Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Crimes reais fascinam leitores com histórias sobre a vida de criminosos

Grandes roubos, golpes, fraudes e assassinatos são explorados em livros que enfocam o interesse pelo lado dos vilões



Interpretar as consequências desse interesse se tornou a missão de vida da pesquisadora paulistana Ilana Casoy, escritora na área de violência e criminalidade. Ela acompanhou de perto casos emblemáticos, como o assassinato dos pais pela jovem Suzana von Richtofen e o homicídio da criança Isabela Nardoni. ;Meu diferencial é não estar ligada a nenhuma instituição. Não sou polícia, advogada ou psiquiatra;, resume Casoy.

Com a linguagem do público, ela apresenta informações inéditas. ;Não há ficção, porque tudo o que eu escrevo consta nos processos ou é fruto de minha participação direta. Isso ser um filão de mercado é consequência e não um projeto. Eu, por exemplo, já gostava do assunto, pesquisava bastante;. Para o psiquiatra Othon Bastos, a internet aproximou muito o público dos problemas da existência de uma maneira geral, e a doença mental é um fato intrigante em si. ;Nada mais natural, portanto, que o cidadão comum se interesse por esses desvios, pela doença mental, que é a doença humana por excelência;, assevera.

[SAIBAMAIS]Na literatura brasileira, a criminalidade é um mote recorrente. Mas o caminho nem sempre agrada quem vive de reconstituir trajetórias alheias. O crítico literário carioca José Castello, autor de livros sobre Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga, diz que jamais aceitaria a tarefa. Para ele, os cuidados precisariam ser redobrados, pois seria grande a possibilidade de o criminoso continuar usando máscaras.

;Corre o risco de você terminar biografando o personagem deles ao invés da pessoa. É um terreno pantanoso, para o qual me sinto despreparado;. Diante de clássicos como ;A sangue frio;, de Truman Capote, Castello reforça que o autor precisou se envolver com o personagem. ;São pessoas sedutoras, de personalidade duvidosas. Elas vão aceitar participar de um processo desses, e a questão da sedução vai se exarcebar mais ainda. O risco de você cair na armadilha é grande;.

O perigo é descrito no livro ;O jornalista e o assassino;, de Janet Malcom, sobre o relacionamento entre um acusado de assassinar a família e um biógrafo. O criminoso processa o escritor - com quem manteve uma relação de amizade em troca de dividir a intimidade e os bastidores do julgamento pelo qual fora inocentado. Motivo: a versão publicada (na obra ;Fatal vision;) difere da previamente acordada entre ambos - da qual dividiriam até os lucros. ;Se [o interlocutor] é assassino ou corrupto, vai fazer o máximo para desmentir a imagem. Está no direito dele. Mas isso só deixa o terreno mais pantanoso;, conclui José Castello.

ENTREVISTA >>> Psiquiatra Othon Bastos

Como enxerga o fascínio do público leitor pelas biografias e os atos criminosos cometidos por transgressores da lei?

O interesse por essas figuras sempre existiu. Entre elas, há aquelas pessoas que adoeceram mentalmente (tiveram depressão, exaltações, delírios;) e aquelas que têm um modo de estar no mundo bastante específico (traços de personalidade que podem ser genéticos ou não). A história mostra que entre esses transgressores há muitos casos de transtornos de personalidades, de personalidade amoral (ou borderline, como a psiquiatria chama). São pessoas sem censura ética, que se comprazem em aplicar sofrimento aos outros, como é o caso dos torturadores.

Como separar, então, psicopatas, sociopatas, e bandidos sem transtornos mentais?

Psicopatia não é, a rigor, uma doença. É uma má formação ou má estruturação da personalidade. No caso do sociopata, ele não tem o que chamamos de superego, a censura individual. Em um país miserável como o nosso, os atos daqueles que roubam por necessidade são muito diferentes do que faz um black bloc que destrói lojas ou fere pessoas.
Esse último pode se encaixar dentro do conceito de sociopatia, que gera a conduta anti-social. Essas ações podem até ter justificativas políticas e sociais, mas não deixam de ser crimes contra a sociedade. É preciso entender que todos os animais são violentos, inclusive os homens. Tornar-se violento é apenas usar a força psíquica ou física sobre algo ou alguém. Uma diferença entre o animal e o homem é que o animal não mata por prazer. Já o homem, por exemplo, pratica a caça, que é o prazer de destruir. Ele é agressivo por definição, é territorial, é competitivo.

Na visão do senhor, o interesse pelos criminosos e por seus atos ilegais tem aumentado?

Sim. A internet aproximou muito o público dos problemas da existência de uma maneira geral, e a doença mental é um fato intrigante em si. Nada mais natural, portanto, que o cidadão comum se interesse por esses desvios, pela doença mental, que é a doença humana por excelência.
Isso não significa, obviamente, que todo criminoso violento seja esquizofrênico ou possua doença mental grave. Mas quase sempre há algum transtorno de personalidade.

Consumir esse tipo de história, seja em livro, filme ou jornal, pode ser considerada atividade saudável?

Há uma promoção do crime por parte da mídia que, a meu ver, é muito negativa. Na minha televisão não sintonizo nenhum Datena ou coisa que o valha. Acredito que deve ser evitado um exagero em relação ao espaço dedicado a divulgar homicídios e suicídios. Uma das regras da saúde mental é evitar publicidade de suicídio de pessoas. Há uma banalização disso tudo.

PRATELEIRA DO CRIME

Seção

FRAUDES, GOLPES E ESTELIONATO

;Vips - Histórias reais de um mentiroso;, de Mariana Caltabiano (Jaboticaba, 192 páginas, R$ 44,50)

A história do vigarista e mentiroso compulsivo Marcelo Nascimento da Rocha. Ele enganou jornais, revistas e programas de TV fingindo ser quem não era. Virou filme.

;Al Capone e gangue;, de Alan MacDonald (Companhia das Letras, 192 págs., R$ 31,50)

Debruça-se sobre hábitos e mitificação do bandido, um homem mau, feio, rico, corrupto, poderoso e desumano, que andava com metralhadora debaixo do braço.

;Meu nome não é Johnny; (Record, 336 páginas, R$ 44,90), de Guilherme Fiúza

Narra como o playboy João Guilherme Estrella se tornou personagem graúdo da vida bandida carioca. Envolveu-se com drogas e entrou no mundo do dinheiro fácil.

ROUBOS E FURTOS

;Bling ring - A gangue de Hollywood; (Intrínseca, 272 páginas, R$ 24,90), de Nancy Jo Sales

Como um grupo de jovens ricos passaram a roubar e ostentar pertences de estrelas de Hollywood. Autora entrevistou envolvidos, advogados e as vítimas.

;Bonnie e Clyde - A vida por trás da lenda; (Larousse, 432 páginas, R$ 69,90), de Paul Schneider

Casal virou os EUA de cabeça para baixo nos anos 1930, criou a noção de ;bandido celebridade; e ainda inventou mitologia explorada tanto pela ficção.

;Inimigos públicos; (Globo Livros, 520 páginas, R$ 49,90), de Bryan Burroug

Narra a ascensão e a queda de seis lendárias facções criminosas dos anos 1930 nos EUA ; as de John Dillinger, Baby Face Nelson, Pretty Boy Floyd, entre outros.

ASSASSINATOS

;Richthofen - O assassinato dos pais de Suzane;, de Roger Franchini (Planeta, 129 páginas, R$ 19,90)

O caso da estudante de direito mandante do assassinato dos próprios pais, mortos a pauladas pelos namorado e cunhado. Informações novas são trazidas à tona.

;A prova e a testemunha;, de Ilana Casoy (Larousse Brasil, 240 páginas, R$ 29,90)

Trata do caso Isabella Nardoni, garota de 5 anos atirada por pai e madrasta do sexto andar de edifício em São Paulo. Autora acompanhou o inquérito por dois anos.

;O nome da morte;; (Planeta, 245 páginas, R$ 39,90), de Kléster Cavalcanti

Autor pernambucano conta a história de Júlio Santana, matador profissional. Em 35 anos de ;ofício;, ele teria matado quase 500 pessoas - tudo contabilizado em caderno.