;Não sei o que ele vai achar, mas, só de saber que vai ver o nosso filme, já fico muito feliz;, deixa escapar, com ligeiro ar de tiete, o cineasta Marco Dutra, ao falar da certeza de que o cultuado Joon-ho Bong (de O hospedeiro) assistirá, no 64; Festival de Cannes, ao longa dele (feito com a codiretora Juliana Rojas), Trabalhar cansa. O sérvio Emir Kusturica pode até ser o presidente do júri do evento francês que analisará o longa brasileiro, na seção Um Certo Olhar, mas Marco Dutra se anima mesmo é com a possibilidade de ele e Juliana virem a se beneficiar na disputa pelo Caméra d;Or, prêmio dado a estreantes.
Na seleção, ao lado de diretores como Gus van Sant e Bruno Dumont, o paulistano, aos 31 anos, mantém a esperança de troféus: ;Os júris de Cannes são imprevisíveis. Não dá pra dizer ;a gente vá perder pra um figurão;. Essa lógica não vale. Basta se lembrar da premiação de um filme romeno obscuro (4 meses, 3 semanas e 2 dias, em 2007);.
Há quatro anos, a dupla de diretores faturou o prêmio Descoberta, dado ao melhor curta da Semana da Crítica (por Um ramo). ;Acho que olharam nosso longa com carinho, porque já conheciam a gente. Imagino também que nossa agenda de compromissos agora seja maior. Estou preocupado para saber como vamos nos organizar para ver filmes. Se não conseguirmos, ficaremos deprimidos, já que é a parte mais legal;, observa Marco Dutra, sem desprezar os desafios profissionais, como a comercialização estrangeira do filme.
;Assistir a um filme nas condições de lá ; numa tela gigantesca, com qualidades de imagem e de som absurdas ; vira uma experiência linda. Não é um deslumbramento com glamour. É mais intenso, isso de compartilhar da estreia dos filmes de nomes como Terrence Malick;, diz Dutra, ao se lembrar das inesquecíveis sessões das fitas de Quentin Tarantino no festival.
Antes chamado de Um pequeno investimento, o longa Trabalhar cansa presta, no novo título, homenagem a poema do italiano Cesare Pavese. ;A identificação veio com a literatura que expressa um cansaço e a sensação melancólica da volta para casa, depois de um dia de trabalho, num plano em que as coisas não dão em nada;, comenta Dutra.
Filmado em São Paulo, Paulínia e Campinas, o longa se concentra no ritmo de pacata rua de bairro. ;A questão do filme é a adaptação das pessoas. Numa ordem abrupta e violenta, na esfera do trabalho, há inversão de papéis econômicos de uma dona de casa e do marido, que encara o desemprego. A mulher (Helena Albergaria) passa a suspeitar de funcionários do mercadinho aberto pela família e nota a perda de espaço na relação com a filha de 8 anos;, adianta o cineasta.
Elementos levemente mórbidos adensam Trabalhar cansa, que ;não é só um drama de observação;, nas palavras do realizador. ;Seguimos um caminho quase na direção de se pisar na jaca: na trama, deixamos as coisas entre o real e o surreal;, explica. A semelhança de trajetória com o esquisito longa brasileiro A alegria, integrado à Quinzena dos Realizadores (em Cannes, ano passado) e dirigido por Marina Meliande e Felipe Bragança, entretanto é desencorajada. ;A gente tem uma interlocução de amigos. Gostamos de filmes parecidos. Seria ir longe demais dizer que nosso filme se relaciona com o deles;, opina Marco Dutra.
União forte
A afinidade com a parceira Juliana Rojas é amplamente exaltada. ;Nossos filmes feitos em conjunto ganham vida. Eles têm uma efervescência que, quando fazemos produções em separado, a gente é outra coisa. É muito complexo: a gente não divide funções.
Na pré-produção, trabalhamos, literalmente, na mesma mesa;, conta, ao falar da ex-colega de turma também formada pela Escola de Comunicações e Artes (USP).
Com origem num coletivo, a equipe de Trabalhar cansa depois de trabalhar até ;com zero real e ajuda de amigos;, adentrou um projeto de R$ 2,5 milhões, produzido por Sara Silveira e Maria Ionescu (de Insolação). A mesma integração de forças já está confirmada para o novo longa da dupla, As boas maneiras, com roteiro em obras. ;Será um filme de terror, feito em São Paulo, e com dois polos de ação: no centro da cidade e outro na extrema periferia;, adianta Dutra.
Nada incomum para a dupla que consolida uma espontânea unidade nos filmes. ;De modo natural, enfocamos a condição feminina na classe média. Brota uma situação doméstica que exige a lida com uma ruptura violenta. No caso de O lençol branco (curta de 2004), existia um bebê sufocado e no Um ramo, o caso de uma mulher que tinha o corpo coberto por folhas e galhos;, conclui.
Três perguntas Juliana Rojas
O que Cannes pode esperar de vocês?
Pode esperar um primeiro filme da maioria da equipe principal e que engloba uma proposta de fazer cinema desenvolvida ao longo de 12 anos. Tudo foi realizado com grande paixão. É um filme que busca observar como o trabalho ; ou a falta dele ; afeta nossas relações pessoais. Além do olhar humano, buscamos elementos narrativos que dialogam com cinema de gênero, como suspense e terror.
O que deu liga maior ao roteiro desenvolvido? Há improvisos?
A história principal é a determinação de Helena, a dona de casa, em abrir seu próprio negócio. No início do filme, trata-se de um sonho de emancipação. No entanto, ao longo da trama, quando se configura a situação de desemprego do marido de Helena (Marat Descartes), o sucesso do mercadinho vira uma necessidade de sobrevivência. A trajetória do marido complementa a trama. No Trabalhar cansa, antes do processo de ensaio, fizemos uma leitura com todo o elenco principal. Isso demarcou pontos fortes e deficiências de cada cena. Era comum improvisarmos as situações previstas no roteiro. A partir disso, readaptamos os diálogos. Por fim, chegamos ao ;tratamento de filmagem;, seguido no set.
Há diferencial de visões entre cineastas homens e mulheres?
Possuem sensibilidades diferentes, mas há muitos fatores na formação da percepção de uma pessoa. Acho natural que, quando uma mulher se destaca, chame a atenção por ser minoria no meio. Acredito que eu e Marco nos integramos tão bem porque existe muito respeito e amor. Ficamos amigos logo no início da faculdade por gostarmos do mesmo tipo de filmes. Durante os estudos, tínhamos o costume de ir ao cinema depois da aula para assistir às estreias da semana. Esse universo de referências compartilhado facilita o diálogo.
Mais gente nossa
; Marco Dutra (de Trabalhar cansa), curiosamente, guarda uma ligação profissional com outro brasileiro que estará em Cannes: Karim A;nouz. Com o diretor cearense, Dutra foi roteirista da telessérie da HBO Alice. Selecionado para a Quinzena dos Realizadores, com o longa O abismo prateado, A;nouz volta a Cannes quase 10 anos depois da exibição de Madame Satã no segmento Um Certo Olhar. Inspirado por música de Chico Buarque, o roteiro de O abismo prateado traz ainda a assinatura da escritora Beatriz Bracher. Protagonista, Alessandra Negrini dá vida a Violeta, uma carioca largada, sem muita explicação, pelo marido. Com curtas-metragens integrados, respectivamente, à Semana da Crítica e à mostra da Cinéfondation, Ricardo Alves Júnior (Permanências) e Alice Furtado (Duelo antes da noite) completam a lista de realizadores nacionais em Cannes.