Publicidade

Estado de Minas

Fechado desde 2007, Museu de Arte de Brasília está tomado pelo mato

O projeto executivo está pronto, mas ainda não foi licitado por falta de verbas ou por uma questão de prioridade


postado em 19/03/2014 08:03 / atualizado em 19/03/2014 10:36


O Museu de Arte de Brasília (MAB) abriu as portas em março de 1985 e, desde então, enfrenta uma batalha constante para manter-se vivo e digno de ser categorizado como uma instituição destinada a abrigar obras de arte. É uma batalha de Dom Quixote, amparada por uma série de cavalheiros cuja musa é um precioso acervo de mais de 2 mil obras capazes de contar a história da arte brasileira e brasiliense nas últimas oito décadas.

Fechado desde 2007 por recomendação do Ministério Público, que considerou as instalações do museu no Setor de Hotéis e Turismo Norte um risco para o acervo, a instituição já foi uma referência para artistas da cidade e um ponto de convergência cultural, no qual o encontro de gerações ajudava a formar público e profissionais.

Já foram três as tentativas de reforma do museu, nenhuma delas realmente efetivada. Agora, a Secretaria de Cultura do Distrito Federal acena com um terceiro projeto, que, se sair do papel, pretende fazer as reformas estruturais necessárias para abrigar com dignidade a coleção.

Leia mais notícias em Diversão & Arte

Hoje: descaso, falta de prioridade, burocracia, poucos recursos... as justificativas são muitas(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Hoje: descaso, falta de prioridade, burocracia, poucos recursos... as justificativas são muitas (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

O projeto executivo está pronto, mas ainda não foi licitado por falta de verbas ou por uma questão de prioridade. Enquanto isso, o acervo permanece guardado em uma reserva técnica do Museu Nacional. “É um absurdo o museu estar fechado. Ele é importantíssimo para a cidade. É uma luta permanente de pessoas que vivenciaram a história (do MAB) para recuperá-lo”, diz Lêda Watson, primeira diretora e fundadora do museu.

Glênio Lima dirigiu o MAB entre 2007 e 2010. Ajudou a embalar as obras quando a Justiça determinou o fechamento. “É uma perda para a cidade, é inquestionável. Ele era o nosso ponto, o único lugar para exposição que tínhamos nos anos 1980 e 1990. O espaço é icônico pela simbologia. E não se fecha um museu, se abre um museu”, aponta.

Hoje, o prédio está abandonado, com janelas quebradas e mato no lugar do gramado que deveria abrigar um jardim de esculturas. Sobreviveu à especulação imobiliária que transformou os arredores em um setor de hotéis de luxo, mas permanece interditado.

Escolhas políticas

De acordo com o artista plástico Ralph Gehre, que assumiu a direção do MAB entre 1997 e 1998, as escolhas políticas ajudaram a enterrar o museu. O primeiro projeto de reforma para o prédio — uma antiga casa de samba que servia de anexo ao hotel Brasília Palace — surgiu em 1997. Muito além de corrigir as instalações elétricas e hidráulicas, retocar a pintura e cortar a grama, a proposta sugeria mudanças estruturais.

A reserva técnica sempre foi o problema maior do prédio. Sem ventilação, sem mobiliário adequado, instalada no subsolo e sujeita a enchentes, a sala era catastrófica para as obras. A reforma, no entanto, nunca saiu da gaveta. Entre investir em eventos pontuais, como shows e festas, que tornavam as ações da secretaria mais visíveis e aplicar o dinheiro em um prédio afastado do centro da cidade, a primeira opção pareceu mais vantajosa para administração pública. “Foi uma escolha política. Ficamos sem o museu”, lembra Gehre, que chegou a catalogar todas as obras do MAB.

Nos anos 1990, a instituição serviu de fonte para a formação de artistas da cidade. Com obras que vão do modernismo de Tarsila do Amaral ao contemporâneo de artistas atuais, como Beatriz Milhazes, Tunga, Cildo Meireles, Ernesto Neto e Miguel Rio Branco, o museu reunia a história recente da arte brasileira. “Era onde tudo acontecia”, lembra o artista Elder Rocha. “Para mim, foi muito importante porque sempre foi um lugar que estava mostrando a produção da cidade e tinha cursos, oficinas”, conta.

O Museu de Arte de Brasília em 2005(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
O Museu de Arte de Brasília em 2005 (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)


Um vácuo

Foi uma experiência que Taigo Meireles não teve. Ele começou a graduação em artes visuais na Universidade de Brasília (UnB), em 2002, e concluiu em 2007, mas esteve no MAB uma única vez, durante uma visita organizada por um professor. “O fechamento gerou um vácuo. Senti muita falta, na minha formação, de um espaço com um acervo público que eu pudesse visitar, senti falta do acesso à pintura brasileira”, diz o artista, que escolheu a pintura e hoje está entre os jovens artistas mais bem sucedidos da cidade.

Bené Fonteles, curador do MAB entre 2007 e 2009, acredita que o museu foi tão maltratado que não chegou a ser uma referência para a cidade, apesar dos esforços de seus diretores. “Ele ficou sempre escondido e meio inoperante, até pelo lugar que é a sua sede. Apesar do acervo importante na passagem do moderno para o contemporâneo, o MAB nunca teve um foco educativo que trabalhasse de fato a formação de um público. E isso é muito grave!”, lamenta.

A falta de política pública para lidar com o espaço e a coleção levou o artista a deixar a curadoria e a denunciar a precariedade das instalações do prédio. Enquanto o acervo esteve guardado no Museu Nacional, Fonteles realizou 14 exposições com obras da coleção numa tentativa de deixar os trabalhos acessíveis ao público. Mas a falta de perspectivas fez com que deixasse o cargo.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade