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Estado de Minas

Gênero da autoficção vira tendência na literatura contemporânea

O termo autoficção foi usado pela primeira vez por Serge Doubrowsky, no romance Fils, em 1977, para conceitualizar o conjunto de obras literárias que apresentam passagens da vida


postado em 13/01/2014 07:00 / atualizado em 13/01/2014 10:42



Autores de ficção quase sempre se deparam com a pergunta dos leitores: "Essa história é sobre você?". Em alguns casos, de fato, o traço autobiográfico se mistura à narrativa ficcional, embora muitos escritores não admitam ou se valham de técnicas sutis para suavizar nuanças das próprias histórias.

Conhecido por teóricos e críticos literários como “autoficção”, o gênero no qual personagem, autor e narrador dividem o mesmo campo ficcional transformou-se em tendência da literatura contemporânea, com alguns exemplos bem marcantes, incansavelmente estudados por acadêmicos. “Lá fora, César Aira, Philip Roth, J.M Coetzee, W.G Sebald, Paul Auster, Enrique Vila-Matas e Javier Marías; e, no Brasil, Cristóvão Tezza, Márcia Denser, Silviano Santiago, João Gilberto Noll, Sérgio Sant’Anna, Marcelo Mirisola e Ricardo Lísias”, cita o pesquisador Igor Ximenes Graciano.

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De acordo com Igor, o termo autoficção foi usado pela primeira vez por Serge Doubrowsky, no romance Fils, em 1977, para conceitualizar o conjunto de obras literárias que apresentam passagens da vida ou, até mesmo, características físicas e psicológicas do autor em um contexto claramente ficcional.

“Saber-se fruto de uma ficção é um dos pressupostos da autoficção. Caso contrário, estaríamos diante de uma autobiografia, em que se aceita de antemão que a vida narrada corresponde à verdade dos fatos”, explica Graciano, que, atualmente, faz doutorado em Estudos Literários pela Universidade Federal Fluminense e estuda a autoficção. “Meu interesse surgiu da leitura da prosa contemporânea que fiz tanto por motivos acadêmicos quanto profissionais, quando fiz uma consultoria para a Diretoria de Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura, em 2007. Diante da reiterada aparição do escritor como personagem — quase sempre protagonista — na narrativa brasileira recente, naturalmente me questionei sobre os motivos e implicações desse fenômeno.”

 

>> Três perguntas para Cristóvão Tezza

O filho eterno é uma obra sua bastante estudada quando se trata de autoficção. Esperava essa repercussão (pois se trata de um livro bastante premiado também)?
A palavra “autoficção” só entrou na minha vida recentemente, quando li alguns textos críticos sobre o meu livro. Ao escrevê-lo, não tinha nenhuma imagem prévia da autoficção como gênero. Eu esperava alguma repercussão, mas não necessariamente positiva - eu sabia que estava mexendo num vespeiro ao tratar literariamente de um fato da minha vida pessoal. Mas nem de longe imaginava que ia acontecer o que aconteceu, com todos os prêmios e, principalmente, a repercussão internacional. É um livro que já foi vendido para 15 países.

O senhor assume que O filho eterno é um registro ficcional com traços biográficos. O senhor poderia explicar como a ficção pode ser mesclada a algo verificável como é a autobiografia?

Tanto a biografia como a autobiografia têm um pressuposto de verdade, de fidelidade ao real, no sentido mais simples desta relação. Numa autobiografia eu não posso dizer que nasci, digamos, em Barcelona em 1980; sou obrigado a dizer que nasci em Lages em 1952. A perspectiva biográfica é substancialmente diferente da perspectiva ficcional. Já a ficção é livre - ela pode usar fatos reais (e a esmagadora maioria da prosa de ficção trabalha sobre a “realidade”), mas não tem nenhum compromisso com eles. O filho eterno usou alguns fatos da minha vida, para estruturá-los numa perspectiva ficcional. O livro está cheio de “mentiras”. Não é relevante para o leitor saber se o que está ali é “real” ou “não”. Mas é relevante para o leitor, quando lê uma biografia, saber que os dados ali informados são fatos, coisas que aconteceram realmente, e não fruto da imaginação do biógrafo.

Qual o lugar do autor na autoficção?
Não sei; eu de fato não parei para pensar em autoficção como um gênero estruturado.

 

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