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Estado de Minas

Banda liderada pela filha do cineasta Glauber Rocha lança o primeiro disco


postado em 30/11/2011 08:00 / atualizado em 29/11/2011 21:42

A inquietude artística de Ava Rocha a levou para trás das câmeras, como cineasta, e para cima do tablado, como atriz. Também no palco, ela deu vazão a outra faceta criativa, a música. Desde 2008, Ava canta no grupo que leva seu nome. Na música e no cinema, a premissa que guia a carioca de 32 anos — filha de Glauber Rocha e Paula Gaitán — é a mesma. “Não penso no gênero da obra, mas na obra em si, sua essência”, ela conta. É essa liberdade que permeia Diurno, primeiro e recém-lançado disco da banda AVA.

O caráter híbrido do álbum, diz a cantora, vem daí. As composições bebem de diferentes fontes — da música brasileira e latino-americana — sem purismos ou amarras. “Digo, meio levianamente, que fazemos MPB. Mas naquela linha de invenção na tradição”, comenta o multi-instrumentista Daniel Castanheira, que morou em Brasília no fim da década de 1980, começo da de 1990, e hoje integra a AVA, ao lado da cantora, do violonista Emiliano 7 e da violoncelista Nana Carneiro da Cunha.

Diurno, diz Castanheira, relaciona-se diretamente com a arte contemporânea, interagindo com cinema, poesia, artes cênicas e plásticas — o que revela um pouco do histórico dos envolvidos, que passa por filosofia, literatura, música sinfônica e trilhas sonoras. “A última música, por exemplo, é um diálogo com as coisas do (artista) Cildo Meireles”, detalha Daniel sobre a faixa-título, uma colagem com todas as canções do disco. A arte da capa, de autoria do escultor Tunga, mostra as cabeças dos quatro integrantes cortadas, reunidas na areia de uma praia.

Emiliano 7, Daniel Castanheira, Ava Rocha (de preto) e Nana Carneiro da Cunha formam o grupo: interação criativa (foto: Daryan Dornelles/ Divulgação)
Emiliano 7, Daniel Castanheira, Ava Rocha (de preto) e Nana Carneiro da Cunha formam o grupo: interação criativa (foto: Daryan Dornelles/ Divulgação)


“Nossa música vem de muito ensaio, muito conceito. E muita intuição, paixão e entrega também. Não diria que é cerebral. Talvez aparente ser mais do que realmente é”, pondera Ava. “Todas as músicas foram muito debatidas. A gente tenta trabalhar de uma maneira muito horizontal, com a participação de todos”, acrescenta Castanheira. “Eles não são músicos contratados. Somos uma banda mesmo”, reforça Ava, sobre a interação criativa do grupo.

Ava Rocha assina a maioria das letras, algumas em parceria, caso de O futuro e Filha da ira, feita com o irmão Pedro Paulo Rocha, e Ela é o samba, com Fredy Állan. Emiliano 7 e Daniel Castanheira também colaboram com composições. Batendo no mundo tem citação de Clarice Lispector e Sé que estoy vivo, de poema do colombiano Jorge Gaitán Duran, avô da cantora. O grupo regravou Movimento dos barcos, de Jards Macalé e Capinam, Bons momentos (de Michel e Marquinhos, lançada por Tim Maia no disco Sufocante, de 1984) e Pra dizer adeus, de Edu Lobo e Torquato Neto.

O disco foi produzido por Felipe Rodarte e, inicialmente, seria todo gravado no estúdio do produtor, o Soma. No meio do processo, Constança Scofiled, do estúdio Toca do Bandido, conheceu o trabalho. “Ela ficou apaixonada pela nossa música. Então, algumas coisas, como piano e vozes, foram gravadas lá. E foi a Constança que fez a ponte com a Warner. Não tínhamos gravadora, não sabíamos como lançaríamos o disco”, lembra Ava.

Na escola do rock
Daniel Castanheira diz que sua maior vivência e aprendizado de rock vem dos anos que morou em Brasília. “Vi muita coisa na cidade, muito rock, Feira de Música no Teatro Garagem, os espetáculos do grupo A Culpa é da Mãe...”, lembra o músico.

Quatro perguntas - Ava Rocha

A vontade de cantar é antiga?
Canto desde pequena. Minha mãe me deu um violão quando eu tinha 12 anos, mas investi mesmo no canto. Na escola, animava as festas, as rodas de música, depois cantei como convidada em alguns shows de amigos músicos, como o China e o Tatá Aeroplano. Cantei em filmes e aí fui para o Teatro Oficina. Lá tive o que considero a minha estreia profissional, no sentido de estar em cena, encarando um público (na montagem de Os sertões). Depois dessa experiência, tomei a decisão definitiva de que eu queria cantar.

Sempre gostou da sua voz?
Sempre adorei a minha voz, sempre achei a minha voz linda. É claro que tenho amadurecido muito como cantora. Dominar a voz é uma experiência. Sempre tive um feedback maravilhoso. Isso foi um elemento encorajador. Ela tem um grave que por vezes assume um lugar mais masculino. Mas nem fico pensando nisso. Sou contralto. E apesar da voz grave, considero que ela tem uma leveza.

Quais são as referências para o seu trabalho com música? E como apresenta a música que faz?
Tenho dificuldade de responder isso. Gosto do conceito de canção expandida, ou de música popular contemporânea, universal. As referências são muitas. Coisas que a gente vai colecionando desde pequeno. Algumas se diluem e outras permanecem. Caetano e Bethânia, com certeza. Gal também. Jards Macalé, Tom Jobim, Ângela Ro Ro, Bjork, Yoko Ono, Frida Kalo, Glauber Rocha, Paula Gaitán, Godard, Pasolini, Itamar Assupção, Sérgio Sampaio, Yma Sumac... é tanta gente. E essas coisas vão se misturando e você as processa no seu universo.

Ser filha de Glauber Rocha deve abrir algumas portas. Mas fecha outras?
Abre portas e pode fechar outras. Mas isso está além de mim. Nunca pedi nada em nome dele. Tenho plena consciência do meu trabalho, seja como cineasta ou cantora. Tenho segurança e certeza das coisas que eu quero. Uma coisa é verdade, com o rigor que tenho, jamais me colocaria numa situação em que pudesse expor de forma negativa o meu pai. Se eu não acreditasse muito no meu valor, não faria. Mas as pessoas são livres, eu teria o direito de fazer isso (pedir algo em nome do pai). No caso, sou muito glauberiana, acho que estou em sintonia com ele. Tá tranquilo.

(foto: Warner/Divulgação)
(foto: Warner/Divulgação)
Crítica - Diurno // Rara beleza
Música que abre Diurno, Doce explosão acaba dizendo mais sobre o disco do que a faixa-título. São as melodias envolventes e as letras imagéticas que permeiam as canções. Mas o trabalho realmente parece se equilibrar em suposto extremos, que na verdade são complementos — como a doçura da voz grave de Ava (que remete a Bethânia e Caetano, mas se impõe com personalidade) e a combustão violenta que vem do conteúdo das músicas do grupo.

A originalidade das ideias e a inventividade dos arranjos pautam as composições. É possível achar signos, traçar diálogos e encontrar diferentes significados nas canções do disco. Sem hermetismos ou cabecismos. Pelo contrário, com uma espontaneidade que convida à audição. Diurno é uma estreia de fôlego. AVA, um grupo para prestar a atenção. Ava Rocha, uma voz de rara beleza. (PB)

Diurno
Primeiro disco da banda AVA, produzido por Felipe Rodarte. Lançamento Warner Music, 14 faixas. Preço médio: R$ 30.

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