Diversão e Arte

Mostra apresenta acervo cinematográfico da companhia Maristela

postado em 16/08/2011 08:37

Cena do filme Arara vermelha, de Tom Payne, exemplo da excelência técnica praticada nos filmes da companhia paulista

Em 1952, no livro Filme e realidade, o cineasta Alberto Cavalcanti deu vazão a um apelo indignado diante da situação da indústria cinematográfica do país. Cavalcanti, um dos precursores dos filmes de vanguarda na França e dos documentários ingleses do General Post Office, trabalhou em todo tipo de processo produtivo na Europa e ganhou destaque como artista em documentários como Rien que les heurs e Coal face. Convidado a voltar ao Brasil por ;um grupo de capitalistas de São Paulo; e ocupar o cargo de produtor- geral da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, o brasileiro se deparou com um cenário decepcionante. ;Graças aos elementos que conseguiram, malgrado todos os empecilhos, realizar o pouco que se realizou; graças igualmente à facilidade com que o técnico brasileiro aprende seu métier, evitou-se, por um triz, até agora, uma catástrofe total. Essa ameaça, porém, continua aumentando cada dia mais ; com a cumplicidade de certos dirigentes cinematográficos, com a irresponsabilidade de alguns dos nossos distribuidores e com o desprezo da maioria de nossos exibidores pela educação do nosso público;, escreveu.

Ainda que por um período de tempo pequeno, o realizador encontrou autonomia no projeto de produção praticado pela companhia paulistana Maristela, atuante durante a década de 1950 sob a tutela do empresário Mário Audrá Jr. e do italiano Mário Civelli. A história da companhia cinematográfica, parcamente conhecida dos brasileiros, começa a ser revisitada com a exibição da mostra de cinema Retrospectiva Maristela. Em Brasília, as exibições ocupam o Centro Cultural Banco do Brasil de hoje até o dia 28 deste mês.

Experimentação
;Meu pai era o filho caçula. Naquela época, o filho mais novo não tinha muitos direitos na família. Ele estava insatisfeito com o trabalho na indústria têxtil do meu avô e foi passar um tempo na Europa. Lá, ele teve contato com o neorrealismo italiano e decidiu montar uma produtora com modelo de produção parecido aqui no Brasil;, explica o filho de Mário Audrá Jr., o produtor de cinema Marco Audrá sobre as origens da empresa da família. Enquanto a carioca Atlântida investia em comédias populares, as famosas chanchadas brasileiras, e a Vera Cruz se concentrava em produções épicas ou filmes de aventura, a Maristela experimentava um projeto híbrido.

Nela, os orçamentos eram reduzidos e havia o investimento em roteiros baseados na literatura nacional, caso de O comprador de fazendas (1951), dirigido por Alberto Pieralisi. Apesar da comunicação com o grande público, na Maristela, autores como Alberto Cavalcanti e Alex Viany (leia quadro) podiam experimentar projetos pessoais. Alguns títulos eram documentais, caso de Getúlio, glória e drama de um povo (1956), dirigido pelo próprio Mário Audrá Jr., sobre o fascínio que o estadista brasileiro causava em multidões.

Existiam outras prioridades também. ;Eles tinham uma necessidade de se contrapor ao que era visto como má qualidade técnica. Os diretores não sabiam dirigir, os atores não sabiam atuar. Era o que se dizia. Era preciso elevar o nível do que era feito e, ao mesmo tempo, encontrar uma maneira brasileira de se fazer cinema;, analisa o curador da mostra, Rafael Luna. Um exemplo dado pelo curador sobre a excelência técnica da Maristela é a fotografia feita por Rodolfo Icsey e Honório Marin em Arara vermelha, de Tom Payne.

Apesar dos esforços, em 1958, o sonho chegou ao fim. Os equipamentos da companhia foram usados pela última vez na produção de Luís Sérgio Person, São Paulo S/A (1965). Aproveitando boa parte do casting que formou, o diretor da companhia Audrá Jr., montou um estúdio de dublagem, o AIC São Paulo. Após anos e anos de armazenamento em depósitos, o acervo da Maristela se encontra em perigo. Para a realização da mostra, o CCBB fez cópias em 35 mm.

Três títulos não puderam ser incluídos na programação por causa do estado avançado de degradação. ;Convivo com esse problema desde a época do meu pai. Nós sempre entramos nesses editais infindáveis do governo, mas ninguém ajuda. Acho que me sinto mais triste com a falta de reconhecimento da história do que decepcionado com a falta de reação pública para preservar esse material;, desabafa Marco Audrá.

Confira quem já atuou na Maristela:

Adoniran Barbosa
O sambista autor de Trem das onze e Saudosa maloca aproveitou a extensa carreira em rádios paulistanas para participar do elenco de A pensão de D. Stela e Mulher de verdade.

Antoinette Morineau
Estreou no cinema com o longa da Maristela, Presença de Anita, dirigido por Ruggero Jaccobi. Mais tarde, faria Meu destino é pecar, na mesma companhia. Abandonou a carreira para cuidar dos filhos.

Alex Viany
Crítico de cinema e autor dos livros O velho e o novo e Introdução ao cinema brasileiro. Foi responsável por roteiros da companhia e pela direção do longa Ana (1955), com argumento de Jorge Amado.

Inezita Barroso
Sucesso como cantora de rádio com as músicas Ronda e Moda da pinga, participou do elenco de Mulher de verdade, de Alberto Cavalcanti.

Jaime Costa
Exímio ator de teatro, atuou em títulos importantes da cinematografia nacional como Alô, alô carnaval e Favela dos meus amores. Está no elenco de Quem matou Anabela? e A pensão da D. Stela, da Maristela

Tônia Carrero
Foi estrela da concorrente Companhia Cinematográfica Vera Cruz . Está no elenco de Mãos sagrentas. Filme recomendado para maiores de 18 anos por conter cenas fortes.

Procópio Ferreira
Um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, dispensa apresentações. Foi também diretor e dramaturgo teatral. Estrelou O comprador de fazendas (baseado na obra de Monteiro Lobato) e Quem matou Anabela?

Ruth de Souza
A primeira atriz negra a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Também trabalhou em produções da Vera Cruz. Na Maristela, fez Quem matou Anabela?



RETROSPECTIVA MARISTELA
Exibição de filmes produzidos entre 1951 e 1958 pela companhia de cinema Maristela. De hoje a 28 de agosto no Centro Cultural do Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3310-7087). As classificações indicativas variam de livre até 18 anos. Confira a programação completa no roteiro do Diversão & Arte. Entrada franca

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