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Estado de Minas

Mostra Internacional de Cinema de SP homenageia Elia Kazan


postado em 25/10/2011 10:44

(foto: Hans Edinger/AP Photo - 18/2/96)
(foto: Hans Edinger/AP Photo - 18/2/96)

São Paulo — Mesmo com a morte do criador Leon Cakoff, no último dia 14, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo manteve-se firme e coerente na decisão de investir no critério do ineditismo a partir deste ano. Até 3 de novembro, só podem ser exibidos filmes estrangeiros que não tiveram nenhuma sessão no Brasil e filmes nacionais que nunca foram exibidos em São Paulo.

Mas o atrativo mosaico de títulos inéditos não tirou o brilho da recuperação da obra do cineasta turco radicado nos Estados Unidos Elia Kazan (1909 — 2003), um dos destaques da edição. Nos anos 1950, o diretor foi acusado de denunciar colegas do Partido Comunista Americano ao Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas durante o período do macartismo. Esse se tornaria um estigma que o perseguiu até a morte em 2003.

Apesar de se manter cautelosamente distante das perguntas sobre o episódio, a viúva do cineasta, a escritora Frances Kazan, comentou a controvérsia com pesar. “É uma pena porque ele conseguiu construir um legado fílmico importante. Esse episódio sempre será controverso. Assistir aos filmes dele sem o filtro da controvérsia pode ser muito interessante. Elia foi um grande artista”, salientou, sobre o diretor de Uma rua chamada pecado e Sindicato de ladrões.

Kazan foi um dos primeiros diretores a investir em atores como Marlon Brandon e James Dean. O último estrelou uma das obras-primas do cineasta. “Estive tão ocupada aqui em São Paulo durante esses dias que só consegui rever Vidas amargas (1955). Não lembro quantas vezes o assisti, mas toda vez que assisto tenho a impressão de ter visto um ótimo filme. Consigo enxergar coisas novas que eu não tinha reparado ainda. Acho que nossa percepção muda ao longo da vida”, constatou Frances.

Laranja mecânica

Outros cineastas ganharam homenagens nesta edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O documentário Era uma vez… Laranja mecânica reúne depoimentos sobre a produção do clássico de Stanley Kubrick, Laranja mecânica (filme também exibido na mostra). O produtor e amigo pessoal de Kubrick, Jan Harlan, esteve no país para fazer as apresentações dos dois filmes. “Sem dúvida, a herança mais importante do Kubrick é a crítica em relação a nós mesmos. Os filmes dele nos ajudam a enxergar com as luzes apropriadas. Ele era um otimista na vida privada, mas muito pessimista em relação ao futuro. Ele tinha um respeito enorme com a vida, isso fica claro por exemplo em 2001 – Uma odisseia no espaço. Por isso, seus filmes não ficam datados”, acredita Harlan.

Estreante em longas-metragens, o cineasta italiano Samuele Rossi, 27 anos, foi a São Paulo para apresentar o filme O caminho para casa. Mostrou-se disposto a analisar a situação atual do cinema italiano. “A grandeza e a ruína do cinema italiano estão na política de autor dos anos 1940. Nessa época, surgiram vários diretores que poderiam ser considerados gênios, como Federico Fellini, Vittorio de Sica e Roberto Rosselini. Hoje, só tem Nani Moretti. O ano de 1945 foi o ano zero do cinema italiano. Mas, não dá para construir uma indústria cinematográfica baseada apenas em gênios. Ao mesmo tempo, o cinema italiano perdeu a singularidade quando esses guias se perderam”, acredita Rossi. O exemplo é da Itália, mas poderia servir para muitos outros cinemas de outros países.

Para conseguir assistir a maior quantidade de filmes dos 250, exibidos até 3 de novembro, é preciso se organizar. Muitos cinéfilos riscam tabelas diárias com a previsão das sessões e o deslocamento (quando necessário) entre os 15 espaços que abrigam as sessões da mostra espalhados pela capital paulista. A organização é imprescindível. O atraso em uma sessão pode significar que o filme seguinte deixará de ser visto. A caverna dos sonhos perdidos, documentário em 3D, de Werner Herzog, e Fausto, de Aleksander Sokurov, (dois títulos muito aguardados) ainda integrarão a programação nas próximas semanas.

* A repórter viajou a convite da produção do evento

Caça aos comunistas
Sob a Guerra Fria, os Estados Unidos empreendem a perseguição aos comunistas, que ganhou velocidade sob as ações empreendidas pelo senador Joseph Raymond McCarthy. Entre muitas medidas, o congressista aprovou a formação de comitês e leis que determinavam o controle e a imposição de penalidades contra aqueles que tivessem algum envolvimento com atividades antiamericanas.

Cerrado Hollywood
A única produção da região Centro-Oeste selecionada para participar da Mostra é o documentário brasiliense Hollywood no cerrado, de Tânia Montoro e Armando Bulcão. O filme recupera a história das atrizes norte-americanas Joan Lowell, Janet Gaynor e Mary Martin, estrelas do período mudo norte-americano que resolveram se mudar para a cidade goiana de Anápolis, durante a década de 1950. Lá elas viraram fazendeiras e comerciantes. A sessão de domingo à noite no Espaço Unibanco da Rua Augusta ficou lotada. “As pessoas estão comentando a respeito do filme e atraindo mais gente para as sessões”, contou a diretora.

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