Diversão e Arte

Manassés de Souza escolheu a capital federal para viver e tocar a carreira

Irlam Rocha Lima, José Carlos Vieira
postado em 23/10/2011 12:50


Há menos de cinco meses, Brasília ganhou um morador ilustre: Manassés de Souza ou simplesmente Manassés, para amigos e fãs. Aos 57 anos, e instrumentista desde os 4, o cearense de Maranguape, que já morou em São Paulo, Rio e até Paris, escolheu a capital federal para viver e tocar a carreira. Tocar mesmo. Nesta conversa com o Correio, ele fala do seu começo musical, do Pessoal do Ceará e dos artistas que acompanhou em inúmeros shows e gravações, principalmente Fagner e Chico Buarque. Não esqueceu suas origens artísticas, ao ressaltar os mestres Jacob do Bandolim, Dilermando Reis, Waldir Azevedo e Luiz Gonzaga.

Como e quando você teve o primeiro contato com a música?
Foi com meu irmão mais velho, Messias, que tocava violão. Eu tinha uns 4 anos, em 1958, e gostava de mexer no violão dele, aos pouco comecei a fazer umas melodias e a tocar músicas dos outros, mas o Messias não gostava de gente mexendo no violão. Certo dia, meu pai me pegou pelo braço, nessa época morávamos em Maranguape, e ele disse: ;Vamos pra Fortaleza, pegue o violão do seu irmão;. Não entendi muito bem o que ele queria e seguimos rumo a Fortaleza. Chegando lá, fomos direto para a Praça do Ferreira, um local tradicional da cidade, ele sentou-se num banco e disse: ;Toque aí, meu filho;. E comecei a tocar. Aos 4 anos já sabia alguns chorinhos, Sons de carrilhões (João Pernambuco), Marcha dos marinheiros, de Dilermando Reis, e outras canções. Foi juntando gente, muita gente; e ele começou a passar o chapéu. Toquei uns 40 minutos, mais ou menos. Depois da apresentação, meu pai me levou a uma loja de instrumentos em frente à praça e eu comprei meu primeiro violão.

Quando você se sentiu um violonista a ponto de partir para a carreira musical, ser um músico profissional?
Passei a infância tocando na feira de Maranguape, minha tia era dona de um restaurante. Todo sábado ia pra la tocar, ao final, ela me dava um dinheirinho. Meu pai era evangélico e eu também fazia serenatas evangélicas, além de tocar na banda da igreja. Foi aí que surgiu um grupo britânico chamado Beatles, resolvemos fazer um ;conjunto; para tocar nos bailinhos da cidade e festas de aniversário. Mas aí o pastor soube e falou para o meu pai que eu não poderia servir a dois senhores ; a Deus a ao diabo, na cabeça do pastor. Achava que meu pai me impediria de tocar no conjunto, mas ele me perguntou: ;Com quem você quer tocar?; Escolhi tocar com os Barra Limpas e deixei a banda da igreja. Os Barra Limpas também tinha muito a ver com a Jovem Guarda, nos anos 1960, com Renato e seus Blue Caps e Os Incríveis. O pastor ficou muito p... da vida e me afastou da igreja (risos).

E depois dos Barra Limpas?
Aos 12 anos comecei a tocar numa banda de baile mais estruturada, que viajava pela região.

Dos grandes mestres da música, quais te influenciaram mais?
Jacob do Bandolim, Dilermando Reis, Waldir Azevedo e Luiz Gonzaga foram meus guias no universo da música. Mas na história de conjunto de baile, acabei me envolvendo com a guitarra por alguns anos; foi quando conheci o Pessoal do Ceará (Rodger Rogério e Téti) e fui convidado por Téti para ir a São Paulo participar do grupo; nessa época, Ednardo já estava em carreira solo graças a Pavão Misterioso.

A sua primeira participação em disco foi com o Pessoal do Ceará?
Foi sim, no álbum Chão sagrado. Um LP de Roger e Téti.

Como foi essa relação com os conterrâneos?
A grande luz da minha vida foi ter conhecido o Pessoal do Ceará. Saí dos bailes para os palcos. Com 18 anos, nunca tinha visto nenhum show em um teatro. Quando Roger me chamou para tocar com eles, num grande show no Teatro José Alencar, tive a oportunidade de assistir o Quinteto Violado. Fiquei encantado. Fiquei doido com a interpretação da viola de Marcelo Melo. Me apaixonei pelo som da viola. Tempos depois, Roger me emprestou (para sempre) uma viola Del Vecchio (risos).

E Paris? Como você foi parar na capital francesa?
Estava morando em São Paulo quando fui convidado para ir a Paris como integrante, tocando cavaquinho, de um grupo de samba. Um empresário português tinha vindo ao Brasil atrás de instrumentistas do Rio e de São Paulo que não se conhecessem. Queria evitar panelinhas e pressão por salários melhores. O nome da casa era Via Brasil e fiquei seis meses com eles.

Foi nesse período que você se aproximou do rock?
Não. Como havia tocado em bailes na adolescência, Beatles já fazia parte da minha cultura musical. Mas na França, comecei a fazer um trabalho meu, autoral. Toquei com Jorge Mustaqui, Claude Nougaro, Bernard Lavilliers, fizemos algumas parcerias. Depois voltei ao Brasil e me juntei ao grupo de Raimundo Fagner.

Com Fagner, você ficou muito tempo?
Fiquei 15 anos, mas nesse meio aí toquei com Zé Ramalho, porque o Fagner não gostava de trabalhar (fazer shows). Ele estourou, ganhou uma boa grana e foi ser executivo de uma gravadora (comandava o selo Epic). Foi aí que ele produziu meu primeiro disco, em 1979, Manassés, totalmente instrumental. Na verdade, ele me jogou no estúdio com gente boa, como Dino Sete Cordas, e disse: ;Te vira aí, que não tenho tempo pra ficar produzindo ninguém, não;. Acabou eu mesmo me produzindo, sem muita experiência. É um disco que deveria ser mais bem trabalhado. Toquei também com Gal Costa, Nara Leão, Roberto Carlos;

Você também fez alguns shows com Chico Buarque;
Sim. Participei de show no Uruguai, no Festival Latino-Americano da Canção, com ele e outros artistas, como Fagner e Martinho da Vila. Depois ele me chamou para uns oito a 10 shows.

E como foi esse convívio?
Muito legal, é uma pessoa muito agradável. Teve um episódio em que a gente estava voltando de Manágua, via Miami, e, quando entramos no avião, uma mulher falou: ;Chico Buarque aqui na classe econômica?; E ele, tímido, se encolheu todo. Quando sentamos , ele comentou: ;Se eu estivesse na primeira classe, ela ia dizer: ;O cara fica cantando aquelas músicas, mas viaja de primeira classe;; (risos). Quando estávamos acomodados, chegou um comissário de bordo e disse: ;Seu Chico, o piloto está sabendo que o senhor está aqui e, como há lugar vago na primeira classe, quer saber se o senhor deseja mudar de lugar;. E o Chico respondeu: ;Estou viajando com o músico que toca comigo, se tiverem dois assentos nós iremos;. Mas, segundo o comissário, só havia uma vaga para ele. Então Chico rebateu: ;Vamos ficar aqui mesmo;. Mais tarde veio uma aeromoça oferecendo vinho francês da primeira classe. E ele (risos): ;É só pra mim, ou ele pode beber também?;. A aeromoça disse que era para os dois. E Chico: ;Pode servir à vontade;. Viemos bebendo vinho de lá até o Brasil. (risos)

Você tem quantos discos instrumentais?
Contando com três trilhas para balé, são 10 álbuns.

E as parcerias?
Tenho desde os anos 1970. Com Petrúcio Maia (Morena Penha), Salgado Maranhão (Flecha certeira), Fausto Nilo (Palavra de amor) e com o próprio Fagner (Flor do algodão), Clôdo (Poema banal), Climério (Escombros da cidade), e tantas outras.

Viola, violão, guitarra, cavaquinho, qual o instrumento com que se sente mais à vontade?
É uma pergunta difícil, porque depende da ocasião e do lugar. Me sinto muito bem tocando cavaquinho, a viola também; guitarra já descartei ; a concorrência é muito grande. Para piorar, aqui no Brasil você só toca bem se tocar igual aos americanos. Quem tem um estilo próprio não faz sucesso.

Como é que Brasília entrou na sua vida?
Lancei meu segundo disco, Pra você, aqui em Brasília, na Sala Funarte, em 1985. Foi muito bem recebido pela crítica local, a sala ficou lotada. Desde então, comecei a vir muito para Brasília, fiz grandes amizades nesses anos. Quando resolvi sair do Ceará de novo, por conta de uma política cultura quase assassina em relação à verdadeira música cearense ; hoje em dia, só se ouve aquele forró eletrônico ;, escolhi Brasília para viver e seguir minha carreira.

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