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Estado de Minas

Cultura de Brasília perde um dos seus principais artistas, Jota Pingo


postado em 03/12/2012 09:24 / atualizado em 04/12/2012 13:21

(foto: Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press)
(foto: Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press)

Em uma audiência pública na Câmara Legislativa do Distrito Federal, há alguns dias, Jota Pingo foi chamado a falar. Na ocasião, artistas e políticos discutiam a implementação da Lei de Incentivo à Cultura. Quando ouviu que era a vez de Carlos Augusto de Campos Velho se pronunciar, ele logo corrigiu: “Meu nome é Jota Pingo”. “Investir na cultura não é favor nenhum, somos a terceira área mais rentável do planeta”, bradou, com sua voz grave e rouca. O ator e dramaturgo gaúcho, radicado em Brasília há três décadas e meia e onipresente na cena cultural da cidade, lutou durante toda a vida para colocar a arte em seu devido lugar — que ele acreditava ser o mais alto possível. Na noite do último sábado, aos 66 anos, a voz desse grande agitador cultural brasileiro se calou.

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Pingo estava fazendo compras em um supermercado da Asa Norte, ao lado da companheira, Andrea Gozzo, da filha Alice e de dois netos, quando começou a passar mal. Não havia paramédicos no estabelecimento e houve dificuldade em acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Quando a ambulância chegou ao local, cerca de 20 minutos depois, o artista teve que ser reanimado e foi levado entubado para o Hospital de Base. Lá, aconteceram tentativas de reanimá-lo novamente, mas ele não resistiu e faleceu.

“Recebi a notícia da morte por volta das 23h30”, contou João Gontijo Velho, filho de Pingo, ao Correio. Segundo ele, a causa mais provável do falecimento é um Acidente Vascular Cerebral (AVC), mas só a necropsia poderia confirmar. Pingo era cardiopata, usava marcapasso e já havia sofrido alguns infartos. Ele deixa seis filhos, frutos de cinco relacionamentos, quatro netos e quatro irmãos. O corpo do artista só deve ser liberado hoje da necropsia, e a família não havia se decidido, até o fechamento desta edição, se ele seria cremado ou sepultado, nem o local do velório.

Pingo era irmão do também ator Paulo César Peréio, que manifestou sua tristeza pelo Twitter. “Era cidadão do mundo, agora vive na eternidade dos que o amam e foram por ele amados”, escreveu. “Morri um pouco”. O artista recorreu a um verso do poema Memória, de Carlos Drummond de Andrade, para homenagear Pingo: “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. E finalizou: “Adeus, Pingo, irmão muito amado”.

Marcelo Birck, sobrinho de Pingo, diz ter recebido a notícia via Facebook. Ele é filho de Rosa Maria, irmã mais velha do diretor, e mora em Porto Alegre, assim como parte da família. Pingo era de lá. “Foi um choque. Ele era um cara de presença muito forte, uma figura que certamente deixou várias marcas com quem teve contato”, elogiou.

Mil nomes, mil ideias
Carlos Augusto de Campos Velho era Jota Pingo quando virava intérprete, mas a alcunha acabou se tornando maior que o nome de batismo. O artista também adotava outros pseudônimos: Velho Rocha, como cronista de jornal (escreveu para o Correio e para o Zero Hora, de Porto Alegre); e Peterson Diesel, como dramaturgo. Nascido na capital gaúcha, em 9 de julho de 1946, Pingo começou como ator de teatro em 1965, em São Paulo. Ele se orgulhava em dizer que havia sido o primeiro homem a aparecer nu no tablado brasileiro. Como ator, esteve, por exemplo, no elenco da versão brasileira de Hair, em 1969, e no filme Pindorama, de Arnaldo Jabor.

Em entrevista ao Correio, em 2011, Pingo contou que, a primeira vez que esteve em Brasília, chegou aqui vestindo uma camiseta roxa regata, uma calça jeans com o zíper quebrado e uma sandália 42. “Sendo que eu calço 46”, detalhou. Ele veio liberar o espetáculo Uma tragédia atual, sua estreia como autor. Pingo o montou primeiro no Rio de Janeiro, depois aqui, no Teatro Galpão do Espaço Cultural da 508 Sul. Mas impacto mesmo ele causou com Último rango, em 1981, um banquete teatral em que preparava uma grande sopa com verduras e legumes levados pela plateia. Na ocasião, colocou o jovem Renato Russo no palco para cantar.

Pingo optou por Brasília há 35 anos, e escolheu a região administrativa do Jardim Botânico (na época, ainda não era) para morar, 25 atrás. Passou a vida construindo o Mercado Cultural Piloto, um prédio labiríntico de três andares onde alugava 40 salas comerciais e em que abrigava várias manifestações culturais, dentre elas um cineclube e uma galeria de arte. Ele administrava o lugar e também vivia lá, sozinho. Pingo o construiu com materiais alternativos e reciclados, tudo pensado pela mente inquieta e contestadora do artista. Segundo João Gontijo, nos últimos tempos, o pai estava envolvido na produção de um novo filme.

O que ele disse…

“Tenho certeza que a qualidade vai ser admirada sempre e que a transgressão vai ser a mola propulsora do avanço da própria sociedade. O homem é o que é porque transgrediu.”


“Eu acho que Brasília deveria ser uma cidade sem carro. Automóvel? Só de serviço. Você sai na rua e os caras xingam os ônibus dizendo que eles estão atrapalhando. Que ótica atravessada é essa? Quem atrapalha é carro. É tão legal sentar num lugar em que você pode estar ao lado de gente que você não conhece. No carro, somos uma bolha.”


“Eu via aquele menino (Renato Russo) com a calça toda cortada, uns negócios estranhos no cabelo. Eu o chamei para participar do O último rango. Ele tinha acabado de formar
o Aborto Elétrico.”


“Desde criança, sempre me senti discriminado por conta da minha inteligência e criatividade. É também um dos motivos pelos quais eu me afastei ou fui afastado do jornalismo. Quando você começa a escrever bem demais, tome cuidado. Você pode ser demitido.”


“Eu tinha de anunciar a presença do governador (Joaquim Roriz) e falei assim: ‘Anuncio a presença do governadoooooooooooorrrrrr.’ E as pessoas Uuuuuuuuu! Eu continuei no microfone: ‘O ovo frito, jamais será cozido.’ Ele foi embora e nunca me perdoou.”


“Quando fazemos cultura, estamos fazendo um culto. O culto à cultura é o nosso culto. Somos uma igreja evolucionista, não criacionista. Nossa Senhora é a mãe terra. Darwin, o nosso guru. Que a camada de Ozônio te proteja.”

Confira poemas em homenagem a Jota Pingo

Adeus a Jota Pingo

Já ouvi falar, muita gente diz,
que o último pingo é sempre na cueca.
Mas quem pensa assim é mero aprendiz.
Percebi que não. Descobri! Eureca!

Pingo que se vai é mais um heroi
que nos abandona, ascende, parte,
deixando-nos dor que dentro corrói.
-Mas que nos devolvam aquele estandarte!

A quem mais citar aqui no soneto?
Bide, Brother, Beira, Boi, Charles Preto,
todos construindo o perfil candango!

Foi-se Jota Pingo, foice-e-martelo.
Não choremos, gente! Eu rogo e apelo,
brindemos, enfim, num último rango.
Jorge Antunes

EXTRA, EXTRA, EXTRA

No mercado fazendo

Compras

para seu último rango,

ta lá o corpo estendido no chão,

Extra, Extra, Extra,

Quando o coração repentinamente

sem serpentina na mente

desmente tudo

que sonhava.

O último respiro,

o coração repentinamente

PAROU.

Parou por quê?

Parou porque

Parou ...

É isso,

o coração para,

cansado deste mundo

ele simplesmente decide

Ir para outros

rangos,

e lá se vai o nosso

Jota Pingo.

O mercado que é cultural

Estava extra, extravagante

Extra, extra, extra

É a notícia do jornal de

Hoje, EXTRA.

Joãozinho Da Vila Planalto


Meu amigo J.Pingo

É do teu tamanho

A tristeza deste domingo..................

Renato Matos

 

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