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Estado de Minas

Uma das lendas da Mangueira evoca deliciosas histórias dos grandes mestres


postado em 27/08/2011 11:12 / atualizado em 27/08/2011 11:16

Tantinho:
Tantinho: " O samba da atualidade não tem mais identificação, é numerado. A gente não sabe de quem é a letra" (foto: Lula Cerri/Divulgação )


É difícil falar com Tantinho da Mangueira. O sambista carioca não tem página oficial e, pela rede, não há um site confiável sequer que colabore na busca de um contato do músico. Uma ajuda aqui, outra acolá e logo ele está do outro lado da linha, risonho, faceiro e agradecido com a lembrança. Batizado como Devani Ferreira, Tantinho comemorou domingo passado 65 anos, dos quais 60 foram dedicados à Mangueira. Nascido e criado no Morro da Mangueira, Tantinho é cantor, compositor e partideiro. Casado com Bernadete, filha de João Cocada, e a quem chama carinhosamente de “Dete”, o carioca não vive mais no morro. Sua casa, hoje, fica em Jacarepaguá, onde mora com os quatro filhos.

Aos 12 anos, Tantinho e virou chefe de família, sustentando a mãe e os irmãos. Foi office-boy, lavador de carros, frentista, camelô e laboratorista no Jornal do Brasil. Trabalhou em uma agência de publicidade e na Funarte, onde se aposentou. Como laboratorista descobriu uma paixão: a fotografia. Ia aos campos de futebol e acompanhava os jogos de perto, conhecia os jogadores e depois corria com os filmes dos fotógrafos para revelar no laboratório do jornal.

Na Mangueira, começou a tocar com 5 anos e já desfilava na bateria batucando o tamborim no carnaval. Tocou com Paulinho da Viola, Zé Keti, Jamelão e Elizeth Cardoso. “Esses encontros vieram do convívio no samba. Certo dia, fui fazer uma gravação na casa do Candeia e conheci o Paulinho, com quem eu tinha uma amizade de escola de samba. Parei ao lado dele e começamos a conversar. O Candeia brigou, ficou com ciúme. Dali, daquela gravação, eu e o Paulinho fomos para São Paulo trabalhar juntos. Foi uma empatia danada”, fala orgulhoso da parceria com o intérprete de Coração leviano.

“Os sambas de hoje são descartáveis. Eu não sei mais cantar o samba-enredo que a Mangueira desfilou este ano, mas me lembro das composições de 1960, 1970. São coisas que não são mais feitas com carinho. Nós usávamos a alma no samba. Hoje, veja só, o carnavalesco até dá as rimas. Olha que loucura”, conta o compositor, que depois de 31 anos, voltou a escrever para a Estação Primeira. “Voltei porque era sobre Nelson Cavaquinho. Quando colocaram a música na internet, todo mundo gostou. O povo dizia: ‘A Mangueira finalmente vai desfilar com um samba bom’. Porém, no primeiro dia cortaram meu samba e tive que ouvir: 'Você sabe que o samba não era o da vez, né Tantinho?’. A diretoria diz que não cita o compositor para que a escolha seja imparcial, mas eles sabem quem escreveu. O samba da atualidade não tem mais identificação, é numerado. A maioria não sabe de quem é a letra”, revela.

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