
A cantora Patrícia Ahmaral acredita que cada disco conta uma história, com começo, meio e fim. ;À medida que as músicas aparecem, vou identificando um roteiro e organizando-as de acordo com essa ideia;, explica. A de Superpoder, CD que ela acaba de lançar, é sobre amor e querer. ;Nesse caso, eu tinha no início, não um roteiro, mas um argumento: todas as canções falam de amor, não necessariamente o romântico, mas da força amorosa. Outro argumento era essa história do querer, que também aparece bastante. O amor e o querer são muito amigados;, resume a artista mineira.
Superpoder é o terceiro álbum de Patrícia e chega sete anos depois de Vitrola alquimista, que, por sua vez, foi antecedido por Ah, de 1999. Mudanças na vida pessoal ; que incluem o casamento e a transferência de Belo Horizonte para São Paulo ; fizeram com que aumentasse o intervalo entre um disco e outro. ;Acho que todo artista mistura arte e vida. E esse disco me pegou em um momento de mudanças profundas. Ele reflete o fechamento de um ciclo ; se é que isso existe (risos). À medida que vivenciei experiências, as canções foram aparecendo de acordo com o que ia emergindo. Comecei a idealizar o disco em 2007 e só em 2010 vislumbrei um set. Mas também foi num minutinho;, conta.
Assim como Ah! e Vitrola alquimista, Superpoder teve produção independente, amparada por patrocínios proporcionados por leis de incentivo à cultura. Como os anteriores, traz repertório que revela uma artista de ouvido atento e desprovido de preconceitos. A balada O tempo vai apagar (Paulo César Barros/Getúlio Cortes), antigo sucesso de Roberto Carlos, divide espaço com a suingada De romance, inédita de Zeca Baleiro (que, vale lembrar, produziu Ah); sonoridades nordestinas e rock se entrelaçam em recriações de Mamãe coragem (Caetano Veloso/Torquato Neto) e Espelho cristalino (Alceu Valença); e a doçura de Wander Lee e o romantismo ácido de Totonho também estão lado a lado sem conflito ; eles assinam, respectivamente, Desejo de flor e Eu mandei meu amor pro espaço.
A escolha das canções, Patrícia conta, se dá basicamente pelo gosto pessoal. ;Simples assim; (risos). Mas isso acaba sendo tarefa difícil para quem formou esse gosto saboreando a diversidade musical que, tempos atrás, habitava as ondas do rádio. ;É curioso, mas, em minha adolescência, ouvi mais rádio do que disco ; ainda que escutasse também os LPs que meus irmãos mais velhos levavam para casa. E é na adolescência que a gente forma o pensamento, o gosto; Talvez isso tenha me dado essa amplitude.;
Uma das coisas de que Patrícia aprendeu a gostar quando ouvia rádio foi música nordestina. ;É uma coisa forte daquele momento de adolescência;, diz a cantora, tentando explicar o porquê da presença de tantos nordestinos no disco: o paraibano Totonho, os pernambucanos Alceu e Lula Queiroga (autor da música-título), o cearense Belchior (Alucinação), o baiano Caetano e o piauiense Torquato. ;Estava fechando a listinha e ia observando isso, mas não foi intencional, a canção me pegou.; Na verdade, ela conta, no início a intenção era fazer um disco que misturasse rock e baião: ;Só que outras músicas foram aparecendo e deixei fluir;.
Desejo de flor, do mineiro Wander Lee, por exemplo, entrou como contraponto à mistura nordestino-roqueira. ;É importante ele estar no CD porque ajuda a reforçar minha essência, que é totalmente BH. Ajuda a fazer esse diálogo, pois a música dele é melodiosa, mais barroca, valoriza a voz; Mas é especial também porque admiro muito o trabalho dele.; É a primeira vez que Patrícia grava uma música do conterrâneo, de quem é amiga há cerca de 15 anos. Superpoder também traz a primeira parceria dos dois, Revoada. A cantora também assina, sozinha, Do querer e Sorry, baby (esta com participação de Chico César). Compor, no entanto, não é uma prioridade: ;É espontâneo, não coloco foco nisso e estou me permitindo experimentar essa história da composição, porque me considero muito mais intérprete;.
; Paz e amor
Além de Chico César, Superpoder conta com Lucinha Turbull, roqueira que integrou o Tutti Frutti, de Rita Lee, e fez sucesso em 1979 ao gravar Aroma (Gilberto Gil). Quem aproximou as duas foi Rossana Decelso, amiga em comum. ;Fiquei honrada de trazer para o disco figura tão importante para a história da música. Afinal, ser a primeira mulher a tocar guitarra no Brasil não deve ter sido fácil;, lembra Patrícia. Lucinha compôs Trilha de luz e participa nos vocais. ;Embora tenha sido feita hoje, a música traz o DNA do que ela viveu numa época, aquela coisa do poder do amor, que faz tanta falta. Combina com o espírito do disco, tem tudo a ver com o que eu queria e foi um presente dela.;