Diversão e Arte

Melancolia, do dinamarquês Lars von Trier, é carregado de autoreferências

postado em 20/10/2011 09:12

Melancolia, de Von Trier: cineasta envolvido em polêmica sobre Hitler

A lotação completa do Cine Brasília para a sessão do filme Melancolia na noite do último dia 14, como parte da programação da mostra CCBB em Cartaz, foi a prova da carência de cinéfilos brasilienses em relação aos títulos que perderam espaço na programação da cidade desde que o circuito de arte foi interrompido. O grande número de espectadores que precisaram se acomodar no chão do espaço lembrava as sessões mais disputadas do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Por completo desinteresse dos exibidores daqui, o filme que estreou em agosto no resto do país não foi apresentado regularmente na cidade. A sessão da última sexta-feira provou que os distribuidores estavam errados.

Ao lado de A árvore da vida, de Terrence Malick, o novo filme do dinamarquês Lars von Trier foi um dos mais comentados deste ano no circuito mundial. Talvez pelos motivos errados. Trier foi banindo do último Festival de Cannes ao se declarar admirador do ditador Adolf Hitler. Saiu perdedor da competição sem a Palma de Ouro justamente para o filme de Malick. Na vida pública Trier pode até causar desconforto, mas na tela o diretor está cada vez mais seguro da persona artística que construiu desde o lançamento dos filmes do movimento dinamarquês chamado Dogma 95. A assinatura de autor é evidente e, nesse caso, carregada de autoreferências.

Assim como Dançando no escuro (2000), Dogville (2003)e Manderlay (2005), ele adota o ponto de vista de personagens femininas. Neste caso, duas irmãs Justine (Kirsten Dunst, eleita melhor atriz em Cannes) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Dividida em dois capítulos, a narrativa dedica-se primeiro ao desenrolar dos acontecimentos no dia do casamento de Justine. A insatisfação da noiva é apenas o começo do desmoronar do castelo de aparências, quase um aquecimento para a colisão que o espectador sabe que vai acontecer desde a introdução do filme. Para os personagens, a razão do mal-estar está na dúvida sobre as consequências da aproximação do planeta Melancolia avançando na rota de translação da Terra.

Justine sente-se de alguma forma atraída pela força gravitacional do corpo celeste, enquanto Claire (que dá nome ao segundo e último capítulo do filme) coloca-se em oposição ao ceticismo do marido milionário e astrônomo, John (Kiefer Sutherland). O estado de impotência ante o desenrolar dos acontecimentos é o mesmo experimentado no filme anterior, Anticristo (2009). O fim do mundo é vivenciado aqui sem a histeria ou o corre-corre próprios do cinema hollywoodiano. Apesar de manter a forma inconfudível, o efeito do estilo Trier perde um pouco da intensidade neste Melancolia, incômodo o suficiente apenas para ser um dos filmes mais comentados do ano. A fita será exibida em mais duas sessões na mostra CCBB em cartaz.

CCBB EM CARTAZ

Próximas sessões de Melancolia, de Lars von Trier, no Cine Brasília (106/107 Sul; 3244-1660): sábado, dia 22, às 21h, e 30 de outubro, às 20h50. Entrada franca. As senhas são distribuídas uma hora antes da sessão. Não recomendado para menores de 14 anos

Assista ao trailer do filme Melancolia, de Lars von Trier:

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