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Estado de Minas

"Ele é um poeta invulgar", define Cleo Berardinelli sobre Fernando Pessoa

A escritora falou sobre o poeta durante entrevista ao Correio


postado em 30/07/2013 09:08 / atualizado em 30/07/2013 10:44

"Ele criou, a partir dele mesmo, outras pessoas" (foto: Casa da Palavra/Divulgação)
Ela prefere que a chamem de Dona Cleo. O apelido carinhoso reflete a relação que Cleonice Berardinelli nutre com seus leitores. E eles são muitos. Professora de carreira, Dona Cleo se tornou uma das mais lembradas acadêmicas do país, principalmente entre as rodas de literatura, nas quais é tratada como sumidade pelos discípulos e seguidores. Entre eles, Maria Bethânia, com quem deverá gravar um disco declamando Fernando Pessoa, poeta favorito.

Desde a graduação, em 1938, as terras de Camões passaram a pautar o magistério e os estudos de Dona Cleo. Dedicada e persistente, entregou diversas obras sobre a literatura lusófona, pela qual passou a ser reconhecida. O legado a levou à cadeira de número 8 na Academia Brasileira de Letras (cuja presidente, Ana Maria Machado, foi aluna de Dona Cleo).

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Apesar da idade avançada, não pensa em parar (“sem trabalho, seria uma espécie de deserto ao meu redor”). Em entrevista ao Correio, Cleonice transborda vivacidade e, pelo ofício latente, leciona sem perceber. A intimidade com Fernando Pessoa, a tornou a maior estudiosa no Brasil do poeta português.

Por que Fernando Pessoa sobressai na literatura portuguesa?
Em primeiro lugar, a qualidade. Ele é um poeta invulgar. Um grande apaixonado por Fernando Pessoa que escreveu um livro disse: “Pessoa é singular, porque é múltiplo. É múltiplo, porque é singular”. Achei essa definição perfeita.

A história conta que o heterônimo favorito de Pessoa era Alberto Caeiro…
O Fernando Pessoa diz em uma carta muito importante escrita ao poeta e crítico literário (Adolfo) Casais Monteiro, que acabou conhecida como “carta sobre a gênese dos heterônimos”, que o Alberto Caeiro nasceu primeiro. Ele afirma: “Sinto que nascera em mim o meu mestre”. Então, Caeiro será considerado por seu ortônimo (a própria pessoa) e pelos outros, como mestre. É o único que morre. Em 1915, o Caeiro morre jovem, puro e inocente. Um poeta especial. Diferente dos outros (Dona Cleo começa a declamar poesias de Caeiro). Quando ele morre, Álvaro de Campos escreve uma página de prosa lindíssima, bastante poética, em que diz: “Mestre, meu mestre querido, coração de meu corpo…”. Há uma relação de reverência dos outros heterônimos para com Caeiro, principalmente de Álvaro de Campos, que é o oposto dele. Campos é torrencial, escreve poemas enormes, como a Ode marítima, com 940 versos.

A senhora consegue imaginar Fernando Pessoa na vida comum?
Longe do escritor, ele nunca andou. Pessoa dizia ser um poeta dramático, que queria escrever dramas em personagens, mas que nunca conseguiu. Ele escrevia drama em gente. Ele nunca escreveu um Hamlet, como Shakespeare. Ele criou, a partir dele mesmo, outras pessoas. Sempre que perguntavam a ele se tinha criado pseudônimos, ele esclarecia que pseudônimos eram nomes falsos do próprio autor. O heterônimo é um outro nome. Ou seja, eram todos na verdade ele próprio. Desdobramentos, diferenciações. Ele se qualifica, em uma carta a dois médicos-neurologistas, como histero-neurastênico (que sofre de transtornos de histeria).

Muitos a celebram como a maior estudiosa de Fernando Pessoa no mundo…

Que pretensão! Eu sou, pelo menos em data, a primeira. Eu fiz a primeira tese brasileira sobre Fernando Pessoa.

Como tem sido a experiência ao lado da “aluna” Bethânia?
Estar com Bethânia é uma coisa boa. Que me faz bem ao coração. Uma pessoa extraordinária. Ela se põe diante de mim como se eu fosse superior, é muito engraçado (risos). Beija-me a mão como se fosse uma antiga aluna. É uma relação encantadora.

Está confirmado o disco que reunirá vocês declamado Fernando Pessoa?

Bethânia já disse: o disco está pronto. Claro que nós vamos refazer alguma coisa, retocar.

Como é o dia a dia da senhora?
A minha vida, embora eu esteja na idade que estou e seja aposentada da Faculdade de Letras (da Universidade Federal do Rio de Janeiro) desde 1986, é recheada. Sempre convidada para conferências, congressos. E não consigo atender nem metade. Acho muito bom. Enquanto estiver trabalhando, estou viva. Só peço a Deus que quando o trabalho cessar, eu também cesse. Sem trabalho, seria uma espécie de deserto ao meu redor.

O que a senhora lia na infância?
Eu comecei a ler versos aos quatro anos. Eu lia o que meu pai punha na minha mão. Meu pai era um militar apaixonado por literatura. Minha mãe adorava poesia. Então, tive um clima em casa. Quando penso nas coisas que lia, lembro que não entendia muito, a não ser que papai tivesse paciência de me explicar palavra por palavra. Vou te dizer o que me ficou de um quarteto do primeiro soneto que aprendi, chamado O Cristo de marfim: “Essa que passa por aí senhores/ de olhos castanhos e de altivo porte/ é a princesa ideal dos meus amores/ a mais franzina pérola do Norte”. Veja lá, uma criança de 4 anos saberia o que estava dizendo? (risos). Papai era um professor nato. Ajudava-nos muito nos estudos. Presunçosamente, vou dizer que eu era a predileta dele. Uma ligação imensa.

Como a literatura portuguesa apareceu em sua vida?

Meu pai era militar e morávamos em São Paulo. Entrei na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo, que estava começando. Isso foi em 1936. Faz tempo! Tive um professor de literatura portuguesa que foi o grande mestre da minha vida. O curso era literatura luso- brasileira. Lá fui eu ter a felicidade de ser aluna de Fidelino de Figueiredo. Você não imagina como foi uma revelação de tudo. Desde Camões, quem conhecia aos retalhos, mas de quem não sabia a importância. Ele me despertou um gosto que não acaba nunca, que espero que continue me acompanhando até o fim. Todos da família de Fidelino ficam gratíssimos a mim pela minha fidelidade, veja bem, quase canina.

Quais nomes chamam a sua atenção na literatura nacional?
Gosto muito de Manoel de Barros. Também gosto de outros dois poetas, que inclusive foram meus alunos: Antonio Carlos Secchin e Eucanaã Ferraz. Lembro-me de uma redação de Antônio Carlos (Secchin), que deveria ter no máximo 19 anos na época, que corrigi. Achei-a tão preciosa que escrevi: “Auguro-lhe um belo futuro”. Quando ele fez concurso para titular da faculdade, durante os cumprimentos, ele me entregou um envelope. Quando abri, era a cópia daquela prova. Ficamos muito amigos. E vou lhe dizer: foi ele que me pôs na Academia. Nem sonhava com essa pretensão. Ele me ligou e passou uma hora no telefone me persuadindo. No fim, por cansaço, acabei cedendo e redigi a carta me candidatando à cadeira. No dia seguinte, escrevi uma nova carta: “Desculpe-me. Não sei se isso já aconteceu, mas estou me descandidatando”. Mas já era tarde demais.

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