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Estado de Minas

Marco Mazzola, o homem que testemunhou e fez acontecer a história da MPB


postado em 21/08/2011 11:44

(foto: MZA Music/ Divulgação)
(foto: MZA Music/ Divulgação)

O que eles pensam

Quem escrever a história da MPB nas últimas quatro décadas terá, obrigatoriamente, que recorrer a Marco Mazzola como fonte. Dos estúdios, o produtor musical testemunhou e, ao mesmo tempo, fez acontecer essa história. Trabalhou com os principais artistas do país - Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Elis Regina, Raul Seixas, Ney Matogrosso, Alceu Valença, Ben Jor, Martinho da Vila… Em 1996, criou a própria gravadora, a MZA, a “primeira independente do país”, como ele ressalta. Em 2007, reviu sua trajetória na autobiografia Ouvindo estrelas e numa série de três CDs, 30 anos 30 sucessos - MPBZ. Mas Mazzola está longe de viver do passado. Há um ano criou o Prêmio de Música Digital com o objetivo de impulsionar o comércio de músicas via internet. E ainda descobre novos talentos por meio da sua gravadora. “Continuo trabalhando muito, quase 18 horas por dia, atento a tudo o que está acontecendo. Porque, se você não estiver atento, vem outro e passa por cima”, observa.


Grandes nomes da MPB aparecem como
personagens de Ouvindo estrelas. Alguém
contestou alguma história contada no livro?
Não, porque procurei não colocar no livro nada que falasse em drogas, sexo ou algo assim, porque isso é uma coisa que cabe à privacidade de cada um. Minha ideia não era falar que fulano transou com cicrano, mas me deter no que se passou dentro dos estúdios. Tanto é que, nas faculdades aqui do Rio de Janeiro, o livro hoje é considerado como referência. E a repercussão foi muito boa. A primeira edição esgotou e, como estou envolvido com o Prêmio de Música Digital, resolvi fazer com que a segunda edição fosse distribuída também digitalmente.
 
A segunda edição do Prêmio de Música Digital
acontece ainda este ano?
Estamos pensando se bancamos agora ou se seguramos para o ano que vem. Seria bacana se, antes da próxima edição, o iTunes entrasse no Brasil porque os números aumentariam consideravelmente. Já foi um absurdo o que conseguimos no ano passado, mostrar que 9 milhões de músicas foram baixadas legalmente, e pagas, na internet. Isso só dos artistas que se inscreveram. As gravadoras tomaram um susto, e os artistas também. Em seguida, foram lançadas três lojas virtuais de música. E algo sobre o que nós produtores e artistas sempre conversamos e pelo qual lutamos é que isso seja legalizado, de forma que os direitos autorais sejam dignos. Senão, fica do mesmo jeito que a venda física: está caindo e os impostos não baixam. A venda de música digital está num momento em que é possível (e devemos) fazer mudanças, porque já tem um volume grande. Neste ano, só nos Estados Unidos, o mercado cresceu 13,5% em relação a 2010 e representa quase 40% do total. Então, a gente precisa correr para que isso seja legalizado de forma que a pirataria não avance.

Mesmo com a concorrência desleal do download
pirata, o mercado tende a solidificar?
Sim, porque, com o streaming — e a indústria vende mais do que o download —, as pessoas estão tomando consciência de que não adianta baixar uma música com uma péssima qualidade. Se você vende um download barato e ruim, o pessoal não quer, vai baixar de graça mesmo, porque a galera de 18, 20 anos não está ligada nessa história de “o som está ruim, está comprimido”. O cara quer baixar e pronto. Isso muda a partir do momento em que se oferece uma música com alta qualidade, como vem sendo feito, com a possibilidade de o consumidor escolher as faixas que quiser e receber o disco com suas escolhas. O caminho é por aí: você vai poder ter as músicas que ouvia em vinil e colocar no carro, por exemplo, com um excelente som… E sem precisar comprar um disco inteiro. Quando idealizei o Prêmio de Música Digital já pensava nisso, na venda por música, não por artista.

 

As mudanças que vêm ocorrendo na distribuição
fizeram mudar também o trabalho do produtor?
Mudou tanto o trabalho do produtor, quanto o de músicos e o dos estúdios, em virtude da pirataria e da má qualidade de música que algumas pessoas fazem. A função do produtor, hoje em dia, não é tão forte quanto antigamente. Só os grandes artistas é que recorrem aos produtores, porque os que começam fazem em casa, num quarto, num computador. Isso, às vezes, prejudica o trabalho do artista, até que ele vai atrás de um produtor para dar um jeito, arrumar… O produtor vira um decorador, tem que “decorar” a casa do cara. O homem criativo das gravadoras, que existia há cinco, oito anos, não existe mais. Quem dirige as empresas não são mais as pessoas criativas, são os executivos.

E quais as perspectivas para todos os que estão
produzindo música e se autoproduzindo?
Na verdade, acho que a indústria vive uma carência grande de oportunidades, porque há muitos artistas, mas é preciso meios para que eles possam aparecer. Quando existiam os festivais, existia também um estímulo. Para fazer sucesso, tinha que fazer uma coisa diferenciada. Hoje em dia é fácil, qualquer coisa vende. Por isso, acho que deveria haver um estímulo e ele devia partir das gravadoras. Nosso problema é que temos muita gente e não temos um espaço onde as coisas possam acontecer. Ou alguém acontece porque é amigo de fulano ou porque faz um trabalho incrível na internet e outro vai lá e pinça. Qual é o programa de televisão que hoje provoque isso? Os que existem voltados somente para a música são pouquíssimos, e meio ridículos, de cartas marcadas.

Você diz que as grandes gravadoras estão sem chão. Isso favorece os selos e pequenas gravadoras?
As grandes gravadoras ainda vivem no passado, têm um catálogo imenso, lançam a toda hora um “best of” e vão tentando faturar. As independentes estão aumentado. A AGBI (Associação Brasileira de Gravadoras Independentes) tinha 60 inscritas, hoje são quase 500, criando e fazendo música. Esse mercado está voltado justamente à oportunidade, são essas gravadoras que estão produzindo conteúdo, porque a máquina não é um jumbo. Uma gravadora grande é mais difícil de manipular em caso de turbulência; com um teco-teco, a gente desce em qualquer lugar. O problema das majors é o peso, e elas tendem a ficar cada vez mais pesadas, porque se unem, se fundem, enquanto as pequenas — no mundo inteiro, não só aqui — são as que têm conteúdo e oferecem boa música para o mercado.

Há algo que você produziu há muito tempo e,
ouvindo hoje, pensa: “Eu faria diferente”?
Sabe que não? Porque, nos programas de rádio que tocam MPB, pelo menos no Rio e em São Paulo, 70% das produções são minhas… Outro dia eu estava no carro, aí tocaram umas cinco músicas seguidas, todas produzidas por mim, e cada uma foi uma viagem na minha cabeça. Lembrei que em Oceano, do Djavan, briguei com a gravadora para convidar o Paco de Lucia para fazer aquele solo. Depois veio Caçador de mim, de Milton Nascimento, que tem uma guitarra em distorção. Em seguida tocou Belchior, com Alucinação… E coisas mais recentes, como Zeca Baleiro, Ivete Sangalo… Não queriam que Ivete cantasse Se eu não te amasse tanto assim, porque diziam: “Ela canta axé music”.

Passou por muitos confrontos desse tipo?
As gravadoras acham que você não tem que dar oportunidade ao artista. Eu nunca fui assim, sempre procurei trocar energia com o artista, querendo dar o melhor de mim para eles, obedecendo critérios. Até brinco no livro dizendo que tem que haver um namoro, no bom sentido. Se um produtor fala uma coisa na hora errada, a m… toda acabou. Melhor deixar o cara falar, aí depois você começa a conversar devagarinho. Você vai me perguntar quais foram as pessoas mais difíceis que eu encontrei. Teve, mas consegui lidar com elas. Eu era garoto quando me deram a Elis Regina para produzir. Pensei: “Não vou aguentar essa mulher”. Todo mundo dizia que ela era isso, era aquilo. Acabou minha amiga, um dos melhores discos que ela fez (Falso brilhante) foi produzido por mim. Tive problemas com quase todos com quem trabalhei, mas de convencimento mesmo. “Milton, vamos fazer assim”, “Ney (Matogrosso) vamos gravar Homem com H”, e ele: “Deus me livre”… Escrito nas estrelas, com Tetê Espíndola, ninguém queria me ajudar, consegui os músicos para tocar de graça, ganhei um festival com a música. E nunca quis usar minha autoridade nas gravadoras, sempre coloquei a serviço delas a minha intuição.

Recentemente você lançou dois álbuns (um duplo) com um resumo de seu trabalho. É uma seleção afetiva ou do que considera “o melhor de Mazzola”?
Procurei reunir momentos que me marcaram como produtor. Por exemplo, da Simone, eu poderia colocar Amar, Pequenino cão, um monte de músicas que foram sucesso. Mas achei que Iolanda foi um momento especial. Eu trouxe um italiano, Maurizio Fabrici, para fazer o arranjo; tive que convencer o Chico (Buarque) a fazer a versão da letra, que ele não queria. São momentos de produção que vivi e que mexeram comigo. Se fosse colocar ali todas as músicas que produzi, não daria. Houve tempo em que eu tinha que fazer sete discos por ano para sobreviver. Foi daí que decidi criar a MZA. Eu fazia tantos artistas para as gravadoras, recebia aquele valor fixo e o master ficava com a companhia. Isso acabou. Hoje, todo mundo quer ter seu selo e ser dono de sua obra. Era isso que eu queria em 1996, quando criei a MZA, que é considerada a independente número 1. E continuo trabalhando muito, quase 18 horas por dia, atento a tudo que está acontecendo. Porque, se você não estiver atento, vem outro e passa por cima.

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