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Estado de Minas

Novo CD de Marisa Monte retoma a parceria com os Tribalistas


postado em 04/11/2011 08:46

Marisa:
Marisa: "Meu trabalho sempre foi simples, porém, simplicidade, para mim, não é sinônimo de superficialidade" (foto: Dora Jobim/Divulgação )

Tribalistas, o álbum que reuniu Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, lançado em dezembro de 2002, transformou-se num dos mais desejados presentes de Natal daquele ano. O disco vendeu 1,5 milhão de cópias no Brasil e mais de 600 mil no exterior. Nove anos depois, ao gravar O que você quer saber de verdade, seu oitavo CD, Marisa voltou a apostar naquela vitoriosa parceria. “O projeto Tribalistas foi consequência de nossa parceria, que já existia havia uma década. Essas canções do novo disco foram feitas nos últimos três anos”, comenta.

Em 10 das 14 faixas do novo trabalho, a cantora se associa a Arnaldo, Brown e a Dadi, o quarto tribalista, para criar canções simples, mas ao mesmo tempo com um viés de sofisticação — traço comum no que ela vem produzindo ao longo da carreira —, que possibilita prazerosa absorção, tanto para ouvintes mais exigentes quanto para fãs que costumam consumir vorazmente tudo o que é oferecido por Marisa.

O registro de O que você quer saber de verdade foi feito em sessões no estúdio caseiro da cantora e compositora, que assina a produção com o amigo, vizinho e contrabaixista Dadi (ex-Novos Baianos e A Cor do Som), integrante da banda que a acompanha. Ainda bem, uma das 12 faixas inéditas, foi o primeiro single, liberado em streaming, e já ultrapassou a marca de 1,2 milhão de acessos — incluindo as exibições do clipe da música no YouTube, em que Marisa aparece dançando com o lutador Anderson Silva, campeão mundial dos pesos médios do UFC. “Tem muitas músicas fortes no disco, mas escolhemos Ainda bem primeiro porque é uma música positiva, feliz, alegre e tinha potencial para representar bem o disco. Mas vejo O que você quer saber de verdade ainda melhor em sua integralidade”, acredita a cantora.

Melodicamente, a maioria das composições, já numa primeira audição, soa familiar. As letras, com mensagens claras e objetivas, contribuem para que haja fácil assimilação. “Meu trabalho sempre foi simples, porém, simplicidade, para mim, não é sinônimo de superficialidade. Essa simplicidade eu busco quando faço minhas canções”, afirma. “Não tinha motivo para fazer ou não um disco popular. Eu apenas escolhias músicas com as quais tive mais afinidade, que estavam de acordo com o meu desejo nesse momento.”

Ao classificar O que você quer saber de verdade como “um disco solar”, a artista, obviamente, se refere a canções com letras que sugerem fruir a vida com leveza, o bem viver ao lado de quem ama. Entre as canções com essa temática estão Depois, Amar alguém, Hoje eu não saio não (um baião estilizado) e, principalmente, Seja feliz, além, é, claro, da faixa-título.

O tango Lencinho querido (Juan de Dios Filiberto e Gabono Coria Penaloza) — sucesso de Dalva de Oliveira, da era de ouro do rádio — é uma das releituras do CD. Marisa conta que havia cantado inicialmente num show com o grupo argentino Café de los Maestros, que participa da faixa. “Já a conhecia desde os meus 15 anos. Sempre gostei de música antiga brasileira. Adolescente, fuçava os discos da minha avó e do meu pai”. Quanto a Descalço no parque, um lado B do segundo disco de Jorge Ben Jor (à época Jorge Ben), a cantora diz: “Costumava tocar essa música em casa, nas passagens de som”.

Para o novo CD, Marisa trouxe músicos com quem ainda não tinha trabalhado, entre eles o multi-instrumentista Gustavo Santaolalla, Pupillo, Dengue e Lúcio Maia (Nação Zumbi), e os tecladistas norte-americanos Thomas Bartlett (Deveman) e Money Mark (Beastie Boys), e os compositores Rodrigo Amarante (ex-Los Hermanos), autor de O que se quer; Marcelo Jeneci e Chico Salém (coautores de Hoje eu não saio não); e André Carvalho (filho de Dadi), que compôs Nada tudo.

 

CRÍTICA // O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE ***

 

Celebração do prazer de viver

Rosualdo Rodrigues

 

Intencionalmente ou não, uma ideia alinhava as 14 músicas que formam o novo disco de Marisa Monte: a de celebração ao prazer de viver. Saber o que se quer, deter-se no que realmente importa, viver em harmonia com o mundo ao redor, amar sem reservas. Mensagens assim aparecem em faixas como O que você quer saber de verdade, Amar alguém, Ser feliz, O que se quer… E a afirmação da possibilidade de se fazer um mundo melhor a partir da postura interior, que já dominava o intimista e delicado Infinito particular, desta vez se alterna com a exaltação ao prazer, que pode vir na forma de amor correspondido (Ainda bem, Era óbvio), na lembrança de uma antiga valsinha de romantismo ingênuo (Lencinho branco) ou em canções radiofônicas tão banais quanto deliciosas (Aquela velha canção, Ainda bem).

Tudo isso cantado na voz de sereia de Marisa Monte seria bastante para fazer de O que você quer saber de verdade um disco no mínimo agradável. Mas Marisa oferece mais. Ela tem o grande mérito de fazer de sua música um produto de massa, mas confeccionado com requinte artesanal. A simplicidade está na poesia direta, de fácil comunicação, e nas melodias doces e envolventes. A sofisticação está na sonoridade, na instrumentação, que se constrói em função da delicadeza da própria voz da cantora, resultando em arranjos refinados. Essa combinação é que faz com que o novo disco — assim como os anteriores da cantora — tanto possa ser ouvido em uma festinha de gente cabeça quanto pela moça suburbana que apenas quer música para ouvir alto e cantar junto enquanto faz a faxina de fim de semana. Nas mãos e na voz de Marisa, a sigla MPB nunca fez tanto sentido.

 

Assista ao clipe de O que você quer saber de verdade:

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