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Estado de Minas

Hip-hop sai das periferias e invade os centros de classe média de Brasília


postado em 20/11/2011 08:00 / atualizado em 18/11/2011 11:22

Emicida faz do exercício da consciência negra uma tarefa diária (foto: Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press )
Emicida faz do exercício da consciência negra uma tarefa diária (foto: Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press )

O Plano Piloto pulsa uma nova batida, a do rap, em festas como Makossa, Funfarra e Confronto Soundsystem, que fervem nas ruas do centro da capital. Encontros como esses não são novidade. A boa nova é a forte presença do público em movimentos que valorizam o ritmo. Parte se deve também à visibilidade de quem participa dessas ações. “As festas black aumentaram, mas acredito que seja por uma questão natural de crescimento populacional. Elas são muito livres e nelas cabem jazz, rap, samba e vários outros ritmos, do pop ao underground, dos sons antigos aos atuais, para todo tipo de público. É a festa da diversidade”, comenta o DJ Pezão do coletivo Criolina, que costuma tocar black music nas noites de segunda-feira, no Bar do Calaf.


Para Roberto Daia, DJ da equipe Da Bomb, o aumento não é tão notável. “Os espaços estão voltando a se fechar. Ultimamente, o pessoal tem dado preferência para outros estilos, como sertanejo e funk. Para o hip-hop acontecer aqui no Plano, a periferia precisa “invadir” o lugar. Ainda existe uma resistência muito forte, mas ainda sim Brasília se destaca no cenário nacional com muita força. Acho que o movimento hip-hop da cidade tem bastante qualidade”, diz Daia, que completa: “O Plano Piloto é, na verdade, um ponto de encontro. No Distrito Federal, temos, atualmente, uma força no lado norte (Planaltina, Sobradinho) e no lado sul (Recanto das Emas, Samambaia). Quando o evento é no Plano Piloto, vem todo mundo para o centro. Mesmo que os moradores do Plano Piloto não compareçam, o pessoal da periferia toda se reúne”.
Do ponto de vista de Alan Jhone, o hip-hop cresceu, mas há uma falta de engajamento por parte dos artistas. “Falta comprometimento com o trabalho de base, com os jovens. Os artistas precisam se envolver com o terceiro setor, buscar alunos. O trabalho acontece, mas poderia ser mais forte com pessoas envolvidas e engajadas”, observa o dançarino que, por 12 anos, participou do DF Zulu Breakers, no qual teve a oportunidade de viajar pelo mundo e competir na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, ele faz parte do Insteps Crew, grupo formado por alunos das oficinas que ministra. Foi a partir desse trabalho que ele foi convidado a ensinar break dentro do Caje.

A voz do negro
Para essa turma que faz hip-hop na cidade, quando a questão é o negro dentro do gênero, eles acreditam que ele serve como um pilar para a discussão do racismo. “Com certeza, o hip-hop é um porta-voz para a luta contra o racismo, mas ele é ainda meio homofóbico. Acho que tem que lutar para todos os lados”, fala Anderson Benjamim, vocalista do Ataque Beliz. Para ele, as pessoas têm medo de chamar o outro de negro. “Não existe esse lance de moreno. Ou se é negro ou se é branco. Alguns acham que o racismo não existe. Tem que conscientizar a galera, para ver se dá uma mudada. O século virou e continua a mesma perseguição. Acho que temos que continuar na luta”, insiste.


“Não seja um imbecil/ Não seja um ignorante/ Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante”, diz o rap Racismo é burrice, do cantor Gabriel, o Pensador. A letra é uma das inúmeras que tratam da discriminação racial e social. O rap, o grafite e o break são responsáveis por colocarem a discussão à mesa. “A essência do hip-hop é o orgulho de ser negro, é o orgulho de você sair de uma situação de pobreza e falar para todo mundo que você também tem direitos. Hoje, ele tem outras vertentes, mas é preciso conservar essa essência. A partir do momento em que o hip-hop deixar essa luta, ele vai virar outra coisa”, aponta Roberto Daia. “A cultura hip-hop não tem cor, nem classe social”, resume Alan Jhone.

 

» Entrevista // Emicida

Vencedor nas categorias “Artista do ano” e “Clipe do ano”, com Então toma, no VMB, o cantor Emicida é hoje um dos principais nomes do rap nacional. Depois de uma temporada de três semanas em Nova York, o rapper (que, na verdade, chama-se Leandro), conversou por telefone com o Correio sobre hip-hop, consciência negra e elogiou a cena musical no DF: “Adoro tocar aí. Todos os shows são sempre históricos. Da cidade, conheço o Japão, o Gog, o pessoal do Ataque Beliz e a Ellen Oléria, que é uma cantora maravilhosa”, comenta.

Você fará algum show especial hoje? É a favor da data?

Vou cantar em São José dos Campos, mas é um show da turnê. Não é tão especial ressaltar o dia 20 de novembro porque nós trabalhamos a temática o ano todo, então a gente só reitera o que fizemos. Acho que é muito mais importante trabalhar com a essência da data nos outros dias do que esperar chegar o dia 20 para homenagear o povo negro. É o mesmo que esperar chegar o Dia Internacional da Mulher para respeitar as mulheres. Acredito que mais importante do que a data é a conscientização. Ela é festiva, é comemorativa, mas ela é muito mais reflexiva. Temos que analisar todos os pontos nos quais os negros avançaram e o quanto a gente ainda vive em um país racista.

Você que acha que o hip-hop e o rap podem ser veículos para denunciar o preconceito?

A música e a arte sempre foram ferramentas para a denúncia das mazelas que o povo sofre. Muitos artistas acabam denunciando o que eles sofrem na vida. O rap, por ter essa estética de protesto, acaba levando esse termo um pouco mais adiante e fazendo disso sua bandeira principal.

Então ainda existe racismo no Brasil?

Acredito que ainda exista sim. Eu duvido que ainda haja pessoas que creem que o racismo não existe. Pelo amor de Deus, a gente vive em um país extremamente racista. Ainda estamos cumprindo as ordens do colonizador.

A música brasileira tem cor?
O nosso som sempre foi misturado. Desde quando Pixinguinha tocava o saxofone e Noel Rosa fazia música de preto. A música sempre circulou por diversos meios, independentemente de etnia. Ela não tem cor, tá ligado? A música é muito mais emocional. É sentimento puro.

Já que existe preconceito, ele chega até ao movimento hip-hop?

O preconceito é propagado muito pelo entretenimento. Você não vê negros na publicidade, nas capas das revistas. O Brasil é um lugar em que todo mundo é racista, mas, na verdade, todo mundo procura acusar o outro. Por exemplo, aquele caso que aconteceu com o Bolsonaro. Todo mundo acusou ele de racista. Mas a população não se ofende com as revistas, com os jornais, com as propagandas não terem negros.

O que significou ganhar o VMB para você?
Um pequeno passo de uma trajetória muito longa. Infelizmente a gente é dividido em muitas classes, e, para a classe que eu represento, era fundamental levar aquele troféu. Isso acende uma esperança no coração de várias pessoas que acreditavam que o mercado era totalmente corrupto. Foi uma vitória autêntica que enche de ânimo toda uma geração.

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