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Estado de Minas

Exposição traz o que será um espaço da cultura afro-brasileira na Bahia


postado em 14/09/2011 09:10

A história percorrida pelas exposições que ocupam a galeria principal do Museu Nacional da República tem duas pontas, um começo e nenhum fim. Começa na África e segue ramificações por dois continentes e um oceano. A primeira parada é em Angola, onde o fotógrafo Sérgio Guerra acompanhou grupos da etnia hereros para realizar ensaio homônimo. Ao fundo da galeria está o embrião do que será o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira da Bahia. Duas pontas da África que se encontram graças à curadoria de Emanoel Araújo e do compositor José Carlos Capinam.

Fotos do livro Hereros, de Sérgio Guerra, também estão na mostra e retrata a etnia isolada e espalhada entre Namíbia, Angola e Botswana(foto: Sérgio Guerra/Divulgação/D.A Press)
Fotos do livro Hereros, de Sérgio Guerra, também estão na mostra e retrata a etnia isolada e espalhada entre Namíbia, Angola e Botswana (foto: Sérgio Guerra/Divulgação/D.A Press)

A dupla passou parte da última semana na capital para montar a exposição e pedir ao Ministério da Cultura (MinC) a segunda parcela de um repasse de R$ 9,9 milhões destinados ao projeto. O único museu baiano dedicado à cultura afro-brasileira funciona dentro da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e tem mais utilidade acadêmica do que comunitária, por isso Capinam idealizou o plano de criar um espaço para a comunidade poder refletir e dialogar com a matriz africana da formação brasileira.


A ideia amadureceu na Sociedade de Amigos da Cultura Afro-Brasileira (Amafro), presidida pelo compositor baiano. “A proposta expográfica é ter um roteiro em que a contribuição africana possa ser vista em várias situações como a língua, a religião, a maneira de se vestir, de ser, a maneira de o negro falar, a capoeira, a arte. Vai contar essa grande influência que temos da matriz africana e da qual não se fala, não se mostra e que não interessa às vezes saber”, diz Capinam, que planeja para novembro a inauguração.


Brasília será a primeira a conhecer o acervo do novo museu. Emanoel Araújo, fundador do Museu Afro Brasil de São Paulo, ficou responsável por reunir a coleção. A instituição baiana já nasce com política de aquisição e o curador contou com R$ 600 mil para comprar as primeiras obras. Além de doações de artistas e da coleção de Carybé, cedida em comodato, Araújo foi em busca de peças capazes de contar a presença negra na arte brasileira desde o século 18.


Esculturas sacras em madeira dividem espaço com instalações como as de Tiago Gualberto, construída com retratos e pequenas garrafas de vidro, e fotografias de Walter Firmo e Eustáquio Neves. A vertente popular de Mestre Didi e dos ex-votos encontra diálogo na erudição de Rubem Valentim e há toda uma sessão para os pintores de origem negra do século 19 e a representação a partir do olhar do branco em gravuras de Jean Baptiste Debret e pinturas de Rugendas.

(foto: Sérgio Guerra/Divulgação)
(foto: Sérgio Guerra/Divulgação)

Emanoel espera assim poder conduzir o público pela história do negro em todo o país. “É um museu abrangente, a ideia é incorporar um acervo nacional porque o que se passa na Bahia não é o mesmo que se passa no Rio Grande do Sul e o que se passa no Rio Grande do Sul não é o mesmo que se passa em Pernambuco. O museu precisa ter uma versatilidade de exatamente envolver, é um projeto mais ambicioso que apenas um museu afro-brasileiro. Pretende envolver questões como os artistas negros, mulatos e mestiços ou até brancos que foram importantes na formação da cultura nacional”, avisa o curador. “Vai entrar arte contemporânea e todas as manifestações que estão ocorrendo no Brasil.” Araújo procurou seguir as mesmas noções que nortearam a fundação do museu paulistano, embora a instituição baiana esteja destinada a ocupar espaço menor.

Contemporâneo
Emanoel Araújo também foi responsável por selecionar as imagens de Sérgio Guerra para a exposição Hereros, ensaio sobre uma etnia isolada e espalhada entre Namíbia, Angola e Botswana. Guerra estabeleceu o primeiro contato com os hereros há 12 anos, quando fazia uma série de programas para a televisão angolana. Em 2007, decidiu transformar a convivência em um trabalho. Além das imagens expostas no Museu Nacional da República, os hereros serão tema de documentário ainda em fase de edição.


Guerra se limitou a cinco grupos distribuídos pelo deserto no interior de Angola. “Os hereros são uma raiz étnica, vieram do norte da África há mais ou menos 800 anos. Se instalaram na região e se dividiram em grupos. Adquiriram uma língua própria e uma forma de se vestir. No fundo, o que me atraiu foi meu desejo de conhecê-los, de me aproximar de outras lógicas que não eram a minha”, conta o fotógrafo.


Não há intenção documental alguma no ensaio de Guerra. A intimidade cultivada entre os hereros encontra refúgio em retratos expressivos que, vez ou outra, deixam entrever o modo de vida da etnia. “É uma exposição muito estética. Gosto de fotografar pessoas e o que mais me atrai na fotografia é conseguir enxergar pessoas de forma bonita. O ensaio não tem um critério documental e não é antropológico.”


Hereros
Coleção inicial do acervo do Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, visitação até 23 de outubro, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional da República (Esplanada dos Ministérios)

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