com verba de captação por leis de incentivo.

» Profissionalização e reconhecimento
A pintura é a base do trabalho de Elder Rocha, que parte da tinta e do pincel para, eventualmente, chegar a instalações. Professor da Universidade de Brasília (UnB), o artista tem como alvo a investigação do ato de representar, tema constante na história da pintura. O principal da obra de Elder, 50 anos, é confeccionado com repertório de imagens conhecidas, cuja circulação abundante faz com que sejam facilmente reconhecíveis. Pelas salas de aula do artista passou boa parte dos jovens pintores da cidade e seu currículo exibe prêmios relevantes (Prêmio CNI/Sesi Marcantonio Vilaça) e passagem por importantes mostras nacionais, como o Panorama da Arte Brasileira (2005 e 1997).
Segundo Elder, a presença brasiliense no Pipa é furto do crescimento e da visibilidade da arte local, além de uma valorização comercial da produção. “No Brasil, tudo que é associado a mercado as pessoas acham esquisito, mas é importante a profissionalização. Até quando vamos viver num país em que o artista tem que ser diletante?”, diz. Do mesmo universo vem Nelson Maravalhas, também professor da UnB e pintor comprometido com o caráter representativo.

» Paisagens que inspiram viagens
Karina Dias, 40 anos, e Polyanna Morgana, 31, são artistas visceralmente envolvidas com a paisagem. Talvez o fato de viverem em Brasília alimente o envolvimento, mas certamente não o restringe. Karina gosta de se questionar sobre a atenção dada ao cenário observado cotidianamente. “Sempre me interessou muito a noção de viagem, de como podemos viajar sem sair do lugar. E também sempre me fascinou olhar a paisagem pela janela do carro e pensar por que alguns lugares chamam tanto a atenção. Brasília é lugar de passagem, estamos sempre passando, dentro de um carro, um ônibus. Acho que isso ajuda”, diz. Os vídeos da artista orientam o público em direção aos detalhes. Karina quer acrescentar um olhar poético ao que o espectador já viu milhares de vezes. “Isso faz você desconhecer e reconhecer o espaço”, avisa.
Para Polyanna, caminhar pela cidade é produtivo. Já rendeu performances realizadas solitariamente e apresentadas em forma de delicados desenhos e documentos escritos. Agora, a artista investe em trabalho de fotomontagem, no qual pretende explorar o diálogo dos brasilienses com a monumentalidade da cidade. Na próxima semana, Polyanna também participa de performance coletiva no Museu Nacional com o grupo Entreaberto. A apresentação faz parte da programação do evento Fora do Eixo. A indicação para o Pipa ela encara como boa oportunidade de divulgação. “É uma tentativa de mapear o que há fora do eixo. Tem pessoas de vários lugares do Brasil e isso facilita dar visibilidade para quem não é do Rio de Janeiro ou de São Paulo.”

» Investigações e minúcias do micro
Aparentemente, os trabalhos de Luciana Paiva, 28 anos, Milton Marques, 40, e Leopoldo Wolf, 31, não habitam o mesmo espaço. No entanto, há pontos de conexões entre eles. A relação com a literatura e a escrita presente nas instalações de Luciana também aparece, eventualmente, nas de Marques. E o mundo micro investigado no desenho de Wolf remete à maneira minuciosa de Marques conceber suas máquinas de baixa tecnologia construídas com sucata eletrônica.

Já as trajetórias dos três artistas seguem caminhos bem diferentes. Milton Marques é o nome de maior projeção nacional na arte do Distrito Federal. Já esteve na Bienal do Mercosul e na Bienal Internacional de Arte de São Paulo, as duas maiores mostras do país. Atualmente, está bastante desiludido com o circuito de arte. “Esse universo é muito particular, enchi um pouco e queria ver meu trabalho funcionando em outros universos”, conta.

Vaidades, guerras de ego e discursos acadêmicos pré-formatados afastaram o artista, que foi buscar respaldo na física. “Tenho me dedicado a estudar energia e óptica, mas sempre olhando para o passado.” As máquinas construídas com o que chama de “low tecnologia”, fundamentadas em processos obsoletos, continuam a motivar Marques. “As pessoas têm tendência de ligar criatividade e tecnologia e elas não estão necessariamente ligadas”, adverte. Para ele, também indicado ao prêmio na edição de 2010, o Pipa é um sopro em cenário de grandes centros relevantes e periferias desprezadas. “O prêmio anterior ficou muito no eixo Rio-São Paulo, e acho que só fui indicado porque uma galeria me representa em São Paulo. Agora, reflete uma diversidade de trabalhos de fora.”

Já Luciana e Wolf partiram para experiências fora de Brasília na tentativa de circular em outros meios e dar fôlego ao próprio trabalho. Na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Luciana encara um ano de estudos e reflexão sobre o que produz em curso ministrado pelo curador Fernando Cocchiarale e pela artista Anna Bella Geiger. Wolf foi aperfeiçoar o desenho no Instituto Superior de Desenho e Escola da Imagem (Idep) de Barcelona. O processo interminável do desenho e a miniaturização do traço conduzem o artista por um caminho experimental. “Brinco que a miniatura quase não existe, mas se expande e se transforma na cabeça de quem observa com atenção criativa. Seu formato é mágico, evoca um universo onírico, de outra dimensão.”

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