Diversão e Arte

Festival de Cavalcante se transforma num polo cultural e gastronômico

postado em 25/08/2011 09:06

Grupos e instrumentistas que participarão da grande festa musical na Chapada do Veadeiros: shows, performances e roteiros turísticos
No alto dos seus 264 anos de existência, a detentora de 70% do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros exibe belezas naturais, agora com trilha sonora. Começa hoje, no município goiano de Cavalcante, situado a 300km de Brasília, o Festival de Música Instrumental. A programação se estende até domingo e inclui shows musicais, apresentação teatral e exibição de filmes. Apesar de se concentrar na praça central da cidade, o evento leva pela segunda vez uma telona de cinema para o vão de uma comunidade calunga. Durante o período do evento, turistas e locais poderão se deliciar com os pratos da culinária goiana e saborear uma cerveja artesanal, na Feira de Artesanato e Gastronomia, uma realização em parceria com a Associação de Artesãos de Cavalcante.

Rênio Quintas é o diretor e um dos criadores do festival, realizado pela primeira vez em 2005. Carioca de nascimento, ele mora no Distrito Federal desde 1960. Entre os anos 1980 e 1990, testemunhou a força da cena instrumental em Brasília. ;A crise que estamos vendo hoje com o fechamento de casas de shows é uma distorção criada pela Lei do Silêncio. Mas ao mesmo tempo, o mercado está em expansão;, explica o diretor, que vê na realização de festivais um motor para a produção artística. Foi o que ocorreu em Cavalcante.

Rênio conheceu o município goiano e logo se apaixonou. ;As paisagens são fantásticas e a cultura local é muito rica;, descreve. Segundo ele, o isolamento dos quilombolas de Cavalcante, a maior comunidade calunga do Brasil, já foi quebrado pelo fluxo turístico, que passa também, e mais intensamente, por Alto Paraíso e São Jorge. ;A cultura traz emprego, auto-estima e qualidade de vida. Isso agrega valor às belezas naturais;, comenta. ;A gente não quer interferir no modo de vida da comunidade. Eles não precisam de nós, mas nós necessitamos conhecer a cultura deles. Buscamos nos aproximar, mas com respeito ;, explica. Os calungas levam para o festival seus ritmos e danças tradicionais. Hoje, segundo Rênio, existem pelos menos sete grupos musicais na cidade.

O festival se integrou de tal maneira à vida da cidade que os próprios artistas procuram saber com antecedência quando será realizada a próxima edição. ;As pessoas querem preparar o que será exibido. Existe um sentimento de pertencimento à cidade;, afirma.

Por conta da casa
;Fiz questão de não fazer o Festival em feriado. Assim, só vão aqueles que estão realmente interessados em cultura;, explica Rênio. As atividades cinematográficas antecipam-se ao festival. Filmes como o curta A onda, festa na poroca e o longa-metragem Lula, o filho do povo participam da Mostra Brasil Candango, na Praça da Bíblia. A mesma seleção de produções brasilienses será levada à população do Vão do Engenho, pelo cinema itinerante do Instituto Latino América.

;A itinerância é inevitável. Não tem cinema em Cavalcante. Ainda;, observa. A escolha por aquela comunidade calunga foi determinada pela maior acessibilidade do local, situado a 60km do centro urbano. Um caminhão leva os ingredientes mágicos necessários para dar origem ao cinema a céu aberto, com um projetor de 35mm. ;Na primeira vez, a reação das pessoas foi linda. Queremos aumentar a frequência dessas exibições;, empolga-se Rênio.

As atrações musicais ocorrem sempre na praça central e vêm de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Os músicos e grupos locais Lua de Cerrado, Trio Chapadeiros, Roda de Candea, Oskaba e Forró do Parceiro se apresentarão no sábado, dia especialmente dedicados a eles. ;O festival é uma vitrine para os artistas, que têm uma grande necessidade de expressar-se;, afirma. Antes de os músicos subirem aos palcos, é realizado um Cortejo Teatral, que, nesse ano, será integrado pelos próprios moradores da cidade e encerrado por uma performance na praça central.

A Pequena Orquestra de Cavalcante apresenta-se no sábado e repete a dose no domingo. O destaque do último dia é o saxofonista norte-americano Mike Hamilton.

Marlene Souza Lima: primeira mulher solista no festival

Pequenos talentos
Em 2005, a Pequena Orquestra de Cavalcante foi criada por Rênio Quintas. Ela conta com a contribuição do professor e integrante do Udigrudi, o luthier Marció, na condução das oficinas musicais. As aulas são oferecidas a 20 crianças da ONG Asol, durante os 10 dias que antecedem o evento. Rênio reconhece a necessidade uma escola de música na cidade. ;A maior contribuição é a musicalidade deles, algo que é ancestral;, refere-se aos participantes oriundos das comunidades calungas. A partir de canos de PVC, ladrilhos, latas e garrafas pet, crianças de 11 a 17 anos tiram canções de ninar, folclóricas e composições de Villa-Lobos.


VII Festival de Música Instrumental e Arte Popular
Em Cavalcante, Goiás, até domingo. Hoje, Mostra Brasil Candango, na Praça da Bíblia. Amanhã, Cortejo Teatral, Lua de Cerrado, Trio Chapadeiros, Roda de Candeira, Oskaba, Forró do Parceiro. No sábado, Pequena Orquestra de Cavalcante, Catira, Marcos Farias e banda, Paulo André e Oswaldo Amorim, Renato Vasconcellos Quarteto e Orquestra Popular Marafreboi. No domingo, Pequena Orquestra de Cavalcante, Marlene Souza e banda, Grupo Marakamundi, Mike Hamilton e banda e Dança da Sussa. Entrada franca.

Bagunça bem sossegada

A orquestra Marafreboi é uma das atrações: matriz popular
Um festival de cineclubes é a atração em novembro. Em agosto, é a vez do festival de música. ;Entre esses meses queremos criar um festival de dança e teatro. Todo fim de semana tem turista na cidade. A pessoa vai para a cachoeira e depois não tem mais nada para fazer. A programação cultural é uma maneira de aproveitar o fluxo turístico;, vislumbra Rênio. Existem mais de 100 quedas d;água nas proximidades do município.

A veterinária Thaissa Quintas é sobrinha de Rênio e participa do festival desde a primeira edição. ;Tenho casa e pousada em Cavalcante, frequento a cidade há uns 10 anos;, conta. Embora toda a família se mobilize na organização e realização do evento, Thaissa só vai para se divertir. ;As pessoas vão muito a Alto Paraíso e a São Jorge. Cavalcante ainda é pouco conhecida pelos brasilienses. O festival é uma maneira das pessoas conhecerem a cidade, que é mais tranquila que as outras duas da Chapada. É o que mais me faz gostar de lá;, conta. Durante o evento, a cidade fica agitada. Mas para a veterinária, até mesmo a bagunça de Cavalcante é ;sossegada;.

Novatos
Do encontro do maracatu, do frevo e do bumba meu boi nasceu, há 10 anos, o Marafreboi. A orquestra é composta por 14 músicos e é a única do Centro-Oeste em que o foco está nas matrizes da cultura popular. O som de três gêneros musicais seculares, com base na instrumentação de sopro, é dançado pelos cinco bailarinos do Balé Popular Marafreboi.

Estreante no festival, o grupo prepara um repertório exclusivamente brasileiro. ;É proibido tocar jazz na orquestra;, decreta Fabiano Medeiros, um dos músicos. Para ele, a própria formação do conjunto é representativa da população brasiliense. ;Somos um mosaico. Tem gente de tudo que é lugar;, conta.

Maraka é música em tupi-guarani. Mundi significa mundo em latim. Com quase 13 anos de uma estrada cheia de influências ameríndias, africanas e europeias, a banda também apresenta-se no festival pela primeira vez, divulgando o novo trabalho, Rota Brasil. A bossa nova, o samba, o baião, a rumba e a montuna são misturados com todo o cuidado possível que possa existir em um improviso. ;Se carregarmos demais no tempero, estragamos a receita;, compara um dos integrantes, Ticho Lavenére.

Para ele, a música instrumental tem mais liberdade para misturar sonoridades, diferentemente dos cantores, que ;logo são rotulado em determinados gêneros;, acredita. A miscigenação musical traz uma dificuldade na hora de descrever o trabalho nas apresentações no exterior, onde o definem com o termo Brazilian Jazz.

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