Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Bandas brasilienses lançam novos álbuns recheados com críticas ácidas

DFC e Madrenegra apostam em distorções sonoras nas gravações



Tulio, no grupo desde o início da trajetória, comentou a evolução musical contida no novo disco. ;São 20 anos de diferença entre nosso primeiro disco e esse. O que se observa, apesar da fidelidade ao estilo, é a evolução natural da interpretação e das composições, com influências da época e de cada novo integrante, assim como a melhor qualidade das gravações;, avaliou. Fundada em meados de 1993, a banda lançou, já no ano seguinte, o álbum Tchan nan nan nan nan.

Entrevista com Tulio Dourado, vocalista do DFC

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A banda está há mais de 20 anos no cenário e ainda é uma das principais referências do gênero do DF. O que isso representa pra você?

É gratificante poder representar Brasília dentro do estilo musical que tocamos, depois de mais de 20 anos ininterruptos de shows e discos lançados pelo Brasil e pelo mundo afora. Quando começamos, ouvíamos e nos influenciávamos por bandas brasilienses da época, como Detrito Federal, ARD, Filhos de Menguele e BSBH; e hoje para nós é uma grande satisfação servir como referência para a nova geração de bandas.

É muito difícil manter uma banda de rock mais pesado por tanto tempo? Quais são os percalços que vocês precisaram superar para isso?

Por ser um estilo musical fora do padrão da grande mídia, sem apoio de rádios, tevês e grandes gravadoras, as dificuldades são sempre grandes. Começamos a tocar numa época em que não havia internet com e-mails, facebooks, MP3 e nem estúdios caseiros com pro-tools e nuendos no computador de casa. Na verdade, nem computador em casa existia. O processo então era bem mais rústico, desde os ensaios e gravações, nos poucos e nada acessíveis estúdios existentes, até a divulgação por meio de cartazes de xerox colados nos pontos de ônibus, fitas-demo confeccionadas artesanalmente e enviadas pelo correio tradicional. Os shows eram montados na primeira tomada elétrica que estivesse disponível pela frente. Atualmente, com a internet e a facilidade e a velocidade da informação, a divulgação melhora e as dificuldades são outras. Mas grande parte da nossa satisfação vem justamente do fato de vencer esses os desafios do passado e do presente e continuar tocando.

Como você descreve o som de vocês? Qual é o diferencial de vocês?

Nosso som é o hardcore, que basicamente é o lado mais agressivo do punk, com letras políticas e sarcásticas. Nós somos uma banda do jeito antigo, naquela idéia dos amigos que se juntaram para fazer um som, mesmo sem saber tocar direito. Fomos tocando e assim se passaram 20 anos. O diferencial é que a gente realmente existe, ensaiando, tocando e gravando sempre.

O novo disco segue com as letras marcantes? Como é o processo de criação de vocês? O que os influencia quando vão criar?

As letras continuam políticas e repletas do sarcasmo e da ironia de sempre. Procuramos retratar assuntos do nosso cotidiano e morar em Brasilia, com a proximidade do governo e de todos os seus absurdos e escândalos, faz da política um assunto inevitavelmente necessário nas nossas composições.

Você acha que a música é uma ferramenta válida para chamar atenção de problemas na sociedade e fazer protestos?

Sim, ainda existem muitos defeitos e injustiças em nossa sociedade e o fato de se dedicar a compor e escrever, musicando versos, às vezes em poucas palavras, com um sentimento de revolta ou indignação, para mim é muito mais válido e sincero como protesto do que uma frase de efeito compartilhada com hashtag no Facebook.

Entrevista com Marcelo Marcelino, vocalista da Madrenegra

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Quais são suas influências para compor músicas?


A Madrenegra foi feita há 2 anos. Já tinhamos intenção de falar de figuras históricas, como (Nelson) Mandela, (Mahatma) Gandhi, John Lennon, caras que defenderam o humanismo. Por isso, dentro da filosofia humanista, fazemos letra com formato de mensagem, contra preconceito, contra racismo, a favor da igualdade. Sempre escrevo letras depois que os caras compõem os riffs. Depois que a música está pronta, encaixo uma letra daquelas que escrevo todos os dias. Todo dia escrevo uma letra, uma estrofe, um verso ou um texto que acho importante para mim.

Mas e musicalmente falando, há alguma influência em especial?

Tenho muitas influências. Sou muito influenciado por Renato Russo, Raul Seixas, o próprio Chorão do Charlie Brown Jr. Já era fã dele, mas depois que conheci de perto a história e os caras que tocavam com ele, me tornei mais ainda. Além desses, admiro Bob Dylan, John Lennon, todos os Beatles. Nirvana; O Kurt Cobain, para mim, foi o último clássico que o rock produziu. Uma das mais importantes é Rage Against the Machine.

As letras de vocês têm muito protesto, você acha que consegue afetar a quem ouve?

A música é um veículo de massa, que atinge muitas pessoas. Vai direto no coração e no sentimento das pessoas. Quando você, artista, tem privilégio de compor e de escrever e consegue conciliar isso com uma mensagem impostiva, acho que é excelente para quem faz e quem ouve. Não acho que todos os compositores do mundo vão ser engajados com isso ou aquilo, mas têm obrigação de, no mínimo, enriquecer seu público. Se fizer diversão, música alegre, que é uma outra vertente, porque o rock ;n roll também é entretenimento, que faça algo bem feito e gratificante, faça algo que obrigue pessoas a pensar um pouco, se divertir com pouco mais de inteligência.

Você também é muito engajado com movimentos sociais, né?

Sou do Jardim Ingá desde que ele existe. Sempre fui envolvido com movimento para acabar com empresas de transporte que operavam lá. O transporte era ridículo. Ainda é, mas o monopólio foi quebrado. Sempre me envolvi com o orfanato que tem lá, que é o Sagrada Face de Jesus Cristo, também. Uma vez por ano, Madrenegra faz show para arrecadar alimentos e levar para lá. Dentro da perspectiva, qualquer coisa que surja no Jardim Ingá, ou em Brasília, ou em Luziânia, e possa melhorar minha comunidade, vou estar envolvido.

Como foi o contato com o Marcão e como vocês fizeram para ir a Santos?

Quando o Chorão morreu (março de 2013), como fã, mandei mensagens de confraternização, condolências para Samantha, que é a empresária deles. Ela respondeu um dia, agradeceu pelas palavras, e começamos a conversar. Fizemos amizade virtual, não a conhecia pessoalmente. Um dia, tempo depois da morte dele, veio a do Champignon (setembro de 2013). Mesmo processo, mandei mensagem e conversamos. Mais ou menos dois meses depois que ele morreu, comentei com a Samantha que tinha uma banda e que, modéstia à parte, éramos bons no que fazíamos. Achei que não custava nada mandar para ela o material. Mandei tudo isso e ela respondeu que gostou muito e pediu para que eu mandasse o CD. Eu disse que não mandaria, porque ela devia receber uns 50 CDs por dia e qie ia acabar não escutando. Mas propus que fossemos até Santos para tirar um som, para que ela pudesse ver pessoalmente. A Samantha disse para irmos sem compromisso, que tentaria achar um estúdio. Uma audição foi marcada e nós fomos para lá, com cara e coragem, sem conhecer ninguém. Tocamos 10 músicas, uma atrás da outra e depois ela me perguntou se teríamos coragem de sair de Brasília para ir para Santos.

E onde o Marcão entra na história?

Ela queria que o Marcão escutasse e produzisse nosso trabalho, porque aceleraria o processo e daria segurança, porque a Samantha não queria um produtor desconhecido ou um que ela não confiava. Ele ouviu o material e disse que gostou muito, que achou legal e que estava a fim. O Marcão nos disse que tinha agenda de janeiro a fevereiro e queria trabalhar no nosso EP. A gente começou a trocar ideias sobre músicas e ele sempre nos elogiou, dizia que não parecíamos com nada, que não éramos mais uma das cópias do Charlie Brown Jr, da Legião Urbana ou dos Raimundos, que tínhamos uma cara própria. Depois, o Marcão se ofereceu para gravar a guitarra de uma das faixas, nos amarramos na ideia e achamos muito legal.

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