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Estado de Minas

Ponto a ponto com Tantinho da Mangueira - na cadencia dos bambas


postado em 27/08/2011 11:14

Mangueira
Tô sempre no morro, não deixo de ir, rever as pessoas que eu realmente gosto muito. A escola é a coisa que mais amo na minha vida depois da minha família. Vi muitas mudanças prejudiciais na escola. As pessoas, hoje, são menos românticas, não têm apego, amor, carinho. Acham que aquilo é uma fonte de renda. Dei minha juventude à Mangueira, lutando, cantando, compondo, brigando e, agora, ninguém passa por isso.

Cartola
Não nos dávamos muito bem. Eu era garoto e ele, já adulto, era muito implicante, muito chato. Eu e meus amigos aguardávamos a chuva para faturar um dinheirinho. No morro quando chove a coisa muda totalmente. Desce areia e lixo do alto e nós tínhamos o hábito de limpar a rua para que a lotação pudesse transitar. A gente estava lá no meio da rua com a pá e a enxada e, de repente, tinha que largar tudo e sair correndo morro acima porque a polícia chegava. Aí o Cartola falava: “Esses garotos aqui estão querendo roubar o pessoal da lotação”. Por outro lado, ele penava com a gente. Cartola gostava de tomar conhaque no botequim do Nelson Cuíca, no Buraco Quente, todos os dias às 7h30. Nós passávamos e acabávamos com a tranquilidade dele. Ele fazia queixa de mim para o Nelson Cavaquinho, que dizia: “Ô Cartola, quem se mete com criança amanhece mijado”. Em 1962 ele me convidou para cantar um samba dele, Tempos idos. Era um samba-enredo. Relutei um pouquinho, mas fui. A encrenca era coisa do passado.

Nelson Cavaquinho
Era muito amigo da minha mãe. Ele ficava no bar da Dona Efigênia, com Cartola, Nelson Sargento, Carlos Cachaça. Eu não bebia, só ficava ali porque já tinha um interesse musical. Eles bebiam muito. De vez em quando, Seu Nelson urinava nas calças, aí ele me chamava: “Ô, garoto, chama a sua mãe lá”. Ele pedia para ela lavar a calça dele. Teve um dia que ele estava lá em casa de paletó, gravata, toalha enrolada na cintura e a minha mãe lavando a calça dele. Aí , eu falei: “Ô seu Nelson, que negócio é esse? Aqui não é lugar de ficar de toalha, não.”

Padeirinho da Mangueira
Quando era garoto, sempre estava ao lado dele, porque sabia que uma hora ia sair coisa boa. Minha família era uma das mais pobres da Mangueira e eu queria comprar uma roupa de malandro. A situação era difícil: meu pai estava preso, minha mãe lavava roupa. Inscrevi-me em um concurso para crianças na Rádio Nacional e ganhei o primeiro lugar. Lá, cantei Mora no assunto, do Padeirinho. Voltei pra casa e ele estava me esperando no pé do morro. “Gostei de você ter cantado minha música, mas quero meu dinheiro.” Não dei dinheiro algum. Ele pegava no meu pé, mas eu gostava demais dos sambas dele. Ele não foi reconhecido como deveria, mas, para mim, é do nível de Cartola, Geraldo Pereira, Carlos Cachaça.

Jamelão
Era uma pessoa que todo mundo achava chato, mas eu o adorava, nós nos dávamos muito bem. Claro que tínhamos nossas encrencas, mas havia um entendimento recíproco. Ele me aturava muito. Jamelão costumava andar com uísque importado na bolsa e me oferecia. As pessoas se perguntavam na Mangueira por que ele era assim comigo. Ele falava que só deixaria de cantar na Mangueira no dia que eu quisesse assumir o lugar dele. No morro tem um ditado que diz “vou entregar o bastão”. E ele dizia: “Só entrego o bastão para o Tantinho. Aqui, ninguém sabe cantar, só ele”. Fui puxador da escola com ele uns 10 anos pelo menos. Ele viajava e me deixava responsável por puxar o samba na escola.

Originais do Samba
Quando começaram a projetar o Originais do Samba, o Carlinhos (Mussum) me chamou. O negócio deles era formar um grupo com caras que cantassem e tocassem bem. Fui em três, quatro ensaios. Depois, eles estavam firmando compromissos em São Paulo e eu não quis ir até por causa da doença da minha mãe. Se tivesse ficado no grupo era para eu estar cheio da grana, porque eles ganharam muito dinheiro. Eu e o Mussum éramos irmãos, não era onda, não. Nós dividíamos dinheiro, era tudo recíproco. Até a cachaça nos roubávamos juntos na macumba para beber. Digo irmão mesmo, de ele chorar por minha causa.

Brasília e JK
A Mangueira foi convidada para desfilar em Brasília em 1961, ainda nas comemorações da inauguração da cidade. Naquele tempo, todos só ouviam falar da nova capital. Eram as emissoras de rádios, os jornais. Aí, eu fiz um samba sobre a cidade. Eu não era muito chegado a samba-enredo, então, compus um samba de terreiro que rimava Brasília com Emília, uma namoradinha que eu tinha na época. A Verde e Rosa desfilou com a minha música. Eu a cantei pro Juscelino, que se surpreendeu comigo por causa do meu tamanho. Eu tinha 13 anos, mas parecia um menino de oito. Foi inesquecível.

Discografia
» Mangueira, sambas de terreiro e outros sambas (2000)
» Velha-Guarda da Mangueira e convidados (1999)
» Tantinho, memória em verde e rosa (2006)
» Tantinho canta Padeirinho da Mangueira (2009)

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