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Estado de Minas

Os 30 anos da morte de Elis Regina deságuam projetos que revivem a cantora

Os 30 anos da morte de Elis Regina, completados hoje, deságuam produtos e projetos que mantêm a intérprete atualíssima


postado em 19/01/2012 08:00

(foto: Silvio Ferreira/Abril Imagens)
(foto: Silvio Ferreira/Abril Imagens)

A memória de Elis Regina vai reviver intensamente a partir deste janeiro de 2012. Os 30 anos da morte da cantora serviram de justificativa para fuçar um baú do qual estão prestes a sair exposições, caixas de discos, livros, filmes e uma série de shows, que vão de homenagens organizadas pela família a celebrações pontuais em bares e casas da cidade. Entre o sucesso no programa Fino da bossa, em 1964, e aquele 19 de janeiro de 1982, em que o corpo da cantora foi encontrado trancado no quarto do apartamento nos Jardins (São Paulo), passaram-se 18 anos preenchidos por carreira sempre ascendente, 24 discos e uma coleção de shows transformados em referências da história da música brasileira graças à obsessão técnica típica de Elis. Dessa produção, sai boa parte do material programado para chegar às lojas até o segundo semestre.

No final do mês, a Universal lança as caixas Elis anos 60 e Elis anos 70 com 20 álbuns de carreira e quatro coletâneas organizadas pelo filho da artista, João Marcello Bôscoli, e pelo produtor Rodrigo Faour. Os CDs têm encartes que reproduzem capas e contracapas originais, além de trazerem depoimentos inéditos de músicos e compositores entrevistados por Faour. “O diferencial é que a gente colocou todo os encartes, as letras revisadas e faixas avulsas. E, em vez de fazer um texto só sobre ela, eu quis privilegiar os depoimentos inéditos, que vão fazer um complemento ao que já existe”, adianta Faour.

Dois discos também ganharam revisão do produtor. Em 1978, Elis realizou o show Transversal do tempo e gravou o material bruto. Apenas a primeira parte do espetáculo acabou lançada em disco. A cantora trocou de gravadora e toda a segunda parte do show ficou inédita. Faour trabalhou com esse material, mas, por enquanto, as duas caixas da Universal não incluem as canções inéditas, programadas para chegar às lojas no segundo semestre.

Entre as pérolas, o produtor destaca versões de Construção (Chico Buarque), Esta tarde vi Llover (Armando Manzanero), Maravilha (Chico Buarque e Francis Hime) e Aquarela brasileira (Silas de Oliveira). “Essa segunda parte do show ficou perdida na gravadora, esquecida. Fiquei um tempão tentando fazer e quando ouvi fiquei impressionado. Elis tinha um cuidado muito grande com essa parte técnica. Ela impôs um padrão de qualidade técnica que, na época, a MPB não tinha. Eles desmontaram o estúdio da Polygram e levaram para o ginásio para gravar o show”, conta Faour.

O produtor Zuza Homem de Mello trabalhou nos discos Fino da bossa e O fino do fino e também carrega a lembrança de uma baixinha invocada, sempre zelosa da perfeição sonora dos registros. “Era muito preocupada com isso. A primeira pessoa que ela procurou, no dia da estreia no Fino da bossa, em 1965, fui eu, porque ela queria conhecer o técnico de som. Isso dá uma ideia da preocupação”, lembra.

Ao lado de Falso brilhante, Transversal do tempo está na lista de espetáculos emblemáticos de Elis. Realizado durante a ditadura, tem forte discurso político e escolha de repertório particularmente significativo do momento brasileiro. “Se você ouve o Cena muda, da Maria Bethânia, e esse show da Elis você entende um pouco o que o Brasil estava passando. São músicas muito fortes. E, claro, Elis tinha a serviço dela os melhores compositores do Brasil, no auge da criatividade, e aquele ouvido dela terrível. Ela só gravava o fino.”

Também com áudios inéditos e programado para o segundo semestre, o disco Montreux jazz festival recupera trechos da segunda apresentação de Elis no festival suíço de 1979. Foram duas apresentações naquele dia e apenas a primeira foi lançada em disco. O pesquisador Marcelo Fróes tratou de correr atrás do resto para compilar todos os momentos do show. Além dos discos, a cantora ganhou dos filhos o projeto Viva Elis, série de shows e exposição multimídia com objetos, documentos, fotografias e filmes colecionados por fãs.

Show de Maria Rita
Em 17 março, dia do aniversário de Elis, a filha Maria Rita dará a largada da maratona de homenagens com um show com repertório da mãe no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. A exposição, coordenada pelo cineasta e produtor Allen Guimarães — cuja obsessão pela cantora levou a um emprego na Trama —, tem início no Centro Cultural São Paulo e deve passar por Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O projeto, idealizado por João Marcello Bôscoli, custou R$ 6 milhões e tem patrocínio da Nívea.

No mercado editorial, Elis é alvo de nova biografia. O jornalista Julio Maria trabalha em livro encomendado por João Marcello e o volume deve chegar às livrarias em agosto pela editora Masterbooks. Regina Echeverria, autora de Furacão Elis, passou parte de 2011 debruçada sobre ajustes na biografia que a Leya reedita neste ano. Lançado em 1985, o livro passou por quatro reedições e, em todas elas, Regina acrescentou depoimentos e histórias inéditas. “Dessa vez, apresentei uma entrevista com Paulo César Pinheiro, que foi casado com Clara Nunes, então ele me contou histórias dele com Elis e dela com a Clara. Me esforço tremendamente para esse livro não sair de catálogo, ainda mais agora nos 30 anos da morte dela”, diz Regina.

Jornalista e seis anos mais nova que Elis, Regina conheceu a cantora durante os ensaios de Falso brilhante. “Entrevistei Elis bilhões de vezes. Fui cobrir para o Jornal da Tarde e nos outros lugares pelos quais passei era sempre eu que a entrevistava. E a gente virou amiga, nos encontramos inúmeras vezes.” Segundo a escritora, as duas costumavam falar em uma futura biografia, quando Elis estivesse mais velha e Regina, mais experiente. Mas a cantora morreu prematuramente, aos 36 anos, e a biógrafa decidiu escrever o livro três anos depois.

Ecos em Brasília
A Casa da Cultura da América Latina (CAL) exibe hoje o documentário Falso brilhante, de Roberto de Oliveira, o empresário que tomou Elis pelo braço em 1974 e fez a cantora subir ao palco de um imenso circuito universitário. Com 68 minutos, o filme recupera momentos do show mais famoso da artista. Falso brilhante foi assistido por 280 mil pessoas no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, em 1975. A sessão única acontece hoje, às 12h30, no Auditório da CAL (SCS Qd 4, Edifício Anápolis).

Outra homenagem marca a agenda de Brasília. O Bar do Calaf recebe hoje a cantora baiana Rose Maria com repertório inspirado em Elis. “Ela é uma referência para uma porção de gente que trabalha com música. Vou interpretar canções com as quais ela levou os compositores a fazerem sucesso”, avisa Rose. “Elis tirou do anonimato algumas canções e alguns compositores. Fazer uma homenagem a ela é na verdade homenagear uma gama muito grande de artistas.”

Vem aí

ELIS ANOS 60

Produção: Rodrigo Faour. Universal, 12 CDs, R$ 229.

ELIS ANOS 70

Produção: Rodrigo Faour. Universal, 12 CDs, R$ 229.

O que eles disseram


“Ela não admitia músico que desafinasse, que fizesse harmonia errada. Ela tinha um ouvido fenomenal e muita memória musical”
Zuza Homem de Mello, produtor

“Era um registro de voz muito límpido, cristalino, com uma dicção perfeita e uma sofisticação terrível na escolha do repertório”
Regina Echeverria, biógrafa

“Acho que Elis está cantando cada vez melhor. Por que ela está aí até hoje? Tudo era feito com muito rigor. Ela não fazia nada por acaso, tudo era muito pensado. O ouvido dela era incrível, ela parecia mais um músico da banda”
Rodrigo Faour, pesquisador

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