Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Lia de Itamaracá, cantora de cirandas e uma referência no estilo

Nascida na Ilha de Itamaracá, litoral norte de Pernambuco, Lia, 69 anos, conquistou público e prestígio, mas não conseguiu deixar o local de origem

Maria Madalena Correia do Nascimento é cozinheira das boas, e trabalhou por anos como merendeira em escola pública. Lia de Itamaracá é cantora de cirandas e referência no estilo. As duas são a mesma pessoa, mas confundiram-se a vida inteira entre o anonimato da servidora estadual e a originalidade da artista que chamou atenção de ouvintes em todo o mundo. Nascida na Ilha de Itamaracá, litoral norte de Pernambuco, Lia, 69 anos, conquistou público e prestígio, mas não conseguiu deixar o local de origem, nem subsídios para viver apenas da arte. ;Porque a idade tá chegando, neguinho, e a gente vai se enferrujando;. Liinha para os pescadores e Mãe Lia para os estudantes, ela impressiona, primeiramente, pelo tamanho: 1,80 m. A voz grave e o ritmo envolvente da ciranda complementam o trabalho.

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Uma força da natureza

Para quem não conhece a Ilha de Itamaracá, o que a senhora pode contar?
É uma ilha pequena, uma comunidade de umas 2 mil pessoas. As pessoas vivem da pesca, tiragem de coco; Itamaracá não tem nada: um cinema, uma indústria, não tem emprego pro pessoal. Quem vive de pescaria e tiragem de coco alimenta a família com aquilo. Agora, quem tem um empregozinho fora, sai, trabalha e volta. Para o Recife, de ônibus, é uma hora e meia. Tem ponte até o continente. O que há de bom na ilha é o dia da ciranda, e também (os estilos musicais): cocos, pastoril, caboclo, cavalo-marinho, fandango; Tem as praias também, do Sossego, do Forte Orange, do Pilar, Jaguaribe, que é o bairro onde eu moro. Mas, infelizmente, quem está no comando não tem cabeça pra essas coisas. Chega um veranista e pergunta como pode conhecer a ilha. Não tem jeito. ;Onde é que eu vou encontrar Lia?; Não sabem dar uma indicação. E eu ali há 69 anos. É falta de interesse. Não há apoio e investimento em cultura. Fico eu, ali dentro daquela ilha, a ver navios. Mas agora tenho meus empresários, que me levam pro mundo. Se ficar só em Itamaracá eu vou ver navio direto.

Existe na ilha um centro de atividades culturais erguido pela senhora?

Esse espaço cultural foi comprado com esforço meu. Ficamos tirando do bolso da gente, de shows, do meu salário de merendeira, para poder ter atividades todos os sábados. E esse povo (autoridades) nem ;tcham;. A gente fazia nossas cirandinhas, se esforçava, ajeitava tudo bonitinho... Chegou uma época que eu falei pro antigo prefeito: ;Eu, sozinha, não faço cultura. Ou vocês me ajudam ou eu paro;. Contrataram dois shows de ciranda. O prefeito saiu e não pagou. Entrou outro. Dois shows, de novo. Pagaram um, o outro não. Eu não trabalho sozinha, tenho equipe e responsabilidades com alimentação e transporte dos músicos, que são do Recife e da Paraíba. Tem a energia do espaço, a cozinha; Quando não tem turista, é a comunidade que vai. E qual é o pobre que vai pegar seu dinheiro de comprar caroço de feijão para pagar para beber e comer lá? A ciranda é de graça, mas isso por esforço de Lia e equipe. Como esse povo não enxerga isso? Todo município tem uma verba para turismo. Cadê esse dinheiro? Não pode ser assim. Recife é ainda pior. Eles estão acabando com a cultura de Pernambuco. E eu tô correndo de lá. Me sinto mais feliz fazendo meus trabalhos fora.

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