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Estado de Minas

Bandas de Salvador recriam músicas de Guilherme Arantes

Músicas de Guilherme Arantes são recriadas por bandas de Salvador em coletânea produzida pelo filho do compositor


postado em 23/01/2012 08:00 / atualizado em 21/01/2012 11:18

Guilherme Arantes tem dois discos revisitados: A cara e a coragem e Coração paulista(foto: Letícia Moreira/Folhapress)
Guilherme Arantes tem dois discos revisitados: A cara e a coragem e Coração paulista (foto: Letícia Moreira/Folhapress)

Quando Guilherme Arantes lançou os LPs A cara e a coragem (1978) e Coração paulista (1980), o filho dele, Pedro, nem era nascido. Isso não impediu que, crescido, o rapaz descobrisse os dois bolachões e passasse a nutrir por eles carinho especial. “Só conheci esses discos na adolescência. Acompanhava meu pai mais pelos shows e ele normalmente não tocava essas músicas. Quando descobri os discos, fiquei encantado”, conta Pedro Arantes. Agora, aos 27 anos, o filho resolveu usar as canções de A cara e a coragem e Coração Paulista para prestar um tributo ao pai: convidou nove bandas para interpretá-las na coletânea A cara e o coração, produzida por ele mesmo, em parceria com o sócio Gabriel Martini — “Eu tive a ideia, mas o disco só foi realizado por causa da colaboração do Gabriel”, ressalva.
<b>A CARA E O CORAÇÃO</b><br>CD em que 10 bandas de rock baianas interpretam Guilherme Arantes. Lançamento independente, com distribuição da Tratore. Preço médio: R$ 24.(foto: Carlos Delagusta/Divulgação)
A CARA E O CORAÇÃO
CD em que 10 bandas de rock baianas interpretam Guilherme Arantes. Lançamento independente, com distribuição da Tratore. Preço médio: R$ 24.
(foto: Carlos Delagusta/Divulgação)

“Fiz isso, primeiro, para agradecer pelos 27 anos que compartilho com meu pai e pela possibilidade que ele me deu de trabalhar com a música. Depois, para movimentar mesmo a cena local”, justifica Pedro. A “cena local” a que ele se refere é a de Salvador, para onde se mudou em 2005, ano em que Guilherme fundou, na capital baiana, o estúdio musical Coaxo do Sapo. Desde então, o filho passou a compartilhar com o pai e com Gabriel Martini a condução do negócio, que logo se desdobrou em selo e produtora.

A função o aproximou de músicos da cidade. “Teve uma época em que eu estava escutando direto esses discos e comecei a trabalhar numa produção musical com a banda oCírculo. Conversando com o guitarrista (Taciano Vasconcelos), tivemos a ideia de que uma das músicas podia entrar no disco e daí rolou uma conexão bacana.” Foi o pontapé para o projeto. “Eu ia conhecendo as bandas e via que as músicas batiam muito com o que o pessoal estava cantando. Acabei unindo a vontade de fazer essa homenagem ao meu pai com uma coisa que eu sabia que seria legal para as bandas”, conta Pedro.

MPB remexida

Guilherme Arantes não reagiu com entusiasmo à ideia. “Quando falei pela primeira vez, ele não queria. Preferia que as bandas lançassem músicas delas. Deu a sugestão de fazer um disco coletivo, como faziam nos anos 1980. Ele disse: ‘Não gosto desse papo de regravação, não quero para mim nem para ninguém’. Mas, para essas bandas, eu sabia que o projeto seria bom e era o que eu mais queria. Falei com o Martini: ‘Vamos tocar e depois ele vai reclamar ou não’”. Quando Guilherme ouviu duas faixas prontas, cedeu, e até topou cantar a música de abertura, Viva, com todos os vocalistas das bandas participantes.

A escolha das bandas se deu sem critérios rígidos e de forma natural, mas nem por isso foi fácil, segundo Pedro: “Foi um processo até doloroso para mim, porque eu tinha de escolher, mas não queria passar a ideia de que eu havia selecionado alguma coisa. Ia à cena, via as pessoas tocando, me aproximava… Com algumas, a conversa ficou no meio do caminho”.

Das nove bandas participantes, a metade tem carreira consolidada em Salvador, a exemplo da Radiola, na estrada há 10 anos, ou Maglore, Pirigulino Babilake e oCírculo, todas com CDs lançados. E há também aquelas que até hoje não tinham ainda nenhum registro, caso da Neologia e da Quarteto de Cinco.


Crítica - A cara e o coração ***
Encontro de gerações

Associação improvável à primeira vista — Guilherme Arantes e bandas de rock baianas — mostra-se algo natural em A cara e o coração. É fácil entender: a inquietação juvenil do compositor paulistano em músicas de seus primeiros anos de carreira é de uma sinceridade que pode ser compartilhada por qualquer jovem de qualquer época, pouca importa que existam lá palavras fora de uso, como “vitrola”, ou que (tomando como exemplo A cara e a coragem), a rapaziada já não faça questão de ganhar o mundo — a dificuldade de comunicação entre pais e filhos descrita na música se mantém atualíssima.

“O que sempre me tocou nas músicas do meu pai foram as letras, desses discos em especial”, diz Pedro. Provavelmente, a mesma identificação tiveram as bandas que aceitaram participar do projeto. Nesse caso, sem conflito de gerações, já que os jovens roqueiros baianos se preocuparam em dar sua marca às novas versões, sem descaraterizar tanto as gravações originais. A maioria das músicas da coletânea apenas ganhou um verniz atual, mais rock’n’roll, mas se mantém, em essência as mesmas. (RR)


As bandas
» Maglore (A cara e a coragem, Brasília)
» Hajoe (Não vá pro quarto chorar, Coração paulista)
» Neologia (14 anos, Coração fantoche)
» Quarteto de Cinco (Boa viagem, S.O.S)
» Enio e a Maloca (Brazilian boys, Fantoches)
» Pirigulino Babilake (De igual pra igual, Se você fizer um som)
» Radiola (Show de rock, Estranho)
» oCírculo (Brincos na orelha, 1980)
» Setembro (A noite, Mas ela não quer, mas ela não pode)
» Paxkayab (Adágio)

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